sábado, 13 de janeiro de 2018

É CERTO DAR DINHEIRO PARA A IGREJA? – PARTE XIV

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Como vimos até aqui, ainda que a lei do Antigo Testamento fosse, em grande parte, específica para o povo de Israel, por trás de suas normas há princípios gerais que se aplicam a todo o povo de Deus. Isso porque, tais princípios, assim como toda a lei, se baseiam no caráter imutável e impecável do Senhor. Para encontrá-los, entretanto, é preciso desconsiderar os aspectos legais que diziam respeito exclusivamente aos israelitas; ou seja, devem-se deixar de lado os aspectos casuísticos da lei.
Por essa e outras razões, tenho de discordar da conclusão, baseada em 2Coríntios 3.14, de que todo o conteúdo do Antigo Testamento foi abolido. Até porque, ao contrário do que alguns pensam, esse texto não afirma a invalidação da revelação veterotestamentária. Na verdade, o apóstolo Paulo estava explicando aos coríntios que Cristo tornou claro o sentido da “lição do Velho Testamento”, uma vez que aboliu o véu que impedia sua real compreensão. Sendo assim, quando alguém se rende aos pés do Filho de Deus passa a entender o verdadeiro significado de Moisés e sua lei. 
Essa interpretação do versículo em pauta está em consonância com a declaração de Jesus, em Mateus 5.17: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. Isto é, os princípios gerais contidos no Antigo Testamento nunca foram revogados. Afinal, tendo em vista que expressam o caráter divino, jamais poder-se-ia fazer tal coisa.
Seguindo esse raciocínio, penso que a validade do dízimo, enquanto princípio norteador para a manutenção de uma receita mensal, pode ser defendida com base em seu caráter apodítico. Afinal, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, as contribuições, com vistas ao sustento da atividade religiosa, estão presentes. No contexto da antiga aliança, vemos esse princípio claramente em Malaquias 3.10: “trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa”. Porquanto, ao desconsiderarmos os aspectos casuísticos do texto, fica evidente que o princípio por detrás da literalidade é o mesmo que aparece em 1Timóteo 5.17; isto é, o da manutenção da atividade religiosa.
Por se tratar de um princípio geral, não existe, por conseguinte, a obrigatoriedade da observância dos aspectos particulares da lei. Ou seja, ninguém precisa cumprir todos os detalhes da legislação relativa ao dízimo, só porque dizima mensalmente. Argumentar que isso é necessário, na verdade, seria incorrer no mesmo erro de que os críticos acusam os dizimistas, a saber, o apego aos ditames da antiga aliança. Portanto, o cristão que observa o dízimo como princípio norteador de sua atividade contributiva, não está obrigado a doar apenas cereais e animais, e nem mesmo a dar dois ou três tipos diferentes de dízimo; visto que essas normas eram exclusivas para os israelitas, e não princípios gerais. O mesmo vale, como já falamos, para a leitura diária das Escrituras: ninguém precisa escrever versículos da Bíblia nos umbrais da casa e nas portas, só porque observa o princípio de Deuteronômio 6.4-9.
No entanto, o mais interessante nisso tudo é que, embora muitos rejeitem esta argumentação, o que mais fazemos, enquanto igreja de Jesus Cristo, é utilizar princípios gerais para nortear nossas ações nos casos em que a Bíblia não explicita a conduta correta. Um exemplo disso é a masturbação. Pois, não há um ensino bíblico específico acerca disso. Geralmente, nos baseamos nos princípios relativos ao domínio próprio (Gálatas 5.22), à abstinência da aparência do mal (1Tessalonicenses 5.22), à glorificação do Senhor através do nosso corpo (1Coríntios 6.20), entre outros. O mesmo ocorre em relação ao fumo. Justificamos a abstinência, não com base em um mandamento, mas a partir de princípios gerais. Da mesma forma, levando em conta o fato de que, conquanto a aliança seja outra, a necessidade de manutenção da atividade religiosa permanece, não vejo delito algum em utilizar o dízimo como referencial contributivo; haja vista, que se trata de um princípio que o próprio Deus deu ao seu povo com o intuito de alcançar o mesmo objetivo.
Continua...

