segunda-feira, 31 de agosto de 2015

DÍZIMO? O QUE É ISSO? PARTE V

Pastoral redigida para o boletim dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa

No último livro do Antigo Testamento, Deus dirige uma dura crítica ao povo de Israel. Porquanto, estavam prestando-lhe um culto inadequado, no qual os preceitos da lei eram desprezados. Animais doentes (Malaquias 1.8) e roubados (Malaquias 1.13) estavam sendo oferecidos no altar do Senhor; a moral estava corrompida (Malaquias 1.5)! Tudo o que faziam para Deus era pela metade, inclusive o dízimo. Por isso, em Malaquias 3.10, o Senhor os conclama a trazerem “o dízimo todo”. Pelo menos, é isso que encontramos no texto hebraico, visto que o termo traduzido como dízimos (ma‘aser) não está no plural. Logo, a melhor tradução é “trazei o dízimo todo”. Até porque, à luz do contexto fica evidente que eles não estavam deixando de dar o dízimo, mas entregando-o incompleto, defeituoso. Estavam agindo como Ananias e Safira, querendo enganar Deus (Atos 5.1-10). Esta é a razão pela qual são chamados de ladrões (Malaquias 3.8).
Todavia, é importante relembrar que o erro deles era o descumprimento da lei, o que afetava diretamente o culto prestado a Deus, uma vez que este tinha como elementos fundamentais os sacrifícios de animais e as ofertas de vegetais. Além disso, a consciência social do povo estava cauterizada, pois, como mencionamos nas pastorais anteriores, por meio do dízimo garantia-se o sustento dos mais pobres e dos sacerdotes, os quais não possuíam terra alguma e viviam exclusivamente para o sacerdócio. Porém, sem mantimento na Casa do Tesouro (Local no templo onde eram armazenados os grãos, os animais, o dinheiro), era impossível suprir as necessidades dessas pessoas.
Ora, o próprio Deus dera essas ordenanças ao povo como parte da aliança firmada. Deixar de prover o sustento dos sacerdotes e dos pobres era desobediência. Mas o pior de tudo é que o povo não admitia seu erro. Tanto, que diziam: “em que te roubamos”? Por essa razão, o Senhor os amaldiçoava (Malaquias 3.9), com base na dinâmica da lei, tal como aparece em Deuteronômio 28. Contudo, isto não se aplica a nós. O pacto que Deus fez conosco é outro. Nosso relacionamento com Ele é de amor, não de obrigação. O Senhor nos regenerou! Nós nascemos de novo! É por causa desse milagre operado em nós que fazemos o que fazemos (Efésios 2.8-10). Assim, mesmo que você falhe no dízimo, Deus não vai te perseguir ou te amaldiçoar. Afinal, Ele espera que você faça isso com alegria (2Coríntios 9.7), entendendo a necessidade, e não sob ameaça.
De igual modo, quem deixa de dar o dízimo não pode ser chamado de ladrão. Até porque, como falamos, o pecado da nação de Israel não era simplesmente sonegar o dízimo, mas dá-lo incompleto e defeituoso. Além do mais, ao descumprir a lei, eles estavam quebrando o pacto que fizeram com o Todo-poderoso. Na Nova Aliança, a observância da lei nos seus aspectos cerimoniais e civis não faz parte dos termos. Na verdade, conforme já foi dito, só há um termo: o amor.
No entanto, isso não significa que os princípios morais e espirituais apresentados no Antigo Testamento devam ser descartados. Em Malaquias 3.10, por exemplo, há um princípio que se encaixa perfeitamente na visão neotestamentária acerca dos dízimos e ofertas, isto é: a generosidade como resultado da confiança em Deus (Fp 4.10-19). Portanto, a igreja não está errada em ter o dízimo como sua referência de contribuição, já que este foi apontado pelo próprio Deus como tal. Aliás, se fosse errado dizimar, com certeza Jesus e os apóstolos teriam falado algo a respeito. Mas nenhum deles se pronunciou. Nem mesmo Paulo que, ao longo de seu ministério combateu o judaísmo (Gl 5.1-4; 6.15; Cl 2.16,17), condenou o dízimo. Quem somos, então, para fazê-lo?

