segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O QUE ESPERAMOS PARA O PRÓXIMO ANO?


Com a proximidade do fim de ano, muitas são as expectativas geradas em cada coração. Entretanto, de um modo geral as pessoas anseiam por um ano recheado de bênçãos, as quais, normalmente, são resumidas em três itens: prosperidade financeira, saúde e paz. Dificilmente, alguém deseja, para o ano seguinte, um melhor testemunho como crente, maior ação evangelística ou um relacionamento mais íntimo com Deus. Muitos pensam em novos namoros, novos bens a serem adquiridos, novas viagens a serem feitas, etc. Na mentalidade do povão, para conseguir essas coisas vale tudo: simpatia, superstições. Por causa disso, vemos um montão de gente usando roupas brancas no dia 31 de dezembro, dando sete pulinhos, rompendo o ano apoiado somente no pé direito, entre outras coisas. Será que essas coisas funcionam mesmo? Será que a cor de uma roupa, ou sete pulinhos, pode definir meu destino? Como isso seria possível? Não faz sentido algum! Parece até um pensamento infantil! Como um adulto pode crer numa coisa dessas?!?!? Acredito que a maioria nem para pra pensar a respeito, simplesmente faz porque sempre fez, porque recebeu assim de seus antepassados.
Não é errado desejar viajar, trocar de carro, ter saúde, paz, nem mesmo querer ganhar mais dinheiro; o problema reside na maneira como encaramos essas coisas, pois é isso que elas são: apenas coisas, nada mais. Não podemos colocá-las acima de Deus ou das pessoas, nem pô-las em pé de igualdade. Precisamos priorizar o que, de fato, é mais importante. Não dá para ficar andando atrás de superstições para receber, receber e receber. Parece que é só isso que importa na atualidade! Será que nos tornamos religiosos, como os fariseus? Damos o dízimo, mas não amamos e não servimos. Que fé é essa?
Amado, ser igreja é fazer parte do Corpo de Cristo, não um meio para receber benefícios materiais. O templo não é lugar de receber, mas sim de dar. O bem mais precioso para nós, já nos foi dado, a saber: a vida eterna. Agora que já recebemos, somos convidados a dar. Mas, dar o quê? Amor a Deus e ao próximo, doando nossas vidas para o serviço do Rei. Por isso, espero, sinceramente, que, no próximo ano, você busque se aproximar mais do Senhor, evangelizar mais, trabalhar na igreja, amar mais o próximo e viver, em todo o tempo, o evangelho que pregamos.
Pr. Cremilson Meirelles


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O PODER DO PAGANISMO

            Sempre que o fim do ano se aproxima, começam os discursos contrários às celebrações que têm lugar nessa época. Uns criticam apenas o excessivo apelo comercial que envolve esses eventos, enquanto outros condenam tudo e todos que fazem parte deles. Estes últimos justificam sua postura asseverando que todas essas festas, bem como os elementos que as constituem, são de origem pagã. De acordo com essa visão, quem participa delas está adorando os demônios que outrora eram cultuados nessa data, atraindo, assim, maldições sobre sua vida. Além disso, os adeptos desse pensamento entendem que a simples utilização de objetos e símbolos de origem pagã pode trazer uma série de malefícios espirituais e físicos sobre o indivíduo.
            Todavia, por mais que procure fundamentação bíblica para essas crenças, não consigo encontrar. Talvez seja porque essa doutrina não está lá, visto que nunca foi um pensamento cristão. Provavelmente, esse é o motivo pelo qual só encontro essas ideias em filmes de terror, em histórias de duendes e fadas, no filme do Shrek, do Harry Potter, Senhor dos Anéis, etc. Até porque, elas só fazem sentido nesse contexto. Do contrário, estaríamos atribuindo ao paganismo um poder que ele não tem. Não podemos fazer mais nada, pois tudo é pagão, em todo lugar tem um demônio escondido, tem um símbolo do Diabo. Cruzes!!! Não há lugar seguro! Parece que Satanás domina tudo! Não sobra nada para Deus! Somos levados a viver com medo, porque o demônio pode estar escondido em objetos, em palavras, em atitudes. Podemos estar adorando o inimigo sem sabermos! Por mais que eu nunca tenha ouvido falar em Mitra, Janus, Semíramis ou qualquer outra divindade pagã, posso estar adorando a elas agora, sem saber! Ai meu Deus! Será que o computador também é de origem pagã? Bom, a escrita alfabética é. Então, devo estar adorando mesmo. E a roupa que estou vestindo? Será que quem a fez era cristão? E se não era?!? Estou numa enrascada!
            Você percebe o absurdo dessa crença? Não faz sentido algum! Se crermos assim, ficaremos loucos. Pois, cedo ou tarde, descobriremos que tudo o que existe, um dia, foi empregado para fins religiosos. Conforme explica Mircea Eliade (2008, p. 18),

tudo quanto o homem manejou, sentiu, encontrou ou amou pode tornar-se uma hierofania[1]. Sabemos, por exemplo, que no seu conjunto os gestos, as danças, as brincadeiras das crianças, os brinquedos têm origem religiosa: foram, no tempo, gestos ou objetos cultuais. Sabemos, do mesmo modo, que os instrumentos de música, a arquitetura e os meios de transporte (animais, carros, barcos, etc) começaram por ser objetos ou atividades sagradas. Podemos pensar que não existe nenhum animal ou planta importante que tenha participado da sacralidade no decurso da história.  


Se formos eliminar de nossas vidas tudo o que já foi usado no paganismo, tudo o que é de origem pagã, é melhor deixar de viver. Veja bem, até os nomes dados aos dias da semana, assim como os nomes dados aos meses do ano são de origem pagã. O que fazer? Dar novos nomes para “quebrar a maldição”? De acordo com Viola (2005, p. 30),

Janeiro refere-se ao deus romano Janus; Março ao deus romano Marte; Abril vem de Aprilis, o mês sagrado de Vênus; Maio à deusa Maia; e junho à deusa Juno; Domingo (Sunday) celebra o deus sol; Segunda-feira (Monday) é o dia da deusa lua; Terça-feira (Tuesday) refere-se ao deus guerreiro Tiw; Quarta-feira (Wednesday) ao deus teutônico Wotan; Quinta-feira (Thursday) ao deus escandinavo Thor; Sexta-feira (Friday) à deusa escandinava Frigg; e sábado (Saturday) refere-se a Saturno, o deus romano de agricultura.


            O próprio corpo humano já foi usado em cultos pagãos; o sexo também foi largamente empregado para esse fim. O que vamos fazer, abraçarmos o celibato? Nada escapa ao paganismo! Até a calça que você usa originou-se em um contexto pagão. Sabia disso? Ela surgiu entre os antigos persas, por volta do século VI a.C. Os persas eram pagãos. Como a calça era o traje típico deles, naturalmente, usavam-na em seus cultos. E aí, vai continuar usando? O códice, precursor dos modernos livros, surgiu no século I da era cristã, entre os gregos, que eram pagãos. Vamos parar de ler livros por causa disso?
            Muita gente abraça essas baboseiras, mas nem sabe o que significa ser pagão. Este termo vem do latim pagani, que se referia aos camponeses, à gente do campo, do interior. Estes eram assim chamados por habitarem o pagus, ou seja, o país (MABIRE, 1995). Como os interioranos foram os últimos a abandonarem a antiga religião greco-romana, o nome paganismo tornou-se a designação dada pela igreja a toda e qualquer religião nacional. Porquanto, como o Cristianismo tinha aspirações universais, contrastava com as religiões da época, que, em sua maioria, eram limitadas geográfica e culturalmente. Por isso, passaram a ser chamadas de pagãs. Contudo, mesmo que o Cristianismo tenha prevalecido, seu surgimento se deu em mundo dominado pelas crenças pagãs. Muito do que já existia naquela época havia sido produzido por pagãos (os judeus não inventaram tudo). Logo, é natural que alguns elementos culturais tenham sido assimilados. Isso ocorre até hoje. Basta ver os ritmos e instrumentos utilizados pelos músicos em nossas igrejas. Já existe pagode gospel, pop gospel, rock gospel, forró gospel, hip hop gospel, etc. As guitarras, os baixos, as baterias, os teclados... você acha que isso tudo surgiu em um contexto cristão? Você consegue imaginar Jesus cantando com as três Marias fazendo backing vocal, Pedro tocando guitarra, João na bateria e Tiago nos teclados? É claro que não! Essa prática é produto da cultura na qual estamos inseridos.
            Só porque os romanos dedicavam o dia 1º de janeiro a Janus, deus dos portões, eu não posso mais celebrar o ano novo? Que absurdo! O fato de reunirmos nossas famílias e agradecermos a Deus pelo alvorecer de um novo ano, não significa que estamos adorando um deus pagão. A maioria das pessoas nunca ouviu falar nesse tal de Janus, como podem, pois, estar adorando-o? O mesmo se aplica a Mitra. Fala sério! Quem pensa assim, está limitando a Deus. Nosso Deus é o Todo-poderoso, ninguém é maior que Ele! Tudo pertence a Ele: dias, lugares, objetos, animais, plantas; são as pessoas que atribuem significados a essas coisas, mas, no fim, são apenas coisas, inanimadas, não há deuses nem demônios nelas. O uso que fazemos das coisas é que determina seu significado para nós.
            Essa crença de que objetos utilizados em qualquer forma de magia, ocultismo ou religião idólatra ficam impregnados de emanações malignas, como se demônios de fato residissem nos mesmos, assim como a ideia de que há dias fastos e nefastos, é a maior expressão do antigo paganismo. Esse conceito de espíritos malignos habitando em árvores, casas e objetos, nada tem a ver com as Escrituras. Estas mostram demônios atuando exclusivamente em seres vivos, humanos ou animais.
Por causa do pavor das maldições, um monte de crentes se privam das celebrações de fim de ano, quando, na verdade, deveriam aproveitar o ensejo para proclamar o evangelho. Não é errado comemorar. Errado é esquecer o real significado do que fazemos. Mais errado ainda é não comemorar com base nessa besteirada. Ninguém vai ser “amaldiçoado” por objetos, palavras, ou festas. A Bíblia diz que “aquele que é nascido de Deus o maligno não toca” (1João 5.18). É hora de parar de bobeira e adorar ao Senhor todos os dias, inclusive, no natal e no ano novo!

