quinta-feira, 30 de julho de 2015

DÍZIMO? O QUE É ISSO? PARTE I

Pastoral redigida para o boletim dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Decerto, uma das práticas evangélicas mais questionadas é o dízimo. Porquanto, embora muitos o reconheçam como bíblico, há quem o repute como desnecessário ou como um meio para explorar os fiéis. Infelizmente, pensamentos como esse são continuamente incentivados pela mídia. Contudo, não é necessário assistir televisão ou acessar a internet para ouvir críticas ao dízimo. Sempre há alguém próximo a nós fazendo comentários mordazes em relação às contribuições dos crentes. Uns argumentam que o dízimo é uma prática restrita ao Antigo Testamento; outros, no entanto, sem apelar para as Escrituras, acusam as igrejas e seus líderes de usar a fé dos frequentadores para manipulá-los e extorqui-los. 
A fim de derrubar esses preconceitos, pretendo, ao longo de algumas pastorais, esclarecer detalhes a respeito da contribuição conhecida como dízimo. O primeiro deles é o significado da palavra, o qual nos remete ao idioma hebraico, haja vista que o termo é uma tradução da palavra hebraica ma‘aser, que pode significar “dez”, “dezena”, “décimo”, “décima parte”. Isto é, “dar o dízimo” seria, na verdade, doar a décima parte daquilo que se recebe.
Ao contrário do que se pensa, o dízimo nunca foi restrito ao Antigo Testamento, nem mesmo à Israel. Os egípcios e os mesopotâmios já observavam essa prática antes do surgimento do povo hebreu. Na literatura secular, há inúmeros exemplos do emprego do dízimo no contexto religioso. Na Grécia e na Roma antiga, por exemplo, conquanto o dízimo fosse um imposto, era dedicado às divindades. De igual modo, Ciro, o grande conquistador persa, obrigava seus soldados a darem os dízimos dos despojos a Zeus.
O próprio Abraão, que só passou a servir ao Senhor com 75 anos (Gênesis 12.4), entregou o dízimo de seus despojos de guerra a Melquisedeque (Gênesis 14.20), sacerdote do Deus altíssimo. Ora, ele não havia recebido nenhuma determinação a esse respeito. É óbvio que sua atitude é resultado de sua cultura. Afinal, o patriarca dos israelitas era natural da cidade de Ur, localizada na Caldéia, antiga Babilônia, onde era comum levar dízimos ao templo.
Tudo isso mostra que o dízimo é um princípio espiritual reconhecido por muitos povos, e que ultrapassa os limites culturais. Esse princípio, ainda que fosse praticado pelos pagãos, foi ratificado pelo Deus de Israel quando concedeu Sua Lei ao povo que escolhera (Levítico 27.30-34). De igual modo, no Novo Testamento, Jesus não criminaliza a prática, como fazem alguns. Na verdade, em Mateus 23.23, Ele a ratifica, dizendo aos fariseus que não deveriam omiti-la.
Todavia, costumo afirmar que, mesmo que a Bíblia não dissesse nada, a própria lógica justificaria o dízimo, uma vez que nenhuma entidade filantrópica sobrevive sem doações. Até os partidos políticos são mantidos por contribuições. Não dá para arcar com as despesas necessárias para a manutenção de um templo sem uma contribuição mensal. Como seria possível ajudar os enfermos se não tivéssemos recursos? Como poderíamos realizar programações com crianças, por exemplo, nas quais damos doces, lanche e alugamos brinquedos (pula-pula, escorrego, etc)? Como custearíamos a formação de novos obreiros? É... o dízimo é necessário.