Pr. Cremilson Meirelles

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

DÍZIMO? O QUE É ISSO? PARTE IV

Pastoral redigida para o boletim dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Sem dúvida, o trecho da Escritura mais empregado para enfatizar a necessidade do dízimo é Malaquias 3.10. Contudo, é necessário frisar que este é um dos textos mais mal interpretados da Bíblia. Isto porque, muitos o utilizam para propagar a ideia de que há uma relação comercial entre nós e Deus, de modo que damos o dízimo para recebermos bênçãos. Usa-se também o versículo 11 para transformar Deus em uma espécie de “agiota”, pois, se você não “pagar” o seu dízimo, Ele envia um cobrador violento: “o devorador”. A fim de corrigir esses erros discorreremos sobre o referido texto nas linhas abaixo.
O primeiro ponto a ser destacado é o contexto. Ora, o livro de Malaquias é parte integrante do Antigo Testamento; logo, sua linguagem segue os preceitos da antiga aliança, feita entre Deus e o povo de Israel. De acordo com Augustus Nicodemus, os termos daquela aliança eram estes: “se o povo obedecesse a Deus, este o abençoaria; mas, se o povo desobedecesse a ele, seria castigado”. Isto acontecia em qualquer situação de desobediência, e não somente por não dar o dízimo. Essa era a dinâmica da antiga aliança. Isso fica bem claro em Deuteronômio 28.
Foi justamente com base nessa perspectiva que o texto de Malaquias foi produzido. Veja, por exemplo, que em Malaquias 3.7 Deus se queixa do povo, salientando que, assim como seus pais, eles estavam quebrando a aliança ao ignorar seus termos. Por essa razão, sofriam com a falta de chuva e com a devastação provocada pelas pragas. Diante desse quadro desolador, o Deus misericordioso vai ao encontro do povo e oferece uma oportunidade de reconciliação a partir da dinâmica da antiga aliança. Por isso, Ele diz: “[...] tornai vós para mim, e eu tornarei para vós, diz o SENHOR dos Exércitos [...]” (Malaquias 3.7b). Porquanto, se o povo cumprisse a sua parte no contrato (aliança), observando a lei, o Senhor faria a Sua, “abrindo as janelas do céu” (Malaquias 3.10), ou seja, enviando chuva para regar a terra e viabilizar o plantio. Deus promete ainda que repreenderia o “devorador”, isto é, impediria a vinda de pragas (gafanhotos), além de assegurar a produtividade da colheita: “e, por causa de vós, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; e a vide no campo não vos será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos”.
Cabe-nos ressaltar, entretanto, que isso nada tinha a ver com as contribuições dos israelitas, mas com o pacto que Deus fizera com o povo. Eles não estariam “convencendo” Deus a abençoá-los por entregarem seus dízimos. Na verdade, o Senhor já havia se pré-disposto a fazê-lo. O mesmo acontece conosco, haja vista que, no Novo Testamento, as bênçãos estão condicionadas à filiação divina (Lucas 11.9-13) e à vontade de Deus (1João 5.14). Não podemos “comprar” bênçãos com nossos dízimos, e nem convencer o Senhor a nos abençoar com nossas atitudes.  
   Todavia, enquanto na antiga aliança os termos do “contrato” entre Deus e o povo eram os estatutos da lei, na nova aliança só há um termo: o amor. Tudo o que fazemos para o Senhor deve ser feito com base nisso. Pensando assim, Jesus disse: “Se me amardes, guardareis os meus mandamentos” (João 14.15). Não devemos fazer o que fazemos por medo ou por interesse, mas simplesmente porque amamos o Deus Todo-poderoso.
Pr. Cremilson Meirelles