Pr. Cremilson Meirelles





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. Tradução de Fernando Tomaz e Natália Nunes. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

MABIRE, Jean; VIAL, Pierre. Os Solstícios: história e actualidade. Tradução de Nuno de Ataíde. Lisboa: Hugin, 1995.

VIOLA, Frank A. Cristianismo Pagão: analisando as origens das práticas e tradições da igreja. São Paulo: Abba Press, 2005.











[1] Uma manifestação do sagrado. Ao referir-se a esse “sagrado”, Eliade não tem em mente o Deus cristão, mas toda e qualquer forma de sobrenatural, pessoal ou impessoal. Ele quer dizer, portanto, que o homem utilizou tudo o que existe para adorar deuses. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O VERDADEIRO NATAL

Puxa! Como o ano passou rápido! Já estamos quase no natal! Já vemos casas enfeitadas, árvores natalinas montadas em espaços públicos, igrejas preparando suas programações especiais e muita, mas muita gente gastando o que pode e o que não pode. É, esse é um dos problemas desse período: tendemos a focar mais o material do que o espiritual. Gastamos um dinheirão para atender às exigências da sociedade (roupas novas, peru, bacalhau, presentes, etc) e acabamos iniciando o ano pagando as contas do anterior. Isso é natal? Definitivamente, não. Todos esses elementos “imprescindíveis” foram acrescentados à festa para nos fazer gastar mais e mais. O pior é que caímos direitinho nessa.
Quero te convidar a fazer algo diferente neste natal. Ao invés de apenas brincar de “amigo oculto”, deixe de ser oculto na sociedade. Faça a diferença! Pregue e viva o evangelho! Ao invés de gastarmos um dinheirão em guloseimas que só vão nos trazer problemas de saúde, ajude alguém que necessita, que tem menos que você. Faça isso não só no natal, mas ao longo de todo o ano. Ao invés de esperar receber presentes, presenteie as pessoas com o evangelho, anuncie a Palavra! Trabalhe para Deus, use seus dons para edificação do Corpo de Cristo.
O nascimento de Jesus deve nos levar à reflexão a respeito do valor do ser humano. Porquanto, para resgatá-lo, Deus foi capaz de se autolimitar e nascer como homem. O que você tem feito pela humanidade? O que você tem feito pelo próximo? Será que abraçamos o espírito dessa festa capitalista e passamos a pensar só em receber? Ou será que, como Jesus, temos pensado nos outros e ajudado? Mas a quem devemos ajudar? A todo aquele que perece, que passa fome (tanto física quanto espiritual), que sofre. Além da ajuda que devemos dar aos nossos irmãos que têm trabalhado sozinhos na obra enquanto nós assistimos de camarote. Precisamos arregaçar as mangas e trabalhar! Feliz natal!

Pr. Cremilson Meirelles

sábado, 21 de dezembro de 2013

“AMIGO OCULTO” OU “PRESENTEADOR OCULTO”?

 
            É muito comum, nos últimos dias do ano, sermos convidados (ou intimados) a participarmos de um momento de troca de presentes, comumente chamado de “amigo oculto”, “amigo secreto”, “amigo invisível”. Esse evento, que tem lugar nas festas que caracterizam esse período (Natal, Ano Novo), se tornou, com o passar do tempo, uma tradição mundialmente conhecida. Assim, na atualidade, é realizado com frequência entre os colegas de trabalho, membros de igrejas, vizinhos, familiares, amigos, etc.
A despeito das críticas de extremistas evangélicos, acredito que os problemas dessa prática nada têm a ver com sua origem, seja ela pagã ou não. Vejo essa brincadeira como mais um fator motivador do consumismo e coisificador do ser humano. Isto porque, de amizade ela não tem nada. O que prevalece, na verdade, é o desejo de receber, não de dar; só dou porque sei que vou receber. Há uma espécie de relação comercial nisso: toma lá, dá cá. Muitos, inclusive, dependendo da qualidade do presente recebido, nem querem participar mais, pois criam uma expectativa que nem sempre é atendida. Acham que deveriam ganhar algo igual ou melhor do que aquilo que deram; quando isso não ocorre, ficam frustrados. Participar do evento vale a pena na medida em que eu sou beneficiado. O outro se torna um mero presenteador, não um amigo. Aliás, embora, na maioria das vezes, a brincadeira aconteça entre conhecidos, existe sempre a possibilidade de um desconhecido participar. Isso aumenta as chances de recebermos presentes que nunca usaremos.
Nessa atividade, o conceito de amigo é completamente descaracterizado, visto que o “amigo” é alguém que eu não sei quem é, mas do qual eu anseio receber um presente. Parece que quase dá para ouvir a mensagem implícita: só é meu amigo quem me presenteia; não importa quem seja, de onde vem; não quero nem vê-lo no resto do ano, apenas na hora de receber meu presente. Isso é amizade? É claro que não! Não há qualquer relacionamento entre os “amigos” a não ser no momento da troca de presentes. É óbvio que, em algumas situações, pode até acontecer de tirarmos alguém com quem realmente tenhamos afinidade. Mesmo assim, uma amizade verdadeira não depende de bons presentes, mas de companheirismo, cumplicidade, amor e perdão. Por isso, creio que “presenteador oculto” seria um nome mais apropriado para essa brincadeira.     
Por outro lado, a expressão “amigo secreto” é um tanto quanto contraditória. Porquanto, se alguém, de fato, é meu amigo, como posso não saber quem é? Amizade implica relacionamento, proximidade. Contudo, entendo que a expressão é somente um título para a brincadeira. Não sou maluco. Mesmo assim, penso que para promovermos uma atividade que fortalecesse os vínculos de amizade, ao invés de dar presentes, deveríamos fazer o mesmo sorteio, mas levar os participantes a passar um tempo com a pessoa que tiraram. Talvez, fazendo uma visita, almoçando juntos[1]. É possível que tal iniciativa contribuísse para a diminuição das panelinhas, sobretudo, no contexto das igrejas.
Pr. Cremilson Meirelles




[1] Tomando, é claro, as devidas precauções para evitar problemas relativos às relações entre homens e mulheres.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

3 FORMAS DE ENXERGAR A REALIDADE

Mensagem pregada no dia 08/11/13 na PIB em Manoel Corrêa
Texto Base: 1 João 4.20
Será que todos nós vemos o mundo do mesmo jeito? Será que olhamos para as pessoas da mesma forma? Acredito que não. No texto em pauta, o apóstolo João trata exatamente dessa diferença de olhares. Ele olhava para o ser humano e via alguém que deveria ser amado, porém sabia que havia pessoas que, embora admitissem amar a Deus, não amavam o próximo. É justamente neste ponto que se encontra a maior dificuldade humana: o bom relacionamento. Isto porque, somos seres relacionais, ou seja, estamos sempre em relação com algo ou alguém. Ora nos relacionamos conosco, ora com as coisas, ora com o outro e ora com Deus. A maneira como enxergamos a realidade é que vai definir como se processarão essas relações. Quem é Deus pra mim? Quem é o outro pra mim? Quem sou eu? O que as coisas representam pra mim? Responder a essas perguntas é de suma importância para que possamos conduzir nossos relacionamentos de maneira agradável a Deus. Por isso, gostaria de apontar nessa mensagem três formas de enxergar a realidade.