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KAISER, Walter C. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2007.

KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento: exposição da segunda epístola aos coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

É CERTO DAR DINHEIRO PARA A IGREJA? – PARTE XIII

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa

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 Sempre que o termo “dízimo” é citado há quem questione sua contemporaneidade, argumentando que, como sua observância está atrelada à lei mosaica, e esta foi abolida (2Coríntios 3.14), fazê-lo na atualidade seria o mesmo que negar a obra redentora de Cristo. Contudo, antes de abraçar esse raciocínio, deve-se levar em conta que, ainda hoje, há princípios exarados no livro da lei que permanecem em vigor. Um exemplo disso são os 10 mandamentos. Mas, como podemos saber o que ainda vigora e o que já está prescrito? Como diferençar isso? É o que veremos a seguir.
Inicialmente, é necessário frisar que a lei veterotestamentária possui duas formas básicas, denominadas: casuística e apodítica. As leis casuísticas, como sua etimologia sugere, tratam de casos específicos, buscando solucioná-los a partir da aplicação de princípios gerais. No Pentateuco, há diversos exemplos desse tipo de legislação. Um deles se encontra em Êxodo 21.2: “Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas, ao sétimo, sairá forro, de graça”. Perceba que a lei relativa ao tempo de serviço do escravo só era aplicável a um israelita que comprasse um escravo, e não a qualquer pessoa. Isto é, não se trata de um princípio geral. As leis apodíticas, ao contrário, são princípios gerais e absolutos, cuja aplicação não depende de quaisquer condições precedentes. Por essa razão, são construídas como cláusulas breves e imperativas. Os exemplos mais evidentes dessa forma legal estão no decálogo (os 10 mandamentos): “não matarás” (Êxodo 20.13). Contudo, como declaram Gordon Fee e Douglas Stuart: “[...] estas leis, embora sejam limitadas na sua redação, são muito abrangentes no seu espírito” (p. 143, 1984). Por conseguinte, são atemporais e universais; ou seja, não se aplicam somente ao israelita do Antigo Testamento.
É justamente com base nessa distinção entre as formas da lei hebraica que a maioria dos teólogos diferencia os aspectos civis, cerimoniais e morais da legislação do Antigo Testamento. Pois, enquanto as leis apodíticas transcendem os casos particulares, as casuísticas se aplicam especificamente à vida civil, religiosa, e ética de Israel. Por conta disso, grande parte da lei mosaica tem sua aplicabilidade limitada ao povo da antiga aliança. Afinal, as “[...] leis casuísticas, ou caso-por-caso, constituem uma grande porção dos mais de seiscentos mandamentos achados na lei [...]” (FEE; STUART, p. 144, 1984). As apodíticas, por outro lado, mantêm sua aplicabilidade, independente do povo, tempo ou lugar.
Cabe salientar também, que as leis casuísticas são, na verdade, uma aplicação específica dos princípios gerais, expressos nas leis apodíticas. Isso significa que, se desconsiderarmos os casos particulares, nos depararemos com os princípios gerais e atemporais. A partir das leis referentes à escravidão, por exemplo, podemos concluir que Deus ama o ser humano independente de sua condição social; porquanto embora os outros povos oprimissem seus escravos, a lei do Senhor, com suas rigorosas salvaguardas, impedia que isso acontecesse entre os israelitas, além de proporcionar condições dignas de trabalho. Essa constatação, entretanto, não deve levar-nos à conclusão de que podemos ou devemos escravizar pessoas; mas destaca a justiça e o amor incondicional do Todo-poderoso.
Outro princípio geral que pode ser depreendido das páginas do Antigo Testamento é a leitura frequente das Escrituras Sagradas. Até porque, no Novo Testamento não há uma ordem direta para que leiamos a Bíblia todos os dias. Tal prática, geralmente, se baseia nos princípios presentes no Antigo Testamento, ou em inferências a partir de versículos neotestamentários. Um dos textos mais empregados para esse fim é o Salmo 1, no qual a Bíblia assevera que o homem bem-aventurado é aquele que medita, com prazer, de dia e de noite na lei do Senhor. Outra passagem bastante utilizada é Deuteronômio 6.4-9, onde Deus ordena ao seu povo que fale sobre a Palavra de Deus todos os dias em todos os lugares (v.7), e a leia em todo tempo (v.8,9). É claro, porém, que o simples fato de esse mandamento conter elementos restritos ao povo de Israel (v.9), não indica que devamos desprezá-lo. Na verdade, conforme expusemos acima, é necessário desconsiderar tais elementos e abraçar os princípios subjacentes. Pois estes são atemporais e universais.
Continua...