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

DÍZIMO? O QUE É ISSO? PARTE III

Pastoral redigida para o boletim dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa

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O dízimo, no Antigo Testamento, tinha uma abrangência bem ampla, incluindo tanto plantas quanto animais (Levítico 27.30-34). Além disso, de acordo com a lei, os produtos agrícolas podiam ser vendidos e o dinheiro entregue como dízimo, desde que este fosse acrescido de 20% do seu valor. Vale salientar, no entanto, que esse tipo de conversão não se aplicava aos animais. Esse acréscimo sobre o montante, entretanto, tinha como objetivo impedir as falcatruas. Porquanto, alguém poderia dar um valor menor, argumentando que fazia assim por causa da conversão do dízimo em dinheiro.   
É necessário esclarecer também que, no contexto da lei, ninguém estava isento do dízimo. Até quem o recebia tinha de dizimar (Números 18.25-29). Contudo, embora houvesse uma aplicação social daquilo que era entregue, a motivação maior era religiosa. Tanto, que o dízimo era entregue no santuário central (Deuteronômio 12.10,11). Afinal, o ato de dizimar expressava a gratidão ao Senhor pelo sustento concedido, além de evidenciar o princípio de que tudo pertence a Deus, sendo Ele o verdadeiro dono de todas as coisas, tal como afirma o salmo 24.1.
Todavia, conquanto as contribuições, em grande parte, fossem resultado da produção agrícola e pecuária, isto não significa que quem dizima na atualidade tenha que se tornar agricultor ou pecuarista para observar essa prática. O que fazemos, na verdade, é baseado no princípio, também presente no Novo Testamento, da contribuição voluntária em reconhecimento ao senhorio e à bondade de Deus. Isto é mostrado claramente nas epístolas paulinas. Em 1 e 2Coríntios, por exemplo, vemos que os cristãos primitivos eram concitados a colaborar, dando dinheiro para a igreja (2Coríntios 8.1-16; 9.1,2), com generosidade (2Coríntios 9.7) e proporcionalidade (1Coríntios 16.2; 2Coríntios 8.11,12).
Definitivamente, não havia, e nem há, nenhuma injustiça ou erro nisso. Dizimar é uma prática justa e saudável, pois através dela o pobre pode contribuir na mesma proporção do rico. Além disso, por meio dessa contribuição é possível, como já destacamos nas pastorais anteriores, atender as frequentes necessidades da igreja local e atuar de maneira relevante na sociedade.
Apesar disso, vale ressaltar que nenhuma contribuição mencionada pela Bíblia é obrigatória. Por essa razão, o apóstolo Paulo salienta, em 2Coríntios 8.3, o caráter voluntário das contribuições, sublinhando que estas devem ser feitas com alegria (2Coríntios 9.7), e não sob ameaça. Até porque, contribuir para o avanço da obra de Deus, seja no seu aspecto social ou evangelístico, é, na verdade, um privilégio. Assim, a fim de incentivar esse sentimento, Paulo destaca o exemplo dos macedônios, os quais, mesmo enfrentando privações, rogaram ao apóstolo que lhes concedesse o privilégio de contribuir (2Coríntios 8.4). Esta contribuição, ainda que visasse, exclusivamente, o sustento dos pobres da Palestina, revela a liberalidade que deve caracterizar o cristão genuíno.
Algo digno de nota também é o fato de que, mesmo os fariseus tendo criticado Jesus em muitas coisas relativas à prática da lei e à observância de suas tradições, jamais o criticaram por não ser dizimista. Se Ele não fosse ou se pregasse contra o dízimo, sem dúvida, com o dedo em riste, O criticariam. Foi exatamente o que fizeram quando perceberam que seus discípulos não jejuavam (Marcos 2.18). Ademais, embora Jesus condenasse a hipocrisia dos fariseus, incentivou os discípulos a praticar o que eles ensinavam (Mateus 23.1-3). Aliás, no mesmo texto em que faz essa afirmação, o Mestre destaca que, conquanto fizessem algo correto, ou seja, dar o dízimo, os fariseus negligenciavam a essência da lei: “o juízo, a misericórdia e a fé”. De igual modo, quando vivemos em discordância com as Escrituras e, mesmo assim, damos o dízimo achando que isso nos faz retos aos olhos de Deus, somos tão hipócritas quanto eles.
Pr. Cremilson Meirelles