1-     A PARTIR DO “EU”
Infelizmente, esta é a nossa inclinação mais forte. Tendemos a enxergar o mundo a partir de nós mesmos. É como se tudo estivesse circunscrito ao meu ego. Tudo e todos devem convergir para mim. O que não sou “EU” deve ser “MEU”. Esquecemos que quando dizemos “EU”, o “TU”, naturalmente está presente. De outra maneira, quem seria o receptor? Para quem se diria “EU”? Definitivamente, não há “EU” sem “TU”. A realidade relacional em que vivemos só existe a partir dessa dupla inseparável chamada “EU” e “TU”.
O grande problema é que não conseguimos reconhecer o outro como relevante, como ser independente. Normalmente, vemos o mundo a partir da perspectiva do “EU”. Isto é, o mundo é o “meu mundo”, a rua é a “minha rua”, o trabalho é o “meu trabalho”, a igreja é a “minha igreja”. Note bem. Excluímos o outro o tempo todo. Consideramos nossas experiências como padrão, como regra. Todos devem se enquadrar na nossa maneira de experimentar as coisas. Nossos pensamentos são sempre mais importantes do que o dos outros. Por isso, os impomos às outras pessoas. Nossos sentimentos são sempre mais preciosos, nossa experiência sempre mais veraz. Talvez, essa seja a causa do melindre e da hipersensibilidade de muitos, que entendem que tudo o que o outro faz é para feri-lo, ou que deveria ser feito para agradá-lo. O mais triste é que tudo isso nos faz sofrer. No final, somos nós mesmos que pagamos a conta.
Essa ideia de que o mundo é uma extensão de nós mesmos, de que tudo gira em torno de nós, é resultado do anseio, inerente a todo ser humano, de retornar ao estado primevo. Sabe, quando éramos bebês tudo girava em torno de nós: as pessoas nos paparicavam, brigavam para nos pegar no colo, para nos dar comida, disputavam para nos dar os melhores presentes. Em suma, vivíamos como reis. Contudo, aos poucos essa vida foi sendo tirada de nós. Primeiro alguém disse que devíamos andar; em seguida, nos mandaram comer sozinhos; depois, disseram que teríamos que fazer nossa higiene sozinhos; até que, um dia, nos cobraram um emprego. Mas o mais interessante é que passamos o resto da vida querendo voltar à antiga condição, isto é, a sermos bebês. Acredito, inclusive, que alguns nunca deixaram de ser. Mas a maioria de nós anseia por uma vida “perfeita” na qual terá pessoas para lhe servir, paparicar, não precisará fazer esforço, pois terá motoristas (pessoas que nos levarão, tal como faziam quando éramos crianças). O problema é que um dia voltamos a essa condição (na velhice, ou na enfermidade). É aí que percebemos o quão importantes são as pessoas. Passamos a vida toda pensando em nós mesmos, sem considerar o “TU” como um outro “EU”, achando que só a nossa existência é relevante. Tempo desperdiçado.
Amado, o mundo, a vida cristã, a família, a vida conjugal, não estão limitados ao seu ser. Na verdade, são muito maiores que isso. Há vida além de nós mesmos. Existe outra vontade além da minha. Não podemos exigir que as pessoas pensem como nós, não podemos obriga-las a fazer algo que elas não conseguem realizar. Precisamos amar alguém além de nós mesmos (Mt 22.39). Quando enxergamos o mundo a partir de nós mesmos, não conseguimos enxergar o próximo. O resultado é aquilo que João destaca no texto em questão: dizemos amar a Deus, que não vemos, mas não amamos o próximo, ao qual vemos.

2-     A PARTIR DO “TU”
Como falamos, o simples fato de proferirmos o pronome “EU” já pressupõe a presença do “TU”. Até porque, um não existe sem o outro. Eu sou o “TU” para o outro e o outro é o “TU” para mim. Entretanto, algo que nos inquieta é a limitação que o “TU” nos impõe. Não posso possuí-lo, não posso controlar sua vontade, seu pensamento, seus sentimentos. Ele escapa ao meu controle! É livre em relação a mim. Não posso mudar isso. Mesmo que o escravize, nunca conseguirei total controle sobre ele. Muitos tentaram fazê-lo sem êxito. Pela força, tentaram superar a limitação imposta pelo “TU”, mas falharam. Isto porque, os escravizados, os dominados, continuavam pensando livremente, sentindo e experimentando cada coisa do seu jeito. Isso ninguém pode mudar!
Nossa dificuldade de enxergar a realidade a partir do “TU” reside no sentimento de estranheza que ele causa em nós. Porquanto, de certa forma, a realidade fora do “EU” é estranha, perigosa. Por isso, tento moldá-la para que se pareça comigo, tento encontrar nela traços de mim mesmo para que, através da identificação, possa torná-la familiar. Ajo como se o outro fosse uma coisa, algo que posso manipular. Aliás, temos a tendência de preferir a relação com as coisas do que com as pessoas. Isto porque, com as coisas podemos manter uma relação unilateral, visto que elas não respondem. São apenas manipuladas, fazemos delas o que queremos. Esse “controle” nos acalma. Por isso, queremos fazer o mesmo com as pessoas. Isto é, toda decisão ou ação parte de mim. O outro nunca tem o direito de pensar, sentir ou decidir, e mesmo se o fizer não terá importância nenhuma para mim. Entretanto, precisamos entender que a coisa não é um outro “EU”. Não há reciprocidade entre mim e uma pedra, por exemplo, mas entre o “EU” e o “TU” há. Portanto, tratemos o outro com igualdade. Esse é o princípio básico do Cristianismo: “amar o próximo como a mim mesmo”. Em resumo: da mesma forma que eu me considero digno de ser amado, respeitado e reconhecido, devo considerar o próximo. Preciso entender que, assim como eu, ele enfrenta dificuldades, tem limitações e é tão carente da graça divina quanto eu. Isso é enxergar a realidade a partir do “TU”.
Ademais, não podemos esquecer que ao mesmo tempo que o outro é igual a mim, ele também é diferente. Por isso, eu não tenho que querer que ele seja como eu, que pense como eu, que sinta como eu. Ele é único, assim como eu. Quando digo “EU” reconheço que existo como ser, diferente do mundo à minha volta. Da mesma maneira, quando digo “TU” reconheço que o outro existe e é diferente de mim, pois se fosse igual seria “EU”. É necessário entendermos que vivemos em um universo plural, onde o objetivo deve ser viver a realidade do “NÓS”, ou seja, do bom relacionamento com essa pluralidade, não do egocentrismo tão alimentado por nossa sociedade.

3-     A PARTIR DO “ELE”
Tudo o que “EU” nomeio como “ELE” traz em si uma ideia de distanciamento, porque se fosse próximo seria “TU”. “ELE” é estranho para mim, não faz parte do grupo. Por isso, me causa desconforto. Todavia, à medida que alguém se aproxima, deixa de ser “ELE” e passa a ser “TU”. No entanto, inicialmente, todos para nós são “ELE”. Esse é o princípio que utilizamos para segregar. Só integramos alguém, só nos aproximamos quando há familiaridade, quando há identificação. Do contrário, não há relacionamento.
Com base nesse princípio, buscamos transformar “ELE” em “TU” através da imposição de nossos pensamentos e/ou comportamento. Forçamos o outro a falar como nós, a vestir-se como nós, a cortar o cabelo como nós. É isso que as “tribos” da juventude pós-moderna fazem. Infelizmente, até nós, como crentes, às vezes, agimos assim. Consideramo-nos detentores da verdade e excluímos aqueles que discordam dessa verdade. Precisamos amar mais, ver o outro como “TU” sem que seja necessária essa “adequação”. Se a pessoa vai mudar, o responsável por essa mudança é o Espírito Santo, não nós.
Outra forma de transição é a identificação. Isto é, só transformo “ELE” em “TU” quando percebo nele características do “EU”. Se isso não acontece, mantenho distância. Isso aconteceu entre negros e brancos durante muito tempo. O negro era “ELE” porque sua cultura e sua cor eram diferentes. Contudo, eu quero te dizer uma coisa: pra Deus você nunca foi “ELE”. Para Ele, você sempre foi “TU”. Desde o princípio, Ele buscou relacionamento conosco. Nos criou à sua imagem e semelhança para mostrar que há identificação entre Ele e nós. Ele se adequou ao nosso entendimento, utilizando uma linguagem humana para se revelar. Ele até mesmo se encarnou, adequando-se por completo à nossa realidade. Tudo isso, para que você o visse como “TU” e não como “ELE”.
Diante disso, eu pergunto: quem é Deus pra você? O “TU” eterno, o totalmente outro, diferente de tudo que você já viu, esse mistério tremendo e fascinante com o qual você se relaciona? Ou você o relegou à posição de “ELE” mantendo-se distante, procurando-o somente quando precisa? Sabe, às vezes, queremos fazer com Deus o que fazemos com o outro. Queremos que ele seja a extensão do nosso “EU”, que faça nossas vontades, que cumpra nosso querer. Todavia, se Ele fizesse isso, não seria Deus, seria “EU”. Temos de vê-lo como “TU”. Porquanto, o “TU” não está sob meu controle. Ele faz o que quer. Deus é plenamente livre. Não podemos dominá-lo. Temos, na verdade, que nos submetermos a Ele.

