sábado, 30 de novembro de 2013

IDENTIDADE NA DIVERSIDADE (Mensagem pregada na Reunião da Subseção Litorânea da OPBB-FL)

Texto Base: 1Co 12.12-31

INTRODUÇÃO
Infelizmente, vivemos em um tempo no qual aquilo que dantes era padronizado, estruturado, sólido, foi dissolvido. Como afirma Zygmunt Bauman, a realidade contemporânea é essencialmente líquida. A relativização de tudo desnorteou não só pessoas como também instituições. As denominações que outrora eram firmes em seus preceitos e convicções fraquejaram diante da líquida era moderna, sendo quase que engolidas pelo neopentecostalismo. Os crentes tradicionais perderam algo que lhes era tão precioso, a saber, sua identidade. Por conta disso, hoje é possível ver, por exemplo, nas igrejas batistas, membros que defendem as mesmas doutrinas sustentadas por pentecostais e neopentecostais. Muitas vezes, o pastor, como guardião da ortodoxia, desiste de ensinar suas convicções doutrinárias por causa do gigante neopentecostal que arromba as portas do templo. Assim, as ovelhas acabam sendo pastoreadas pelos tele pastores ou por programas de rádio.
O texto em questão, na sua literalidade, não trata desse assunto.  Até porque, a Bíblia não fala sobre denominações. Mesmo assim, muitos usam o texto de 1Pe 4.10, afirmando que a infinidade de denominações se deve à “multiforme graça de Deus”, ou seja, as muitas divisões seriam, na verdade, uma maneira de Deus oferecer um cardápio variado de opções aos não crentes. Assim, os mais calmos poderiam procurar uma igreja mais calma, enquanto os mais agitados se encaixariam perfeitamente em um ambiente mais movimentado. Apesar de esta interpretação ser bonita e “politicamente correta”, sinto dizer que ela não expressa o real significado do texto, uma vez que o mesmo trata da diversidade de dons espirituais, não de denominações. 1Co 12, definitivamente, não fala sobre isso.
Na verdade, esse texto vem sendo largamente empregado para transmitir mensagens que versam sobre a comunhão, com temas do tipo “unidade na diversidade”. Porém, tomando por base o princípio identitário presente nele, pretendo utilizá-lo para abordar a questão da identidade denominacional, um aspecto da vida cristã que tem sido bastante desprezado. Para tanto, proponho o seguinte título: “Identidade na Diversidade”. A primeira coisa que desejo destacar a esse respeito é que:

A UNIVERSALIDADE NÃO ANULA A IDENTIDADE.