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEE, Gordon; STUART, Douglas. Entendes o Que Lês? São Paulo: Vida Nova, 1984.

OSBORNE, Grant R. A espiral hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2009.

ALVES, Paulo Antônio. O mandamento do sábado no decálogo: um estudo exegético de Êx 20.8-11; Dt 5.12-15. Dissertação (Mestrado em Teologia) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2015.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

POR QUE ROMPER O ANO NA IGREJA?

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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            Conquanto não seja um mandamento, o famoso “culto da virada” passou a fazer parte do calendário da maioria das igrejas; e de acordo com pesquisas recentes, romper o ano reunido com sua comunidade de fé é a opção preferida dos crentes. É bem verdade, entretanto, que nem todas as comunidades de fé observam essa prática. Algumas optam por não realizar esse tipo de celebração, e incentivam os membros a comemorar com suas famílias. Mas, mesmo assim, há quem busque outra igreja para passar a “virada do ano”.
            Mas, por que é tão importante passar os últimos momentos do ano na igreja? Bem, a passagem de um ano para outro, embora não aconteça no mesmo momento em todos os países, é uma ocasião importante nas mais diversas culturas. Porém, desde a antiguidade, misticismo, orgias e bebedeiras fazem parte dessa celebração. Os cristãos genuínos, por outro lado, nunca abraçaram esse tipo de conduta. Afinal, como diz a Sagrada Escritura, isso fazia parte de nossa antiga natureza (1Pedro 4.3). Logo, jamais celebraríamos o início de um novo ano num ambiente que congrega embriaguez e promiscuidade. Além disso, seguindo o preceito bíblico de dar graças por tudo (1Tessalonicenses 5.18), é muito mais saudável que nos reunamos como igreja para agradecer ao Senhor pelo ano que se encerra.
            Sabe-se, no entanto, que muitos veem a “virada” como um momento mágico, no qual o destino pode ser definido; basta fazer a coisa certa: usar roupa branca, pular sete ondas, se equilibrar apenas no pé direito, brindar com champanhe, etc. Essas práticas estão presentes nas mais diversas reuniões. Lamentavelmente, até entre os evangélicos existem pessoas apegadas a essas crendices.
            Contudo, como falamos acima, o momento da “virada” é determinado pelo tipo de calendário que cada povo utiliza. Alguns usam o calendário solar, outros o lunar, e ainda há quem opte pelo lunissolar. Isto é, enquanto celebramos o fim do ano no mês de  dezembro, os judeus já o fizeram em setembro, os muçulmanos em outubro, e os chineses só o farão em fevereiro. Ora, como pode ser um momento “mágico” visto que não se trata de uma data universal? Não é um ponto fixo no tempo! Ademais, dias mágicos não existem! Essa crença é estranha ao ensino das Escrituras Sagradas. Todos os dias são iguais e foram feitos pelo Senhor: “este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele” (Salmo 118.24).
            Decerto, não há nenhuma relação entre o misticismo popular e a tradição de romper o ano na igreja. Por conseguinte, quem opta por reunir-se com sua igreja nessa ocasião, não deve esperar receber uma “bênção especial” simplesmente por estar ali e não em outro lugar. Na verdade, o “culto da virada” nada mais é do que a expressão de nossa gratidão e amor ao nosso Salvador, e uma demonstração pública de que rejeitamos os elementos da celebração secular (bebedeira, misticismo, promiscuidade).
            Portanto, aproveite essa data para convidar sua família e amigos para experimentar um réveillon diferente, com a igreja do Senhor. Deixe os fogos pra lá! Venha cultuar conosco! Com certeza, será muito mais edificante!
Deus o abençoe!
Feliz 2018!
Pr. Cremilson Meirelles