CONCLUSÃO


            Visto isso, concluímos que, embora os relacionamentos sejam difíceis, precisamos aprender com Cristo como devemos proceder para que eles sejam saudáveis. Não podemos enxergar o mundo a partir de nós mesmos. Isto nos faz desprezarmos o outro. De igual modo, olhar para o outro sempre como “ELE” nada tem a ver com a mensagem de Jesus. Segregação nunca fez parte do evangelho. Portanto, não pode existir no contexto da Igreja. Olhar a partir da perspectiva do “TU”, deve ser nossa meta. Até porque, acredito que foi assim que Jesus olhou para nós. Deixemos de lado os preconceitos, os prejulgamentos, e assumamos uma postura mais agregadora.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

QUEM É O PAPAI NOEL?

Para muitas crianças a figura principal na época de natal é o “bom velhinho”, isto é, o Papai Noel. Há, inclusive, quem ache estranha a exibição de filmes sobre o nascimento de Jesus nesse período do ano, afinal, o Papai Noel é a figura de destaque, logo, se algum filme deve ser exibido, o protagonista tem de ser ele. Infelizmente, esse tem sido o pensamento predominante no Ocidente.
Com o fito de combater essa ideia, cristãos sinceros têm buscado, a partir da análise da origem dessa figura natalícia, extirpá-la, pelo menos, do contexto cristão. Todavia, isso não tem sido fácil, pois até mesmo pais cristãos têm incentivado tal crença. Por conta disso, ao invés de tratar do contexto histórico que originou o mito do “bom velhinho”, pretendo apontar neste artigo, não o que o Papai Noel significou um dia, mas aquilo que ele significa hoje, ou seja, a verdadeira identidade desse personagem mítico.
Olhando por esse prisma, a primeira asserção que pode ser feita acerca da pergunta utilizada como título desse artigo é que Papai Noel é o reflexo do anseios da sociedade. Isto é, ele tem, segundo o mito, condições de atender um dos maiores desejos do homem moderno, a saber, obter o maior número de bens com o mínimo de esforço. Sem dúvida, a melhor figura para representar tais anseios é a de um vovô bonzinho, que distribui presentes. A criança não precisa fazer nada, basta ser “boazinha”. Porém, mesmo que a criança não seja “boazinha” ela acaba sendo presenteada. Todos os anos, fazendo bem ou mal, as crianças recebem presentes do Papai Noel, ou seja, não é necessário fazer nada.
O próprio velhinho (Papai Noel) é o retrato dessa realidade. Ele não trabalha, não faz esforço algum, porquanto tem um monte de gente (duendes, gnomos ou coisa parecida) que realiza o serviço pesado por ele. O que ele faz? É simples: anda por aí com seu potente carrão (trenó) voador e resplandecente, tirando onda, rindo para aqueles que olham para ele (ho, ho, ho), a fim de mostrar que sua “vida boa” lhe dá muita felicidade. Além disso, ele é claramente um sedentário (por isso possui aquela barriga imensa), não faz nada, mas vive feliz. Mas em que consiste essa felicidade? Simples: ele é feliz porque tem dinheiro. De outro modo, como poderia presentear todo o mundo? Eis a mensagem inserida nesse contexto: quando somos ricos, somos felizes, podemos aproveitar a vida ao longo de todo o ano, desfilando em nossos carrões, tendo pessoas para trabalhar pra nós, e uma vez no ano ajudamos as pessoas (não é assim que acontece?) e posamos como pessoas bondosas diante da opinião pública.  
O maior problema é que, com a chegada da adolescência o mito é desmascarado e o indivíduo descobre que eram os próprios pais que lhe davam presentes, alimentando a fantasia infantil. Entretanto, ainda que o mito seja desfeito, o anseio por reviver as sensações proporcionadas por ele permanece, ou seja, a felicidade continua sendo associada à recepção de presentes. O material segue prevalecendo em detrimento do espiritual, do abstrato. É isso que Papai Noel ensina: “a felicidade só é possível mediante a aquisição de bens”. Contudo, quando crescemos descobrimos que os bens só podem ser adquiridos com dinheiro, daí pode-se depreender que Papai Noel implanta nos infantes o germe do capitalismo, visto que torna o dinheiro o bem mais importante, afinal, é esse elemento que viabiliza a “felicidade”.  
A partir daí, é possível perceber que o Papai Noel é uma figura incentivadora do capitalismo. É por causa dele que ter se torna mais importante do que ser. É ele quem nos desperta para o consumismo. Quando a criança recebe o presente, recebe com ele uma semente do capitalismo. Ela passa a entender que, sem os bens (presentes), não é possível ser feliz. Cabe ressaltar, no entanto, que os bens concedidos pelo Papai Noel não são permanentes, precisam ser constantemente substituídos. A cada ano é necessário receber um novo presente. Essa necessidade de renovação é levada para a idade adulta e é ultra dimensionada no contexto capitalista, ou seja, tal como ocorria quando éramos crianças, como adultos continuamos a buscar essa renovação material, o que temos nunca é bom o suficiente, sempre existirá algo novo, melhor, de última geração, algo que na verdade não precisamos, mas se não obtivermos ficaremos frustrados e, consequentemente, infelizes.
Enquanto somos crianças tudo isso é legal. Porém, ao adentrar na adolescência nos deparamos com o mundo verdadeiro, onde as coisas são mais difíceis, onde precisamos entender as dificuldades financeiras de nossos pais. Só aí descobrimos que, se quisermos suprir a necessidade de aquisição e renovação dos bens implantada em nós desde cedo, é necessário trabalhar bastante, assim como fazem os empregados do Papai Noel. Por falar nisso, você percebeu que os “gnomos” do “bom velhinho” são anões? Papai Noel, que não faz nada, é grande e gordo, mas os gnomos (ou duendes), que realmente trabalham, são pequenos e mais magros que ele. Os coitados são explorados por um homem, que não é tão velho (só tem barba e cabelo branco), comilão e sedentário (a barriga evidencia isso). O trabalho deles nunca termina. Eles são escravos, nunca podem sair de lá. Sempre que vemos os gnomos nas estórias eles estão trabalhando. Esse é o retrato da vida do homem na pós-modernidade, pois este se tornou escravo do sistema capitalista, o qual o faz trabalhar mesmo depois de sua aposentadoria a fim de suprir sua necessidade de consumir. Uns poucos possuem abundância (Papai Noel), enquanto outros perseguem constantemente a utopia consumista: preencher o vazio em seus corações com os bens adquiridos. Em outras palavras, uns se tornam anões, isto é cativos do capitalismo, enquanto outros se tornam velhos obesos e ricos, que dominam os anões.
Outro aspecto terrível desse personagem mítico chamado Papai Noel, é a aceitação da mentira como válida. Isto porque, a mentira contada, por anos, pelos pais introduz no inconsciente do indivíduo a idéia de que, dependendo do propósito, mentir é perfeitamente aceitável, e pode, inclusive, trazer felicidade. O problema é que, mesmo depois de mentir por tanto tempo, os pais cobram a verdade de seus filhos. Quando estes utilizam o expediente usado por aqueles são duramente repreendidos. Como será que fica a cabeça de alguém diante de tantas contradições? Certamente, isso desperta o desejo de retornar ao tempo da mentira, quando tudo era maravilhoso. Assim, a mentira passa a ser vista com bons olhos e a verdade como algo ruim.
Confesso que isso aconteceu comigo. Quando descobri que Papai Noel não existia, fiquei profundamente decepcionado. O Natal perdeu o sentido, foi despojado de sua beleza, se tornou um dia como outro qualquer. Passei a sentir falta da mentira que me contaram, pois o mundo real era ruim, sem graça, sem alegria. Aos meus olhos, até mesmo a imagem de meus pais ficou manchada, afinal, eles mentiram para mim. A partir daí, achei que deveria criar meu próprio mundo e não aceitar aquilo que criavam para mim. Meus pais, na minha concepção (como pensam muitos adolescentes) não sabiam de nada. Só eu podia me conduzir. Graças a Deus um dia recebi a Cristo como Salvador e essa visão foi alterada. Não obstante, a partir desse testemunho vemos o prejuízo que o “bom velhinho” pode causar.
Apesar disso, a conseqüência mais danosa da inserção do Papai Noel no contexto natalino é a propaganda negativa da figura divina. Porquanto, Papai Noel é, na verdade, um “substituto de Deus”, alguém que possui características transcendentes. Você já se perguntou por que ele é chamado de pai? Ele tem filhos? Há quem diga que ele é o pai de todas as crianças. Ora, quem é o pai de todos? Deus. Outrossim, o “bom velhinho”, assim como Deus, tem servos que trabalham para ele. Porém, alguém pode dizer: “é, mas isso não o torna divino”. Mas, se olharmos com mais atenção, perceberemos que Noel tem atributos divinos. 1º ele pode estar em vários lugares ao mesmo tempo; na noite de natal ele entrega presentes em todo o mundo, a todas as crianças. Como ele faz isso? 2º Papai Noel é um ser transcendente (voa e tens poderes mágicos) e ao mesmo tempo imanente (se relaciona com as pessoas, dando presentes). 3º É onisciente, pois conhece todas as crianças do mundo.   
            Embora tais aspectos pareçam inofensivos, eles fazem com que uma mensagem muito pior seja transmitida. Porque, conquanto possua todos os “poderes” mencionados, Papai Noel é uma figura fraca, pois depende de animais, de anões, da atenção de crianças e dos comerciantes, os quais fazem sua divulgação. Por conta disso, quando crescemos somos convidados a abandonar esses “mitos”, afinal, seres onipresentes, oniscientes fazem parte de um mundo fantasioso, ou seja, não são reais. Como adultos, precisamos ser independentes, autônomos, é necessário abraçar a subjetividade e abandonar as verdades absolutas, porque estas não existem, nós temos que construir nossas verdades. Essa é a mensagem do Papai Noel.
            O Senhor Jesus, quando veio ao mundo, trouxe uma mensagem completamente diferente. Ele mostrou a verdadeira necessidade humana: Deus. Com isso, fez exatamente o oposto do Papai Noel, pois não apresentou um deus dependente do humano, mas um homem dependente do divino.  Ademais, provou que Deus não é uma figura pertencente a um mundo imaginário, mas é um ser que intervém na história, é o “Deus conosco” (Emanuel). Jesus não incentivou o consumismo, mas o amor, o qual leva não a adquirir, mas a doar, a Deus e aos homens. Ele mostrou que o mais importante não são os bens materiais, mas os espirituais. Não deixemos, portanto, que essa figura estranha ao Natal, chamada Papai Noel, ofusque o acontecimento mais importante da História: o nascimento de Jesus. Não minta para seu filho, o pai da mentira é o diabo (Jo 8.44). Apresente a verdade a ele, a saber: Jesus.