Pr. Cremilson Meirelles






segunda-feira, 27 de julho de 2015

QUEM SÃO AS DUAS TESTEMUNHAS DO APOCALIPSE? PARTE III

Pastoral redigida para o boletim dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa

    Enfim, chegamos à última pastoral sobre a identidade das duas testemunhas de Apocalipse 11. Conforme vimos anteriormente, embora haja uma relação analógica com Moisés e Elias, as testemunhas são figuras que representam a igreja de Cristo. Esta conclusão está em harmonia com todo o livro, uma vez que o Apocalipse emprega um grande número de símbolos para referir-se à igreja: sete castiçais, 24 anciãos, reis e sacerdotes, 144.000, grande multidão, templo de Deus e duas testemunhas.
Não dá para entender esses personagens literalmente, ou seja, como dois profetas que surgirão em um determinado momento histórico. Até porque, ao longo da Bíblia e de toda a história, as testemunhas de Cristo nunca destruíram os inimigos de Deus. Se o fizessem, contrariariam o ensino de seu Mestre: “amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mateus 5.44). O próprio Jesus, quando Tiago e João queriam que descesse fogo do céu sobre os samaritanos, os desencorajou dizendo que “o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9.56). Logo, o fogo que sai da boca das testemunhas não pode ser tomado ao pé da letra. Na verdade, ele simboliza o juízo que virá sobre os que rejeitam a Palavra de Deus. Afinal, no Novo Testamento, fogo sempre representa juízo.
Quanto aos outros prodígios relacionados às duas testemunhas (fechar o céu, ferir a terra com pragas, transformar água em sangue), trata-se de uma referência à resposta de Deus às orações do seu povo. Afinal, no Novo Testamento é dito que qualquer crente que ora com fé pode ter sua oração respondida tal como ocorreu com Elias, pois “a oração de um justo pode muito em seus efeitos” (Tiago 5.16-18). Mas, quem são os justos? Bem, de acordo com a Bíblia, todo aquele que crê em Cristo como Senhor e Salvador é justificado por Deus (Romanos 5.1), tornando-se, portanto, justo. Isto não significa ser perfeito ou isento de erros, mas ser declarado absolvido no tribunal de Deus. Por isso, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8.1).
         Por conseguinte, assim como Elias, a igreja de Cristo clama e obtém resposta de Deus. Esta verdade é claramente apresentada em Apocalipse 8.3-5, onde é dito que, em resposta às orações dos santos, Deus envia juízo sobre a terra. Portanto, como afirma Hernandes Dias Lopes, “quando o mundo rejeita a mensagem da igreja, ele se expõe ao juízo de Deus”.
     Como testemunha de Cristo, a igreja segue, desde sua fundação, proclamando as boas novas. Além disso, de acordo com o texto (Apocalipse 11.7), durante o tempo de sua proclamação, a igreja (as duas testemunhas) permanece indestrutível. Somente quando acabar seu testemunho, a igreja será, aparentemente, vencida pelo anticristo (a besta que sobe do abismo). Contudo, após um curto período de tempo (três dias e meio – Apocalipse 11.11), o povo de Deus ressuscitará e será arrebatado, visivelmente, aos céus (Apocalipse 11.12), assim como foi anunciado pelo apóstolo Paulo (1Tessalonicenses 4.16,17). Cristo, então, destruirá o “iníquo” (o anticristo) com o assopro da sua boca (2Tessalonicenses 2.8). Aleluia!



