sábado, 12 de maio de 2018

ABSTINÊNCIA OU MODERAÇÃO? – ÚLTIMA PARTE

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa


            Como vimos até aqui, a elucidação do texto em torno do qual se desenvolve a controvérsia relativa ao consumo do álcool, depende da compreensão do sentido de duas palavras-chave, traduzidas como “sóbrio” e “vinho”, respectivamente: nephálios e oinos. A primeira, conforme explicamos, dá a ideia de abstinência do álcool, e a segunda pode significar tanto vinho fermentado quanto não fermentado. Quanto a esta variação semântica, vale ressaltar que há textos que claramente a evidenciam. Um deles é Apocalipse 19.15, onde é dito que Jesus “é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-poderoso”. Pois, embora a linguagem seja figurada, é óbvio que a base do simbolismo é o processo de espremer as uvas a fim de obter seu suco, e não o vinho alcoólico. Até porque, este é obtido através da fermentação. Logo, a palavra “vinho” nesse contexto, alude ao vinho novo, isto é, o suco de uva recém-extraído, que não era embriagante. O curioso, entretanto, é que o termo traduzido como vinho é o grego oinos, empregado noutros textos para indicar o vinho embriagante.
Semelhantemente, no Antigo Testamento, a palavra comumente traduzida como vinho embriagante, o hebraico yayin, também é usada com referência ao vinho não fermentado. Senão vejamos: Isaías, ao falar da aplicação do juízo divino sobre os moabitas, destaca: “o pisador não pisará as uvas (yayin) nos lagares” (Isaías 16.10). Ou seja, o profeta empregou yayin para referir-se às uvas, e não à bebida embriagante produzida por meio da fermentação do suco. Os produtores da versão grega do Antigo Testamento (a Septuaginta) seguiram o mesmo raciocínio e traduziram yayin como oinos. O mesmo aconteceu com Jeremias 48.33, onde yayin foi utilizado para aludir ao vinho do lagar, e traduzido como oinos na Septuaginta. Ora, o lagar era uma espécie de tanque escavado na rocha, no qual as uvas eram pisadas. O líquido resultante desse processo era o suco de uva não fermentado.
Apesar disso, na mesma epístola em que se encontram os versículos em torno dos quais se dá o debate sobre o consumo álcool, há uma orientação que, aparentemente, põe em dúvida as afirmações anteriores; qual seja, Paulo orienta o jovem pastor da igreja de Éfeso a tomar um pouco de vinho, com o propósito de aliviar problemas estomacais (1Timóteo 5.23). Para alguns, essa recomendação representa uma autorização para o consumo moderado do álcool. Contudo, antes de chegar a qualquer conclusão, é necessário levar em conta alguns aspectos frequentemente negligenciados na interpretação desse versículo. Um deles é o fato de que Timóteo não consumia bebidas alcoólicas. Afinal, se ele tivesse esse costume, o apóstolo não precisaria aconselhá-lo a beber; seria uma prática natural. A postura de Timóteo, possivelmente, resultava de sua dupla ascendência: grega e judaica. Isso porque, tanto judeus quanto gregos tinham por costume misturar o vinho com água, cortando assim seu efeito embriagante. Entre os gregos, inclusive, “tal prática era uma característica que distinguia o homem civilizado do bárbaro” (STRONG, 2004, p. 22).
Outro ponto fundamental é o uso medicinal do vinho. Isto é, Paulo não estava se referindo ao consumo com fins recreativos, mas à utilização da bebida no tratamento de enfermidades. Sendo assim, o texto não serve para fundamentar o consumo do álcool, ainda que moderado. Seria o mesmo que dizer que podemos, recreativamente, consumir remédios, o que é evidentemente um absurdo. Além do mais, é importante salientar que, de acordo com o escritor grego Ateneu de Náucratis (150-249 d.C.), o vinho empregado no tratamento de desconfortos estomacais deveria ser doce ou misturado com água. Pois, segundo dizia, “o vinho doce não deixa a cabeça pesada”. Sem dúvida, essa observação indica que Ateneu se referia ao vinho não fermentado. Por conseguinte, acredito que a orientação apostólica não visava o vinho alcoólico.  
Mesmo assim, há quem argumente que as frequentes enfermidades de Timóteo decorriam de seu hábito de beber nada mais senão água, visto que esta era de qualidade duvidosa; o que era bastante comum naquela época. Por essa razão, Paulo teria sugerido o consumo do vinho como uma alternativa para matar a sede. Embora isso seja possível, não é certo que o vinho recomendado fosse embriagante. Afinal, como explicamos anteriormente, o termo grego oinos podia indicar os dois tipos de vinho. Portanto, o melhor mesmo é manter distância do vinho quando este se mostra vermelho no copo (Provérbios 23.31), ou seja, quando não está diluído com água; e não consumir nenhuma bebida alcoólica. Porquanto, elas são alvoroçadoras (Provérbios 20.1).
                                                       Pr. Cremilson Meirelles




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Pentecostal. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: CPAD. 1995.

DAVIS, John D. Dicionário da Bíblia. 19 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1996.

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GINGRICH, F.Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento – Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 1984. 228 p.

HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: 1Timóteo, 2Timóteo e Tito. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.

KITTEL, Gerhard; FRIEDRICH, Gerhard. Theological Dictionary of The New Testament. Translator: BROMILEY, Geoffrey W. 1985

LOUW, Johannes P; NIDA, Eugene A. Greek-english Lexicon of the new testament based on Semantic Domains. Vol. 1: introduction and domains. New York: United Bible Societies, 1988.

STRONG, Roy C. Banquete: uma história ilustrada da culinária, dos costumes e da fartura à mesa. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2004.

TAYLOR, William Carey. Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego – Gramática. Rio de Janeiro: JUERP, 1990. Reimpressa pela Editora Batista Regular, São Paulo, 1999.