Pr. Cremilson Meirelles   

sábado, 30 de novembro de 2013

IDENTIDADE NA DIVERSIDADE (Mensagem pregada na Reunião da Subseção Litorânea da OPBB-FL)

Texto Base: 1Co 12.12-31

INTRODUÇÃO
Infelizmente, vivemos em um tempo no qual aquilo que dantes era padronizado, estruturado, sólido, foi dissolvido. Como afirma Zygmunt Bauman, a realidade contemporânea é essencialmente líquida. A relativização de tudo desnorteou não só pessoas como também instituições. As denominações que outrora eram firmes em seus preceitos e convicções fraquejaram diante da líquida era moderna, sendo quase que engolidas pelo neopentecostalismo. Os crentes tradicionais perderam algo que lhes era tão precioso, a saber, sua identidade. Por conta disso, hoje é possível ver, por exemplo, nas igrejas batistas, membros que defendem as mesmas doutrinas sustentadas por pentecostais e neopentecostais. Muitas vezes, o pastor, como guardião da ortodoxia, desiste de ensinar suas convicções doutrinárias por causa do gigante neopentecostal que arromba as portas do templo. Assim, as ovelhas acabam sendo pastoreadas pelos tele pastores ou por programas de rádio.
O texto em questão, na sua literalidade, não trata desse assunto.  Até porque, a Bíblia não fala sobre denominações. Mesmo assim, muitos usam o texto de 1Pe 4.10, afirmando que a infinidade de denominações se deve à “multiforme graça de Deus”, ou seja, as muitas divisões seriam, na verdade, uma maneira de Deus oferecer um cardápio variado de opções aos não crentes. Assim, os mais calmos poderiam procurar uma igreja mais calma, enquanto os mais agitados se encaixariam perfeitamente em um ambiente mais movimentado. Apesar de esta interpretação ser bonita e “politicamente correta”, sinto dizer que ela não expressa o real significado do texto, uma vez que o mesmo trata da diversidade de dons espirituais, não de denominações. 1Co 12, definitivamente, não fala sobre isso.
Na verdade, esse texto vem sendo largamente empregado para transmitir mensagens que versam sobre a comunhão, com temas do tipo “unidade na diversidade”. Porém, tomando por base o princípio identitário presente nele, pretendo utilizá-lo para abordar a questão da identidade denominacional, um aspecto da vida cristã que tem sido bastante desprezado. Para tanto, proponho o seguinte título: “Identidade na Diversidade”. A primeira coisa que desejo destacar a esse respeito é que:

A UNIVERSALIDADE NÃO ANULA A IDENTIDADE.

Como falamos, em 1Co 12, Paulo não tem a intenção de falar sobre denominações. Sua intenção prioritária é corrigir os desvios da igreja de Corinto, que lhe foram relatados pela família de Cloé (1Co 1.11), e através de Estéfanas, Fortunato e Acaico (1Co 16.17,18). Isto é, ele focava a solução de um problema local: a supervalorização da fala extática em detrimento dos outros dons e pessoas. Naquele contexto, os faladores de línguas eram considerados super espirituais, enquanto os demais eram desprezados.
A fim de resolver a questão, Paulo relembra seus ouvintes de que todos fazemos parte do mesmo corpo (1Co 12.12,13), e que esse corpo é constituído de pessoas com características distintas (gregos, judeus, servos, livres). Isto é, conquanto trate de problemas da igreja local, agora ele se remete ao caráter universal da igreja de Cristo. Tanto, que até ele mesmo se inclui (“todos nós”). Tal visão pode também ser aplicada a nós para lembrar-nos que o Reino de Deus não se limita à nossa confissão doutrinária. “Todos nós” fazemos parte de um mesmo corpo, assembleianos, congregacionais, presbiterianos, batistas, metodistas, etc.
Todavia, o que me chama mais atenção é que, ao apontar esse aspecto universal, o apóstolo mostra que a universalidade não anula a identidade. No corpo há diversidade, mas também há identidade. Há olhos, narizes, bocas. Um é um e o outro é outro. Ninguém é igual, mas todos são um. Paulo destaca a importância da orelha ser orelha e do olho ser olho. Um não tem que ser igual ao outro para ser do corpo (v. 16). Não precisamos pensar igual para fazermos parte do corpo de Cristo. Até porque, em função de nosso distanciamento histórico, existem inúmeras interpretações a respeito dos mesmos textos. Daí surgem pentecostais, neopentecostais e tradicionais, mas é importante que um seja um e o outro seja outro. Precisamos como Paulo fez, valorizarmos a identidade, pois fazê-lo é valorizar a diversidade.
  Pensar diferente não é errado, mas a forma como encaramos esse pensamento, a maneira como reagimos diante dele, é que pode erguer-se como barreira e dificultar as relações. Por isso, afirmo categoricamente: não precisamos brigar com outros, mas temos de saber quem somos. Orelha ou olho? Não é pecado discordar dos outros, não é errado ser um crente tradicional. Errado é acharmos que todas as denominações devem pensar da mesma forma. Sempre haverá pontos conflitantes entre os diversos segmentos evangélicos. Isso não é um fenômeno recente, a discordância esteve presente na igreja desde o princípio. Paulo, por exemplo, discordava da visão de Pedro e dos outros cristãos de Jerusalém. Estes criam que os gentios convertidos deviam observar os ritos e preceitos do judaísmo, enquanto aquele entendia que bastava que eles recebessem a Cristo como Salvador. Foi essa controvérsia que os levou à realização do primeiro concílio, em 51 d.C (At 15).
Embora Paulo não tratasse, como sublinhamos, da identidade denominacional, os princípios apresentados pelo apóstolo podem muito bem nos levar a essa reflexão. Até porque, a identidade é de suma importância, pois ela reflete o posicionamento interpretativo frente às verdades secundárias da nossa fé. Quem não tem uma posição definida fica a mercê das heresias que tão de perto nos rodeiam. “É preciso manter-se firme às crenças que temos, sem fingir que todas as religiões são a mesma coisa, pois claramente não o são” (TUTU, 2012, p. 26).
Contudo, com o passar do tempo a identidade denominacional foi esfacelada. Muitas igrejas batistas, por exemplo, encontram-se bem distantes da homogeneidade de outrora. Vemos pastores, ditos “batistas”, abençoando pessoas, dizendo: eu te abençoo! Muitos “profetizam” sobre a vida dos outros, desconsiderando a declaração de 2Pe 1.21, “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”; decretam bênçãos, creem em maldições, demonizam tudo, defendem a teologia da prosperidade, apresentam Deus como um “agiota”, de modo que se a pessoa não der o dízimo Ele trará enfermidades e toda sorte de males. Que absurdo!
Com isso, vemos que o pensamento neopentecostal invadiu nossa denominação. Ninguém liga mais para aquelas questões de antigamente (línguas, profecia), a moda agora são os objetos ungidos/amaldiçoados, o ungido do Senhor, as maldições, os rituais, etc. Em suma, elegeram o neopentecostalismo como uma nova ortodoxia e consideraram a teologia das igrejas históricas como ultrapassada. Acredito que isso é resultado dessas ideias contemporâneas que tanto nos angustiam, visto que propagam o pensamento de que a responsabilidade pelo crescimento da igreja que pastoreio é minha. Por conseguinte, se ela não cresce, a culpa é minha. Por isso, muitos não querem ensinar a verdade, enquanto outros preferem abraçar a mentira.
Ora, como podemos fazer tal coisa, visto que somos filiados a denominação batista, tendo abraçado não só seus princípios como também sua declaração doutrinária? Não podemos negar isso e professar uma nova fé, levando nossas ovelhas ao desvio doutrinário, negando nossa história. Se não soubermos quem realmente somos, como executaremos nossas funções com eficácia. Se a orelha pensa que tem que ser olho, como executará a função de orelha? Os pentecostais compartilham sua fé em todo o tempo. E nós, o que fazemos? Nos calamos. Precisamos resgatar nossa identidade. Nossas ovelhas precisam ouvir de nós a resposta para a pergunta: quem somos nós?
A segunda coisa que quero salientar é que:

IDENTIDADE NÃO SIGNIFICA SECTARISMO
Ter identidade denominacional não significa intolerância ou intransigência. Pelo contrário, como Paulo mesmo afirma não podemos dizer que não temos necessidade de “A” ou “B” porque não pensam como nós (1Co 12.21). Afinal, todos fazemos parte de um mesmo corpo! Paulo mostra que é possível amar mesmo em meio à diversidade de pensamentos. Todos são importantes. Cada um atua em uma área. Isto não nos torna inimigos. Apenas evidencia nossa identidade.
Quando Paulo diz que não devem existir divisões (1Co 12.25), ele não está dizendo que não devem haver denominações, nem está sendo contra a identidade denominacional. O termo grego traduzido como “divisões”, é o grego schisma que dá a ideia de rasgo, cisão, dissensão, divisão. O apóstolo o usa para referir-se às facções que caracterizavam a igreja coríntia (um era de Paulo, outro de Cefas, outro de Apolo, etc), não às denominações. Ele estava falando de divisões que geram conflitos, violência, animosidade.
Acredito que é possível nos relacionarmos como irmãos, filhos do mesmo Pai, sem abrirmos mão de nossas convicções. Afinal de contas, não é isso que acontece em nossas famílias? Quantos irmãos consanguíneos, embora se amem e convivam bem, discordam acerca de um ou outro ponto? Com certeza, muitos. Alguns, inclusive, possuem ideias diametralmente opostas. Mesmo assim, conseguem viver em comunhão.
Discordar não é brigar, é ser humano. Desmond Tutu, um bispo anglicano da África do Sul, utiliza em suas relações um lema que descreve muito bem aquilo que estamos falando. “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” (TUTU, 2012, p. 186). Pensar diferente não é o mesmo que não amar. Ao contrário, é entender que existe essa possibilidade, e que o outro, tanto quanto eu, tem esse direito.
Isso não significa, todavia, que tenhamos por obrigação, sob a ameaça da falta de amor, que convidar ou receber, em nossas igrejas, pregadores e cantores oriundos de outras denominações. Porquanto, o amor fraternal do qual a Bíblia fala é muito maior do que estar junto em uma programação ou poder pregar na igreja do outro. O amor deve ser manifestado no trato diário, fora dos limites físicos do templo. Até porque, normalmente, quando alguém prega, canta ou ministra, é inevitável a manifestação de sua identidade, seja “tradicional”, pentecostal ou neopentecostal. Somos filhos do mesmo Pai. Mas, pense comigo: se você tivesse um irmão que pensasse totalmente diferente em relação a educação dos filhos, o deixaria ensinar seu filho? Certamente, vocês iriam conviver, se amar, se ajudar, mas na sua casa o ensino continuaria sendo sua responsabilidade. Não querer que seu irmão dirija seu carro, porque você o considera mau motorista, não significa que não o ame. O amor cristão deve ser mostrado no dia-a-dia. Programações não mostram amor, só demonstram uma postura politicamente correta.

CONCLUSÃO
Acredito ser possível convivermos com nossos irmãos pentecostais e neopentecostais, desde que sejam respeitados os limites de cada identidade denominacional, sem que um se imponha ao outro. Afinal de contas, isso é amar: compreender, tolerar, andar mais uma milha. É possível sim haver identidade na diversidade. Basta apenas entendermos que a universalidade não anula a identidade e que identidade não significa sectarismo.

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

TUTU, Desmond M. Deus não é Cristão. Tradução: Lilian Jenkino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

DEVEMOS CELEBRAR O NATAL?