Pr. Cremilson Meirelles

sexta-feira, 17 de julho de 2015

QUEM SÃO AS DUAS TESTEMUNHAS DO APOCALIPSE? PARTE II

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Como afirma o escritor Adolf Pohl, “para a interpretação das duas testemunhas inicialmente deixamos de lado o número dois”. Até porque, conforme destacamos na pastoral anterior, o apocalipse é um gênero literário que emprega uma linguagem essencialmente simbólica. Isto fica evidente na abrangência da proclamação das testemunhas. Seus alvos são “homens de vários povos, e tribos, e línguas, e nações” (Apocalipse 11.9), ou seja, todos “os que habitam sobre a terra” (Apocalipse 11.10). Como, pois, dois homens apenas, poderiam pregar o Evangelho a um grupo tão amplo?
É importante ressaltar também que, no Antigo Testamento, todo o povo de Israel é identificado como testemunhas do Senhor (Isaías 43.10). Contudo, o texto do Apocalipse não se refere ao Israel físico, mas, sem dúvida, aponta para o Israel espiritual (Gálatas 3.29; 6.16). Afinal, em apocalipse 11.8, diz-se que o “seu Senhor foi crucificado”. Como o Israel físico não tinha Cristo como Senhor, concluímos que as duas testemunhas são, na verdade, um recurso simbólico para referir-se à Igreja.
Outro detalhe a ser observado, é a afirmação de que as duas testemunhas “são as duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Deus da terra” (Apocalipse 11.4). Este versículo constitui uma clara referência à visão profética registrada em Zacarias capítulo 4, onde as duas oliveiras são identificadas como “os dois ungidos, que estão diante do Senhor de toda a terra” (Zacarias 4.14). Esta imagem alude a Zorobabel, o governador de Israel, e Josué, o sacerdote, homens que viveram no tempo de Zacarias, os quais representavam o povo que regressara do cativeiro na Babilônia. Eles são as duas oliveiras citadas pelo profeta.
Todavia, em Zacarias 4.2,3, as duas oliveiras são mencionadas próximas a um único castiçal, contrariando Apocalipse 11.4, que fala de “dois castiçais”, os quais alguns identificam como sendo dois profetas. No entanto, o castiçal de Zacarias não representa pessoas. Ora, já que Apocalipse 11 toma por base o texto de Zacarias, não dá para levar ao pé da letra e dizer que os castiçais são dois homens. Mas o que são então? 
No livro de Zacarias, o castiçal, objeto usado para iluminar o santo lugar (parte do tabernáculo onde os sacerdotes partiam o pão da proposição), representa o testemunho que o templo e a comunidade judaica davam acerca do Senhor. Porquanto, o azeite de oliva posto no castiçal visava difundir a luz e dispersar as trevas. Dessa forma, como explica a escritora Joyce G. Baldwin, “[...] através da vida e do culto diários o povo deveria ser uma luz para outros”. 
De igual modo, Jesus, após chamar seus discípulos de “luz do mundo”, orienta-os a resplandecerem sua luz aos homens por meio das obras, a fim de glorificar o Pai (Mateus 5.14-16). Por isso, a igreja é chamada de castiçal no apocalipse, pois, por intermédio do testemunho do Corpo de Cristo, as trevas são dissipadas. Porque, conquanto a única luz verdadeira seja o próprio Jesus (João 8.1), Ele decidiu fornecer Sua luz ao mundo através de Sua igreja.  
Vale salientar ainda que as duas testemunhas são retratadas no Apocalipse vestidas de pano de saco (11.3). No Antigo Testamento, os profetas se vestiam assim a fim de protestar contra um pecado do povo e chama-lo ao arrependimento, ressaltando a vinda do juízo iminente. É exatamente isso que a igreja faz ao longo de toda a sua existência. Por essa razão, o texto diz que as testemunhas “profetizarão por mil duzentos e sessenta dias”. Isto é, a igreja seguirá proclamando o Evangelho no período compreendido entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. 
Pr. Cremilson Meirelles