sábado, 8 de agosto de 2015

DÍZIMO? O QUE É ISSO? PARTE II

Pastoral redigida para o boletim dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Conforme destacamos na última pastoral, a prática de dizimar antecede a Lei de Moisés. Contudo, ainda que estivesse associada ao contexto religioso, não era resultado de um relacionamento com o Deus único. Assim, ao dar leis aos filhos de Israel, Deus redirecionou o foco do dízimo, dando a ele, além do caráter religioso, um aspecto social. Isto porque, através do dízimo do terceiro ano (Dt 14.27-29), o sustento dos pobres era assegurado. Outro emprego do dízimo com uma conotação social era o custeio de uma refeição de comunhão no santuário, da qual participava toda a família (Deuteronômio 14.22,23). Na atualidade, conquanto nem todas as comunidades de fé procedam dessa maneira, as igrejas históricas ainda conservam esse caráter social no uso do dízimo, haja vista que, na maioria delas, existe um departamento de beneficência ou de ação social, cuja meta é ajudar os necessitados, comprando medicamentos, provendo meios de subsistência, mantendo projetos sociais, etc. Há igrejas, inclusive, que constroem casas para as pessoas. Tudo isso, com o dinheiro de dízimos e ofertas.
É claro que a Lei preconizava também a utilização dos dízimos para o sustento dos levitas (Hebreus 7.5), uma vez que estes se dedicavam ao ministério estabelecido pelo Senhor. Isso, naturalmente, produzia uma relação de interdependência entre o ministro e o povo. Porquanto, este precisava do serviço sacerdotal e aquele dependia das doações para seu sustento, evidenciando o fato de que precisavam um do outro. Isto é, não havia ninguém autossuficiente. 
Esse princípio, embora seja encontrado no Antigo Testamento, faz todo sentido ainda hoje. Afinal, o ministro também precisa de vestuário, de comida, de moradia, além dos gastos que surgem em razão da atividade ministerial (combustível, telefone, livros, etc). Ademais, o sustento pastoral não é um tema limitado às páginas do Antigo Testamento. O apóstolo Paulo, ao tratar do assunto, assevera: “Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que de contínuo estão junto ao altar participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1Coríntios 9.13,14). Outrossim, escrevendo a Timóteo, Paulo declara: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina. Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” (1Tm 5.17,18).
Sabemos, no entanto, que há líderes que se aproveitam do rebanho e manipulam as ovelhas a fim de auferir lucro. Os apóstolos também sabiam que isso haveria de acontecer. Tanto, que Pedro, em sua segunda epístola, afirma: “[...] por avareza, farão de vós negócio com palavras fingidas [...]” (2Pedro 2.3a). Acerca destes, o apóstolo completa, dizendo que serão duramente julgados, pois assim como Deus não poupou os anjos que pecaram, não poupará os falsos ministros. Antes, lhes dará o galardão da injustiça (2Pedro 2.13), a saber, o juízo divino.
Todavia, mesmo sabendo desse perigo, nem Jesus e nem seus apóstolos condenaram ou proibiram o dízimo. O fato de não haver referências claras ao dízimo na igreja primitiva, não constitui uma evidência de sua proibição. Ora, os cristãos primitivos eram, em sua maioria, judeus. A única Bíblia que eles conheciam era o Antigo Testamento. O Novo Testamento ainda estava sendo confeccionado. Dizimar para eles era uma prática comum. Logo, era desnecessário enfatizar algo que todos já faziam.

Pr. Cremilson Meirelles