 
Com a proximidade do Natal, é comum ouvirmos mensagens, estudos e debates acerca da legitimidade dessa comemoração no contexto evangélico. Há quem se posicione de maneira contrária, argumentando que tal celebração é estranha ao cristianismo, pois se originou no seio do paganismo. Outros, advogando a mesma postura, utilizam outro argumento. Dizem que, por Jesus não ter nascido no dia 25 de dezembro, não devemos celebrar tal festa. Por outro lado, há ainda aqueles que, mesmo professando a fé cristã, defendem a realização da festa, assim como a utilização de todos os elementos que lhe são inerentes.
Diante de tantos discursos a respeito de uma das festas mais famosas do mundo, quem está com a razão? O crente deve celebrar o Natal ou não? Decerto, tais questionamentos permeiam os pensamentos dos membros de nossas igrejas. A fim de elucidar tais indagações, proponho-me neste artigo a discorrer sucintamente sobre o tema à luz de uma perspectiva histórico-fenomenológica, pontuando as particularidades inerentes à origem de tal prática e analisando sua interpretação atual.
Inicialmente, é necessário destacar algumas verdades acerca do assunto. Uma delas é o fato de que a celebração realizada no dia 25 de dezembro tem sua origem na religião pagã, mais precisamente no culto prestado ao deus-sol, a outra é o total desconhecimento histórico sobre a data correta do nascimento de Jesus. Realmente essas afirmações são genuínas, porém, como concluiremos mais à frente, não constituem justificativas plausíveis para a abolição da comemoração. Não obstante, antes de chegarmos a tal conclusão, é necessário apontar os fatores que contribuíram para que, mesmo diante dessas informações, o Cristianismo abraçasse essa festa.
Certamente, um dos grandes responsáveis por esse sincretismo foi o imperador romano Constantino, o qual, no início do século IV, emitiu o famoso “edito de Milão”, fazendo cessar a perseguição sobre a Igreja e permitindo a expansão da fé cristã. Porquanto, de acordo com Justo González (1995), embora ele, aparentemente, tenha se convertido ao Cristianismo, sua interpretação da fé cristã não o impedia de adorar outros deuses. Assim, ainda que construísse igrejas e proclamasse leis favoráveis aos cristãos, Constantino nunca abandonou o culto do deus-sol, conhecido entre os romanos como Sol Invicto. Tal postura, segundo González (op. cit., p. 33), foi motivada pela maneira como enxergava a divindade cristã, visto que “[...] durante boa parte de sua carreira política, pensou que o Sol Invicto e o Deus dos cristãos eram o mesmo ser” [...]. Este posicionamento é retratado por Duruy (apud. MABIRE, op. cit., p. 69), o qual “assinala que Constantino compôs para ser recitada ao domingo pelas legiões uma oração que tanto podia satisfazer os adoradores de Mithra, como os de Serápis, do Sol e do Cristo”. Ademais, González (op. cit.) ressalta que até o ano 320 Constantino manteve a imagem do sol cunhada nas moedas romanas.
Mais à frente, sob o reinado de Teodósio, o Cristianismo acabou por tornar-se a religião oficial do império romano. Por conta disso, Teodósio, em 392 d.C, proibiu definitivamente os cultos pagãos, tanto privados quanto públicos. Tudo isso com o fito de tornar universal a fé abraçada pelo império. Contudo, as tradições relativas ao paganismo permaneciam vivas nas zonas rurais. Em função disso, conforme explica Mabire (op. cit.), a Igreja optou por integrar os elementos pagãos que se mostravam desenraizáveis, dando-lhes um novo significado. Isto é, a ideia era dar uma roupagem cristã às celebrações pagãs.
Destarte, as festas que comemoravam os solstícios, foram substituídas por celebrações cristãs, as quais até hoje fazem parte do calendário religioso. O maior exemplo disso é o Natal, comemoração que foi sobreposta à antiga festa realizada no solstício de inverno (ocorrido em dezembro no hemisfério norte), cuja motivação religiosa era o nascimento do deus Mitra, o Sol Invicto.
Um exemplo claro dessa assimilação é a tradicional árvore de Natal. Este elemento era comumente utilizado, pelos povos germânicos, por ocasião do solstício de inverno. A árvore recebia uma série de enfeites relacionados ao sol, a saber, velas, bolas multicolores e uma roda solar no topo. A esse respeito cabe salientar que os pagãos, sobretudo os indo-europeus, sempre atribuíram sacralidade às árvores. Há, inclusive, na mitologia nórdica uma árvore sagrada associada à vida e ao conhecimento, denominada yggdrasil.
No entanto, mesmo que a festa em questão, assim como seus elementos sejam de origem pagã, é importante ressaltar que isso não significa que o fato de celebrarmos o Natal nos transforme em pagãos. Até porque, ao longo do tempo, a antiga festa pagã foi praticamente esquecida. Aquilo que as pessoas fazem hoje durante o período do Natal não tem ligação nenhuma com a adoração do Sol Invicto. A maioria das pessoas nunca ouviu falar nesse tal de Mitra. Trata-se de uma divindade falecida. Ninguém lembra mais dela. Foi relegada ao esquecimento. Da mesma forma, quem usa os enfeites de Natal, por mais que alguns extremistas encontrem significados pagãos em cada um deles, ninguém usa, hoje em dia, uma árvore de Natal pensando em Odin, em yggdrasil (as pessoas nem sabem pronunciar isso!). Todos veem esses objetos como ornamentos. Por isso, os utilizam com uma finalidade exclusivamente decorativa.
Dizer que quando alguém usa esses objetos está trazendo maldição sobre a sua vida é um completo absurdo. Porquanto, em momento algum, a Bíblia afirma que podemos receber “maldições” através de objetos (eu hein!). Só quem pode amaldiçoar é Deus. Porém, a maldição que estava sobre nós, o pecado, foi retirada por Cristo na cruz do Calvário.
Quanto à data na qual a celebração é realizada, quero sublinhar que 25 de dezembro não é o dia do deus-sol. Sem dúvida, um dia foi, mas há muito tempo deixou de ser. Você conhece alguém que celebra o Sol Invicto nessa data? Nem eu. Se dissermos hoje que a referida data é o dia do deus-sol, estaremos dando a essa divindade uma data específica, como se ela fosse dona desse dia, e, por outro lado, estaremos negando a Jesus uma data (“essa não pode Senhor, já tem dono” – que absurdo!).
Outro ponto a ser destacado é a possibilidade de celebrarmos o nascimento de Jesus na data em questão. Mesmo que não seja a data em que Ele nasceu, qual o problema? Só porque não sabemos qual foi o dia exato de seu nascimento não podemos celebrá-lo? Ora, a páscoa é celebrada todos os anos em datas diferentes e ninguém fala nada. Alguns, defendendo a ideia de não celebrar o Natal, dizem: “temos que celebrar o nascimento de Jesus todos os dias!” Sinceramente, isso só piora as coisas. Eu não posso separar uma data específica para comemorar o nascimento de Cristo, só porque há dois mil anos atrás esse era o dia do deus-sol, mas posso fazer isso todos os dias. Será que essas pessoas já pararam para pensar que os outros dias do ano também podem ter sido dedicados a divindades pagãs? Assim, estaríamos correndo o mesmo risco.
Cabe, entretanto, à Igreja de Cristo celebrar, na data em pauta, o nascimento de Cristo, não o capitalismo. Para tanto, é necessário expulsar da festa os elementos que, por conta de seu significado atual, tiram Jesus do centro dessa comemoração. É o momento de aproveitarmos para proclamarmos a Palavra de Deus, não um monte de baboseiras que nos fazem mais parecermos fanáticos religiosos do que servos de Cristo. É bom aproveitarmos a tradição de reunir as pessoas na noite de Natal para anunciar o verdadeiro significado da festa, cantar louvores ao Senhor e exercitar a comunhão. Não celebrar o Natal é perder a oportunidade de anunciar as Boas Novas.
Os problemas da atual celebração natalina não estão associados à sua origem pagã ou ao fato de não ser a data do aniversário de Jesus. O que mais descaracteriza a festa é o caráter comercial que ela adquiriu com o passar do tempo. Isto sim é extremamente problemático. Há pessoas que associam tal comemoração com o recebimento de presentes. É isso que ensinamos aos nossos filhos quando seguimos a correnteza. Além disso, há uma figura que assume um papel de maior destaque que o próprio Jesus, a saber, o Papai Noel. Isto porque ele dá presentes.
Podemos celebrar o Natal desde que Jesus seja o centro de nossa festa. Não devemos permitir que os símbolos natalinos, as roupas novas ou os presentes sejam mais importantes que o nascimento de Cristo. Não podemos realizar a Ceia de Natal somente para comermos bacalhoada e rabanadas, mas é necessário enxergar o momento como uma oportunidade de exercitar a comunhão. Vamos fazer cantatas em nossas igrejas, convidar os vizinhos e parentes, e assim lhes anunciar que só Jesus Cristo Salva!

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MABIRE, Jean; VIAL, Pierre. Os Solstícios: história e actualidade. Tradução de Nuno de Ataíde. Lisboa: Hugin, 1995.

GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1995.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

SE A BÍBLIA É UMA SÓ, POR QUE EXISTEM TANTAS IGREJAS DIFERENTES?