QUEM SÃO AS DUAS TESTEMUNHAS DO APOCALIPSE? PARTE I

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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A identidade das duas testemunhas, apresentadas no capítulo 11 do livro do apocalipse, tem sido objeto de muita discussão e especulação ao longo da história. Quem interpreta o livro literalmente, ou seja, ao pé da letra, entende que se trata de dois homens que pregarão em Jerusalém durante o período da “grande tribulação”. Contudo, não há consenso a respeito de quem serão esses indivíduos. Uns pensam que serão Enoque e Elias, visto que estes não morreram; outros, entretanto, entendem que serão Moisés e Elias, baseados na semelhança entre os prodígios descritos no texto e os que foram realizados no ministério daqueles profetas.
É bem verdade, que, sem dúvida alguma, a imagem que João tem em mente é a de Moisés e Elias. Afinal, foi nos dias deste último que as chuvas foram interrompidas. Além disso, a referência às águas transformadas em sangue e às pragas aponta claramente para Moisés. Não obstante, o livro do apocalipse não pode ser interpretado literalmente, pois se o fizermos em um trecho teremos de aplicar a mesma interpretação aos demais. Sendo assim, a besta que sobe do abismo (Ap 11.7) deveria ser entendida como um monstro, no estilo godzila, se erguendo de um precipício, enquanto as duas testemunhas seriam dois homens que cospem fogo. Da mesma forma, o sinal na testa dos salvos (Ap 7.3) deveria ser visível, assim como alguns afirmam que o sinal da besta será. Todavia, o que nos daria condições de identificar o que é simbólico e o que é literal? Quem definiria isso? Como? Você percebe o absurdo desse raciocínio?     
Querido, apocalipse é um estilo literário, assim como o romance, e não apenas um livro. João utilizou essa maneira de escrever para que a mensagem que recebera de Jesus Cristo pudesse passar pela guarda romana da ilha de Patmos e ser propagada por toda a Ásia. Não se trata de um mapa do fim do mundo, ou de uma previsão de catástrofes reservadas para o tempo do fim. Na verdade, o livro fala sobre aquilo que acontece em todo o período compreendido entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.
Com base nisso, afirmamos com convicção que as duas testemunhas são um símbolo que representa a Igreja. Veja que o próprio contexto corrobora essa conclusão. Senão vejamos: no versículo 4 é dito que as duas testemunhas são os dois castiçais. Ora, castiçal no apocalipse é símbolo da igreja (Ap 1.20). Em adição, relembro que, tanto Jesus quanto os apóstolos utilizaram duas testemunhas para anunciar as boas novas (Lc 10.1; Mc 6.7; At 3.1; 8.14). O interessante é que é exatamente isso que as testemunhas fazem no apocalipse: elas profetizam (Ap 11.3), ou seja, proclamam a mensagem de Deus.
Outro ponto interessante acerca das testemunhas é que elas cospem fogo sobre aqueles que rejeitam sua profecia (seus algozes). O fogo nas Escrituras, sobretudo no apocalipse, é claramente um símbolo do juízo divino, o que traz à memória a Palavra do Senhor dita a Jeremias: “...eis que converterei as minhas palavras na tua boca em fogo, e a este povo, em lenha, e eles serão consumidos” (Jr 5.14). É óbvio que o povo não seria transformado em lenha e nem Jeremias cuspiria fogo. Deus usou uma linguagem simbólica para transmitir uma mensagem de juízo. De igual modo, a mensagem proclamada pela igreja de Cristo (o Evangelho) é uma boa notícia para os que creem, mas é terrível para os incrédulos (fala do juízo). Daí o fogo saindo da boca das testemunhas.
Pr. Cremilson Meirelles

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A TEOLOGIA DA BRECHA

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É comum ouvirmos e lermos críticas a respeito de frases como “o melhor de Deus está por vir”, “o novo de Deus chegou”, “eu profetizo sobre a sua vida”, etc. Contudo, há certos chavões que, mesmo sendo igualmente problemáticos, passam despercebidos pelos “radares teológicos”. Um exemplo disso é a expressão “dar brecha para o diabo”. Porque, embora pareça inofensiva, e até seja considerada, por alguns, como verdadeira, traz no seu bojo o veneno teológico que tem intoxicado o pensamento evangélico contemporâneo, sendo, portanto, extremamente nociva.
A impropriedade dessa frase se torna patente quando vasculhamos as Sagradas Escrituras, visto que ela não aparece em nenhuma das versões existentes. Mesmo assim, há quem objete, dizendo que o termo “trindade”, conquanto seja amplamente utilizado e aceito, também não é mencionado na Bíblia. No entanto, a maioria esmagadora da cristandade reconhece que a doutrina trinitária está presente em inúmeros textos bíblicos, o que não acontece com a teologia da brecha.
Então, de onde veio essa expressão? Para responder a essa pergunta, basta usar o mesmo veneno teológico que a gerou: ela surgiu porque alguém “deu brecha” em sua mente para que o falso ensino, uma das armas mais eficazes do inimigo, penetrasse no seio da Igreja. Até porque, quando submetida à análise, a ideia por trás da frase revela sua natureza antibíblica. Senão vejamos: a frase “dar brecha para o diabo”, sempre que proferida, dá a entender que ao redor dos crentes há uma espécie de “campo de força espiritual”, formado por anjos ou por alguma força etérea. Assim, quando as pessoas pecam abre-se nesse “campo de força” uma brecha, através da qual o diabo consegue penetrar e tocar a vida dos servos de Deus.
Partindo dessa premissa, os defensores da “teologia da brecha”, tal como os amigos de Jó, atribuem toda sorte de males (desemprego, divórcio, dívidas, doenças, acidentes, etc) à ação de Satanás por meio das “brechas” dadas pelos cristãos. Ou seja, conforme advogam, todo o mal que vem sobre nós é resultado de nossos pecados, pois quando os praticamos abrimos portas para a entrada do diabo. Seja sincero, há alguma base bíblica para isso? É claro que não!
Esse falso ensino leva os incautos a concluírem que seus atos podem lhes conceder bênçãos ou maldições. Isto é, se agirem corretamente, orando, lendo a Bíblia, dizimando, o diabo permanecerá longe. Contudo, ao menor sinal de erro, ele se aproxima, pois o pecado lhe dá “legalidade”. Assim, para manter o “corpo fechado” (ideia difundida pelo espiritismo), é necessário evitar todo tipo de transgressão. Com isso, a pessoa passa a obedecer a Deus por medo do que Satanás possa fazer, e não por amar o Senhor. Tal pensamento contraria os ensinos de Jesus, os quais apontam apenas uma razão para obedecer: o amor. “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos” (João 14.15).
Não podemos obedecer ao Senhor para escapar do diabo ou de alguma maldição. É o novo nascimento que levará a essa obediência, não a ameaça de alguém. Um milagre foi operado em nós! Somos novas criaturas (2Co 5.17)! Fomos regenerados! Fazemos o que fazemos porque Cristo nos transformou, não para obtermos bênçãos terrenas ou celestiais, nem mesmo para sermos protegidos das investidas de Satanás. Tudo o que ocorre em nossas vidas é resultado da graça divina. Nada que fizermos nos fará “merecer” ou “desmerecer” algo. Somos destinados ao inferno não pelo que fazemos, mas por quem somos: pecadores. Afinal de contas, é justamente por isso que pecamos. O pecado é a doença, os pecados são os sintomas. Pecar é o que fazemos com maestria. Logo, ninguém pode ir para o céu pelo que faz, mas pelo que Jesus fez. De igual modo, jamais seremos atacados por Satanás pelo que fizermos, mas por quem somos, a saber: filhos de Deus. Por conta disso, as Escrituras nos concitam a resistirmos ao diabo.
A propósito, é importante ressaltar que a ação de Satanás está debaixo da soberania de Deus. Ele nada faz sem a ordem divina. Até mesmo quando tentou Jesus (Mt 4.1-11), o diabo foi apenas um instrumento nas mãos do todo-poderoso. Por isso, a Bíblia diz que Cristo foi levado “pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo”. Isto é, a tentação fazia parte do propósito divino.
À luz dessas asserções, a pseudoteologia da brecha se mostra ainda mais contraditória. Pois, se são os nossos pecados que produzem as tais “brechas”, e todo ser humano é pecador (Rm 3.23; Ec 7.20), em tese, as portas estariam escancaradas para o maligno. Ninguém poderia escapar! Afinal, a Bíblia afirma categoricamente que “não há homem que não peque” (1Rs 8.46). Logo, não haveria as chamadas “brechas para o diabo”, uma vez que todos já estariam nas mãos dele. Que contradição!