                    
            Quem nunca fez essa pergunta? De um jeito ou de outro, todos nós já nos deparamos com essa questão. Mas será que há uma resposta simples e pronta para ela? Penso que não. Entretanto, há quem tente produzi-la com base no texto de 1Pe 4.10, afirmando que a infinidade de denominações se deve à “multiforme graça de Deus”, ou seja, as muitas divisões seriam, na verdade, uma maneira de Deus oferecer um cardápio variado de opções aos não crentes. Assim, os mais calmos poderiam procurar uma igreja mais calma, enquanto os mais agitados se encaixariam perfeitamente em um ambiente mais movimentado. Apesar de esta interpretação ser bonita e “politicamente correta”, sinto dizer que ela não expressa o real significado do texto, uma vez que o mesmo trata da diversidade de dons espirituais, não de denominações.  
            Como responderemos, então, a esse questionamento? Acredito que a diversidade de denominações resulta da idiossincrasia[1]. Porquanto, não há ser humano igual ao outro. Discordar faz parte da essência da humanidade, e é o que, de fato, nos particulariza, nos torna pessoas. Se pensássemos exatamente igual abriríamos mão da individualidade. Deixaríamos de sermos humanos.
            Essa perspectiva a respeito do ser humano vem perturbando os pensadores desde a Antiguidade. Filósofos como Parmênides, Sócrates e Platão, já se mostravam preocupados com essa caraterística da humanidade. Tal inquietação, conforme destaca Hannah Arendt (apud. Bauman, 2003, p.177), brotava do fato de “que a verdade, tão logo proferida, é imediatamente transformada numa opinião entre muitas, contestada, reformulada, reduzida a um tema de discurso entre tantos outros”. O mais impressionante, no entanto, é que homens pertencentes a um tempo privado do avanço tecnológico da atualidade, conseguiram perceber algo que buscamos frequentemente negar, a saber, a incapacidade humana de não discordar.
            Não conseguimos concordar em tudo. Sempre haverá um ponto do qual discordaremos, uma opinião contrária ao consenso. Todavia, a discordância em si não constitui um obstáculo à comunhão. É a forma como a encaramos, a maneira como reagimos diante dela, que pode erguer-se como barreira e dificultar as relações. Como afirma Bauman (op. cit., p. 178), “a convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são 'meras opiniões', esse sim é um obstáculo”.
            Não estou admitindo, com isso, que não existem verdades absolutas. Se o fizesse, não poderia apresentar-me como cristão, pois cremos que uma dessas verdades insofismáveis é a existência de um Deus único e Todo-poderoso, Criador, sustentador e governador do cosmos. Contudo, penso que há diferentes perspectivas em relação à essas verdades, o que não as diminui. São apenas pontos de vista distintos, mas que contemplam o mesmo absoluto. Um exemplo disso são as diversas interpretações a respeito da salvação, da ação do Espírito Santo, dos anjos e dos demônios. Cada grupo defende sua posição com unhas e dentes, defendendo que é a mais próxima da verdade. De certa forma, todos nós buscamos essa solidez. Não queremos abraçar uma fé que se liquefaça com facilidade, almejamos algo palpável, bem definido, estruturado. Por isso, buscamos respostas diretas e sem ambiguidade. O grande problema, porém, é que, muitas vezes, esse anseio nos faz esquecermos o amor pregado por Jesus. Acabamos nos perdendo em nossas discussões teológicas, quando, na verdade, deveríamos envidar esforços para proclamar o evangelho, no discurso e na prática. “Há muita impaciência com qualquer coisa ou qualquer pessoa que sugira outra perspectiva, outro modo de olhar para a mesma questão, outra resposta que seja digna de investigação” (TUTU, 2012, p. 24).
Como cristãos, precisamos concordar naquilo que é essencial, pois em todas as vertentes há verdades fundamentais e imutáveis, a saber: a divindade de Cristo, a salvação pela graça, a doutrina da Trindade, o reconhecimento do homem como pecador, a crença na obra redentora de Cristo, a existência do céu e do inferno, etc. Não obstante, por mais que concordemos nesses pontos, há outros que discordamos. Estes, entretanto, não são essenciais, são verdades secundárias, resultantes do distanciamento histórico em relação aos acontecimentos narrados na Bíblia. Como não estávamos presentes, por exemplo, no dia de pentecostes ou em um culto da igreja de Corinto do primeiro século, nos deparamos com uma série de teorias a respeito das línguas e do recebimento do Espírito Santo. Não dá pra dizer com convicção quem está certo, só se estivéssemos lá. Por isso, ficamos com as interpretações que julgamos coerentes. Até porque, nenhuma delas compromete a salvação do indivíduo. Falar línguas ou não jamais garantirá ou impedirá a entrada de alguém na morada celeste.
 Sempre haverá pontos conflitantes entre os diversos segmentos evangélicos. Isso não é um fenômeno recente, a discordância esteve presente na igreja desde o princípio. Paulo, por exemplo, discordava da visão de Pedro e dos outros cristãos de Jerusalém. Estes criam que os gentios convertidos deviam observar os ritos e preceitos do judaísmo, aquele entendia que bastava que eles recebessem a Cristo como Salvador. Foi essa controvérsia que os levou à realização do primeiro concílio, em 51 d.C (At 15). Perceba, contudo, que os dois lados da discussão criam em Jesus como o Cristo, Senhor e Salvador de suas vidas, mas discordavam em alguns pontos. Por fim, cada um teve de abrir mão de algo para manter a unidade. Paulo aceitou que se mantivesse o preceito judaico relativo à abstinência do sangue, enquanto os cristãos de Jerusalém concordaram em liberar os gentios dos demais costumes dos judeus. Porém, do essencial eles não precisaram abdicar, pois, nisso, concordavam.
Essa “concordância discordante” é o nosso ideal. Embora discordemos em muitos aspectos, temos de concordar no essencial. A visão cristã não pode ficar restrita aos limites de nossas confissões doutrinárias, nem as denominações podem ser idolatradas como as únicas detentoras da verdade. Pelo contrário, precisamos compreender que todas as vertentes têm suas falhas, inclusive a nossa. Não existe denominação melhor que a outra. Só há maneiras distintas de enxergar aquilo que não é essencial.  
Entrementes, isso não significa que não temos de manter a identidade denominacional. De maneira nenhuma. A identidade é de suma importância, pois ela reflete o posicionamento interpretativo frente às verdades secundárias da nossa fé[2]. Quem não tem uma posição definida fica a mercê das heresias que tão de perto nos rodeiam. “É preciso manter-se firme às crenças que temos, sem fingir que todas as religiões são a mesma coisa, pois claramente não o são” (TUTU, 2012, p. 26).
Não estou defendendo, com base nisso, uma mixofobia[3]. Pelo contrário. Acredito que é possível nos relacionarmos como irmãos, filhos do mesmo Pai, sem abrirmos mão de nossas convicções. Afinal de contas, não é isso que acontece em nossas famílias? Quantos irmãos consanguíneos, embora se amem e convivam bem, discordam acerca de um ou outro ponto? Com certeza, muitos. Alguns, inclusive, possuem ideias diametralmente opostas. Mesmo assim, conseguem viver em comunhão.
Inobstante, há sempre quem condene essa “concordância discordante”. Isto porque, imaginam que todos deveriam, por sermos cristãos, pensar da mesma forma tanto no tocante às verdades fundamentais quanto às secundárias. Não se trata de uma simples ortodoxia, mas de uma fé homogênea, uma espécie de ecumenismo evangélico. O problema é que, para chegar a esse ponto, seria necessário eleger uma dentre as muitas interpretações como única. É exatamente isso que fazem os defensores dessa homogeneidade: elegem o neopentecostalismo (ou o pentecostalismo) como ortodoxia, considerando a teologia das igrejas históricas como heresia. Porquanto, acham que todos deveriam concordar com a ortodoxia atual (o pensamento neopentecostal), cuja estrutura transcende os limites institucionais, uma vez que faz parte do pensamento de membros de todas as denominações. Em suma, os mesmos que criticam a identidade doutrinária, defendem, na verdade, outra identidade, a neopentecostal. Quem discorda disso, é visto como herege. Lembra a Idade Média, não é?
Outro ponto defendido pelos críticos da identidade doutrinária é a ideia de que as denominações deveriam promover intercâmbios entre si. De modo que os pregadores e equipes de louvor pudessem transitar livremente entre as diversas confissões de fé. Quando uma igreja se recusa a participar desse intercâmbio, é acusada de não amar os irmãos. No entanto, é necessário frisar que o amor fraternal do qual a Bíblia fala é muito maior do que estar junto em uma programação ou poder pregar na igreja do outro. O amor deve ser manifestado no trato diário, fora dos limites físicos do templo. O fato de nos amarmos não significa que devemos gostar de fazer tudo juntos. Eu, por exemplo, amo minha esposa, mas não gosto de comprar roupas com ela, pois, no fim do dia, fico esgotado de tanto entrar e sair de lojas. Da mesma forma, ainda que nos amemos fraternalmente em Cristo, há coisas que não gostamos de fazer juntos, como, por exemplo, cultuarmos juntos. Por mais que alguns não tenham coragem de reconhecer, não nos sentimos tão à vontade fora dos limites de nossas confissões doutrinárias. Isto porque, enquanto os crentes “tradicionais” são mais comedidos, os pentecostais são extremamente agitados; enquanto os “tradicionais” não creem em línguas extáticas e revelações extra bíblicas, os pentecostais têm esses pontos como carro-chefe de sua confissão de fé. Decerto, um culto que reúna esses dois grupos trará incômodo para alguém. Se o culto for conduzido segundo a prática “tradicional”, os pentecostais ficarão inquietos, sentindo-se podados. Por outro lado, se a programação seguir o estilo pentecostal, os tradicionais se sentirão como peixes fora d’água. Por isso, o melhor mesmo é que cada grupo permaneça na sua prática de culto, se unindo para outras atividades que visem à propagação do evangelho e a defesa da fé, como eventos de caráter social, manifestações públicas, distribuição de Bíblias, etc.
É claro que isso não nos impede de estarmos juntos em programações normais ou especiais. Se o indivíduo sentir-se à vontade, não há problema algum. Mas sermos obrigados a darmos oportunidade a cantores e pregadores de outras denominações, sob a ameaça da “falta de amor”, é, no mínimo, temerário. Porque, normalmente, quando alguém prega, canta ou ministra, é inevitável a manifestação de sua identidade, seja “tradicional”, pentecostal ou neopentecostal. Por conta disso, inúmeros problemas resultam desses intercâmbios interdenominacionais, deixando pastores em má situação diante de suas ovelhas, tendo que, muitas vezes, corrigir os conceitos apresentados. Diante disso, considero mais saudável que apenas pregadores e cantores da mesma confissão doutrinária (ou de mesmo pensamento teológico) compartilhem os púlpitos.
Alguns podem achar minha postura discriminadora. Porém, muitos, conquanto recebam pessoas de outra denominação as consideram menos crentes, frias, etc. Quando alguém pergunta: “qual a sua igreja”? Muitos, ao saber que se trata de uma igreja tradicional, olham com indiferença, como se fôssemos menos crentes. Isso é discriminação! Deveríamos ficar felizes por essa pessoa servir a Cristo, não fazer pouco caso porque ela não é da mesma denominação.
Somos filhos do mesmo Pai. Mas, pense comigo: se você tivesse um irmão que pensasse totalmente diferente em relação a educação dos filhos, o deixaria ensinar seu filho? Certamente, vocês iriam conviver, se amar, se ajudar, mas na sua casa o ensino continuaria sendo sua responsabilidade. Não querer que seu irmão dirija seu carro, porque você o considera mau motorista, não significa que não o ame. O amor cristão deve ser mostrado no dia-a-dia. Programações não mostram amor, só demonstram uma postura politicamente correta.  
Quando o assunto é a cultura alheia, todos são unânimes em reconhecer que o indivíduo não deve abrir mão dela. Todavia, quando se trata da identidade denominacional, muitos querem liquefazê-la, argumentando que nada mais é que uma subcultura. Sinceramente, nesse tempo tão líquido que vivemos, onde os modelos estão desfigurados, a moral esfarelada e o amor decadente, o que mais precisamos é de identidade.

Pr. Cremilson Meirelles



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002. 6 v. 806 p.

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

TUTU, Desmond M. Deus não é Cristão. Tradução: Lilian Jenkino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012.











[1] Maneira de ver, sentir, reagir peculiar a cada pessoa.
[2] Considero “verdades secundárias” os posicionamentos baseados em interpretações, tais como as visões relativas ao batismo no Espírito Santo, aos dons espirituais, doutrina da salvação, etc. As fundamentais, por outro lado, seriam aquelas para as quais não há contestação no meio cristão, a saber: a divindade de Cristo, a salvação pela graça, a doutrina da Trindade, o reconhecimento do homem como pecador, a crença na obra redentora de Cristo, a existência do céu e do inferno.
[3] Medo de misturar-se com desconhecidos.