O absurdo fica maior ainda quando lemos a história de Jó. Porquanto, o que motivou a ação satânica sobre a sua vida foi justamente sua retidão, e não algum pecado obscuro, como pensaram seus amigos. De igual modo, no livro do Apocalipse 11.3-7, as duas testemunhas, após cumprirem sua missão de proclamação, são assassinadas pela besta que sobe do abismo (o anticristo). Que pecado terrível cometeram as testemunhas para que um agente do diabo as matasse? Nenhum em especial. Na verdade, foram mortas por proclamarem o Evangelho. Igualmente, em Ap 13.1-7, a besta que sobe do mar (perseguição orquestrada por satanás) recebe permissão para fazer guerra aos santos e vencê-los. Qual a razão para isso? Pecados ocultos cometidos pela noiva de Cristo? É claro que não! A igreja é perseguida desde a sua fundação. Isto não é resultado do pecado, mas da fidelidade a Deus. O pertencimento ao Corpo de Cristo torna-nos alvo da perseguição de Satanás e seus agentes. Por conseguinte, o sofrimento, como diz o apóstolo Pedro, não deve ser considerado estranho à vida cristã (1Pe 4.12). O próprio Jesus nos ensinou que o simples fato de estarmos no mundo já nos traz aflições (Jo 16.33).
É bem verdade, entretanto, que, por sermos seus filhos, o Senhor nos guarda da ação satânica. Tanto, que as Escrituras afirmam: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca” (1Jo 5.18). Porém, isso não está condicionado àquilo que fazemos, mas ao fato de sermos filhos (nascidos de Deus).  Não importa o que façamos, o que nos livra do diabo é novo nascimento. Se sou nova criatura não preciso ter medo desse Ser caído. Na verdade, a postura que a Escritura nos manda assumir em relação a ele é a de resistência (Tg 4.7) e firmeza (Ef 6.11), jamais de medo. Porque a Bíblia nos garante que “maior é o que está em nós do que o que está no mundo” (1Jo 4.4).
A despeito dessas asserções, há quem argumente em favor da “teologia da brecha” citando Isaías 59.2: “Mas as vossas iniquidades fazem divisão entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça”. Não obstante, o texto em pauta nada tem a ver com essa doutrina. Porque, embora se refira a uma situação específica vivenciada pelo povo de Israel, encerra um princípio universal, a saber: o pecado mantém o homem afastado de Deus. Só a graça pode mudar essa situação. Não há nada no texto que indique que o diabo age quando pecamos.  
Todavia, os defensores da “teologia da brecha” não desistem facilmente. Quando acuados, utilizam a arma que consideram mais poderosa: Efésios 4.27; texto no qual Paulo adverte: “não deis lugar ao diabo”. Usando essa frase, eles pensam ter toda fundamentação bíblica de que necessitam. Será que estão certos? Seria essa a base bíblica para essa doutrina? Só se extraíssemos o texto de seu contexto. Do contrário, a resposta é não.
No texto em questão, o apóstolo estava orientando a igreja de Éfeso acerca da ética social cristã, a fim de manutenir a comunhão dos crentes. Esse objetivo fica patente nos versículos anteriores. Em Efésios 4.25, por exemplo, vemos que Paulo salienta a necessidade da unidade do Corpo, asseverando: “somos membros uns dos outros”. Ao comentar esse texto, Ralph Martin (1988, p. 198) destaca: “[...] o fato de a pessoa não honrar a sua própria palavra leva a um rompimento da comunhão cristã, porque essa prática leva a desconfiança e suspeita, e, por esse motivo, destrói a vida em comum no corpo de Cristo”.
Nos versículos seguintes (26 e 27), Paulo aconselha seus leitores a não permitirem que a ira se transforme em mágoa, ódio ou amargura. Porque isso, além de comprometer a harmonia da igreja, poderia servir de oportunidade para o diabo fomentar o furor e a resistência ao perdão, visto que esta é consequência inevitável da ira continuada. Para enfatizar esse ensino, o apóstolo emprega o termo grego diabolos (difamador, maldizente, caluniador), em lugar de satanás (adversário), título mais comumente associado ao inimigo.
Ademais, nada no contexto dá a entender que se pecarmos o diabo entra em nossas vidas e “faz arruaça”. Até porque, Satanás não pode nos controlar. Ele nos tenta (1Ts 3.5) e procura nos enganar com o falso ensino (Jo 8.44), mas não pode nos dominar. Agora somos dominados pelo Espírito Santo (Gl 5.18). O todo-poderoso está conosco todos os dias (Mt 28.20).   
Vale salientar também que Deus não está em guerra com o diabo. Seria uma luta extremamente desigual. Satanás já tem seu fim decretado: “o lago de fogo e enxofre” (Ap 20.10). O Senhor não está disputando as almas dos homens com o diabo. Ele já elegeu os salvos desde a eternidade (Ef 1.4). A história não está desgovernada; ela está nas mãos daquele que está assentado sobre o trono (Ap 5.1). O diabo não faz o que quer.
Alfim, se, mesmo depois de toda essa argumentação, você ainda continua pensando que não há problema algum no uso dessa expressão, pois entende que se trata de um modismo inofensivo, convido-o a refletir mais um pouco comigo. Pense: a teologia neopentecostal tem sido amplamente propagada por meio de canções, jargões e chavões. Frases como “eu profetizo sobre a sua vida” e “tá amarrado” estão eivadas de ideias extra bíblicas. Da mesma forma, é impossível dissociar as implicações da nefasta “teologia da brecha” do famoso jargão “dar brecha para o diabo”. Logo, a frase não tem nada de inofensiva. Por isso, recomendo: abandone-a e fique somente com as Escrituras.  Deus o abençoe!


Pr. Cremilson Meirelles

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002. 4 v.

FOULKES, Francis. Efésios: introdução e comentário. Série cultura bíblica. São Paulo: Vida Nova. 2011.

HENDRICKSEN, William. Comentário do Novo Testamento. Exposição de Efésios e Exposição de Filipenses. São Paulo: Editora Cultura Cristã. 2 ed. 2004.

MARTIN, Ralph P. Efésios. In: Comentário Bíblico Broadman. Tradução de Arthur Anthony Boorne. 2 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1998. 11 v. p. 157 – 217.



sexta-feira, 3 de julho de 2015

O VALOR DE UM BOM TESTEMUNHO

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa


A expressão “dar um bom testemunho” é bastante conhecida entre os evangélicos. Mas será que todos sabem o que isso significa? Aliás, você sabe o que é “dar um bom testemunho”? Talvez, responder a esse questionamento seja bem fácil. Acredito, inclusive, que diante dele muitos responderão: - claro! Significa obedecer a Palavra de Deus. Contudo, embora a resposta seja correta, ainda há outra pergunta que precisa ser respondida: você tem dado um bom testemunho? É bem provável que alguns, de imediato, respondam: - sem dúvida! Todavia, antes de responder, é necessário verificar o que as Escrituras falam acerca disso.
Inicialmente, é importante salientar que, de acordo com a Bíblia, a pergunta feita acima não pode ser plenamente respondida pelo próprio crente. Na verdade, os mais aptos a fornecer essa resposta são aqueles com os quais convivemos. Isto é evidente nas páginas do Novo Testamento. Em Atos 10.22, por exemplo, quando Lucas menciona Cornélio, destaca que, além de ser justo e temente a Deus, ele tinha bom testemunho de toda a nação dos judeus. Algo semelhante é dito a respeito de Timóteo, em Atos 16.2: “[...] do qual davam bom testemunho os irmãos que estavam em Listra e em Icônio”. Até mesmo quando Paulo enumera as virtudes que devem acompanhar quem aspira ao ministério pastoral, o apóstolo ressalta que uma das evidências da vocação é o “bom testemunho dos que estão de fora” (1Timóteo 3.7). A partir daí, fica bem claro que o bom testemunho deve ser percebido pelos outros e não autoproclamado. 
Por conseguinte, à luz das informações prestadas acima, surge mais uma pergunta: será que, aos olhos dos outros, você tem dado um bom testemunho? Decerto, este é um questionamento que deve nos inquietar. Afinal, ele não diz respeito só a nós, mas a Cristo e sua Igreja. Porquanto, desde que professamos publicamente a fé em Jesus, deixamos de representar apenas a nós mesmos. Tornamo-nos parte de algo maior. Assim como Davi que, ao combater o gigante Golias, representava sua nação e seu Deus (se ele vencesse, seria o mesmo que o Senhor vencendo a Dagom, deus dos filisteus), nós, quando, no dia a dia, lutamos pela santidade, seja no trabalho, na escola, ou no seio da família, representamos nosso Senhor e o seu povo. Logo, cada uma de nossas falhas acaba sendo atribuída a Jesus e ao seu Corpo (igreja).
Se um crente é hipócrita (não vive o que prega), por exemplo, sua hipocrisia é atribuída à igreja, se tornando um argumento para rejeição do evangelho. Da mesma forma, se um evangélico adultera, a pregação fica comprometida aos olhos do povo. Portanto, é muito importante preocupar-se com o que os outros pensam acerca de nossa conduta. Porque, dependendo de como o mundo nos vê, teremos ou não abertura para a proclamação das boas novas.
Pense nisso e reflita: - será que você tem dado um bom testemunho? Se a resposta for negativa, ore a Deus. Peça a Ele a direção. Sem dúvida, Ele falará ao seu coração e lhe dará condições de testemunhar onde quer que você esteja, em palavras e atitudes. Deus o abençoe!

Pr. Cremilson Meirelles