Como falamos, em 1Co 12, Paulo não tem a intenção de falar sobre denominações. Sua intenção prioritária é corrigir os desvios da igreja de Corinto, que lhe foram relatados pela família de Cloé (1Co 1.11), e através de Estéfanas, Fortunato e Acaico (1Co 16.17,18). Isto é, ele focava a solução de um problema local: a supervalorização da fala extática em detrimento dos outros dons e pessoas. Naquele contexto, os faladores de línguas eram considerados super espirituais, enquanto os demais eram desprezados.
A fim de resolver a questão, Paulo relembra seus ouvintes de que todos fazemos parte do mesmo corpo (1Co 12.12,13), e que esse corpo é constituído de pessoas com características distintas (gregos, judeus, servos, livres). Isto é, conquanto trate de problemas da igreja local, agora ele se remete ao caráter universal da igreja de Cristo. Tanto, que até ele mesmo se inclui (“todos nós”). Tal visão pode também ser aplicada a nós para lembrar-nos que o Reino de Deus não se limita à nossa confissão doutrinária. “Todos nós” fazemos parte de um mesmo corpo, assembleianos, congregacionais, presbiterianos, batistas, metodistas, etc.
Todavia, o que me chama mais atenção é que, ao apontar esse aspecto universal, o apóstolo mostra que a universalidade não anula a identidade. No corpo há diversidade, mas também há identidade. Há olhos, narizes, bocas. Um é um e o outro é outro. Ninguém é igual, mas todos são um. Paulo destaca a importância da orelha ser orelha e do olho ser olho. Um não tem que ser igual ao outro para ser do corpo (v. 16). Não precisamos pensar igual para fazermos parte do corpo de Cristo. Até porque, em função de nosso distanciamento histórico, existem inúmeras interpretações a respeito dos mesmos textos. Daí surgem pentecostais, neopentecostais e tradicionais, mas é importante que um seja um e o outro seja outro. Precisamos como Paulo fez, valorizarmos a identidade, pois fazê-lo é valorizar a diversidade.
  Pensar diferente não é errado, mas a forma como encaramos esse pensamento, a maneira como reagimos diante dele, é que pode erguer-se como barreira e dificultar as relações. Por isso, afirmo categoricamente: não precisamos brigar com outros, mas temos de saber quem somos. Orelha ou olho? Não é pecado discordar dos outros, não é errado ser um crente tradicional. Errado é acharmos que todas as denominações devem pensar da mesma forma. Sempre haverá pontos conflitantes entre os diversos segmentos evangélicos. Isso não é um fenômeno recente, a discordância esteve presente na igreja desde o princípio. Paulo, por exemplo, discordava da visão de Pedro e dos outros cristãos de Jerusalém. Estes criam que os gentios convertidos deviam observar os ritos e preceitos do judaísmo, enquanto aquele entendia que bastava que eles recebessem a Cristo como Salvador. Foi essa controvérsia que os levou à realização do primeiro concílio, em 51 d.C (At 15).
Embora Paulo não tratasse, como sublinhamos, da identidade denominacional, os princípios apresentados pelo apóstolo podem muito bem nos levar a essa reflexão. Até porque, a identidade é de suma importância, pois ela reflete o posicionamento interpretativo frente às verdades secundárias da nossa fé. Quem não tem uma posição definida fica a mercê das heresias que tão de perto nos rodeiam. “É preciso manter-se firme às crenças que temos, sem fingir que todas as religiões são a mesma coisa, pois claramente não o são” (TUTU, 2012, p. 26).
Contudo, com o passar do tempo a identidade denominacional foi esfacelada. Muitas igrejas batistas, por exemplo, encontram-se bem distantes da homogeneidade de outrora. Vemos pastores, ditos “batistas”, abençoando pessoas, dizendo: eu te abençoo! Muitos “profetizam” sobre a vida dos outros, desconsiderando a declaração de 2Pe 1.21, “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”; decretam bênçãos, creem em maldições, demonizam tudo, defendem a teologia da prosperidade, apresentam Deus como um “agiota”, de modo que se a pessoa não der o dízimo Ele trará enfermidades e toda sorte de males. Que absurdo!
Com isso, vemos que o pensamento neopentecostal invadiu nossa denominação. Ninguém liga mais para aquelas questões de antigamente (línguas, profecia), a moda agora são os objetos ungidos/amaldiçoados, o ungido do Senhor, as maldições, os rituais, etc. Em suma, elegeram o neopentecostalismo como uma nova ortodoxia e consideraram a teologia das igrejas históricas como ultrapassada. Acredito que isso é resultado dessas ideias contemporâneas que tanto nos angustiam, visto que propagam o pensamento de que a responsabilidade pelo crescimento da igreja que pastoreio é minha. Por conseguinte, se ela não cresce, a culpa é minha. Por isso, muitos não querem ensinar a verdade, enquanto outros preferem abraçar a mentira.
Ora, como podemos fazer tal coisa, visto que somos filiados a denominação batista, tendo abraçado não só seus princípios como também sua declaração doutrinária? Não podemos negar isso e professar uma nova fé, levando nossas ovelhas ao desvio doutrinário, negando nossa história. Se não soubermos quem realmente somos, como executaremos nossas funções com eficácia. Se a orelha pensa que tem que ser olho, como executará a função de orelha? Os pentecostais compartilham sua fé em todo o tempo. E nós, o que fazemos? Nos calamos. Precisamos resgatar nossa identidade. Nossas ovelhas precisam ouvir de nós a resposta para a pergunta: quem somos nós?
A segunda coisa que quero salientar é que:

IDENTIDADE NÃO SIGNIFICA SECTARISMO
Ter identidade denominacional não significa intolerância ou intransigência. Pelo contrário, como Paulo mesmo afirma não podemos dizer que não temos necessidade de “A” ou “B” porque não pensam como nós (1Co 12.21). Afinal, todos fazemos parte de um mesmo corpo! Paulo mostra que é possível amar mesmo em meio à diversidade de pensamentos. Todos são importantes. Cada um atua em uma área. Isto não nos torna inimigos. Apenas evidencia nossa identidade.
Quando Paulo diz que não devem existir divisões (1Co 12.25), ele não está dizendo que não devem haver denominações, nem está sendo contra a identidade denominacional. O termo grego traduzido como “divisões”, é o grego schisma que dá a ideia de rasgo, cisão, dissensão, divisão. O apóstolo o usa para referir-se às facções que caracterizavam a igreja coríntia (um era de Paulo, outro de Cefas, outro de Apolo, etc), não às denominações. Ele estava falando de divisões que geram conflitos, violência, animosidade.
Acredito que é possível nos relacionarmos como irmãos, filhos do mesmo Pai, sem abrirmos mão de nossas convicções. Afinal de contas, não é isso que acontece em nossas famílias? Quantos irmãos consanguíneos, embora se amem e convivam bem, discordam acerca de um ou outro ponto? Com certeza, muitos. Alguns, inclusive, possuem ideias diametralmente opostas. Mesmo assim, conseguem viver em comunhão.
Discordar não é brigar, é ser humano. Desmond Tutu, um bispo anglicano da África do Sul, utiliza em suas relações um lema que descreve muito bem aquilo que estamos falando. “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo” (TUTU, 2012, p. 186). Pensar diferente não é o mesmo que não amar. Ao contrário, é entender que existe essa possibilidade, e que o outro, tanto quanto eu, tem esse direito.
Isso não significa, todavia, que tenhamos por obrigação, sob a ameaça da falta de amor, que convidar ou receber, em nossas igrejas, pregadores e cantores oriundos de outras denominações. Porquanto, o amor fraternal do qual a Bíblia fala é muito maior do que estar junto em uma programação ou poder pregar na igreja do outro. O amor deve ser manifestado no trato diário, fora dos limites físicos do templo. Até porque, normalmente, quando alguém prega, canta ou ministra, é inevitável a manifestação de sua identidade, seja “tradicional”, pentecostal ou neopentecostal. Somos filhos do mesmo Pai. Mas, pense comigo: se você tivesse um irmão que pensasse totalmente diferente em relação a educação dos filhos, o deixaria ensinar seu filho? Certamente, vocês iriam conviver, se amar, se ajudar, mas na sua casa o ensino continuaria sendo sua responsabilidade. Não querer que seu irmão dirija seu carro, porque você o considera mau motorista, não significa que não o ame. O amor cristão deve ser mostrado no dia-a-dia. Programações não mostram amor, só demonstram uma postura politicamente correta.

CONCLUSÃO
Acredito ser possível convivermos com nossos irmãos pentecostais e neopentecostais, desde que sejam respeitados os limites de cada identidade denominacional, sem que um se imponha ao outro. Afinal de contas, isso é amar: compreender, tolerar, andar mais uma milha. É possível sim haver identidade na diversidade. Basta apenas entendermos que a universalidade não anula a identidade e que identidade não significa sectarismo.

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

TUTU, Desmond M. Deus não é Cristão. Tradução: Lilian Jenkino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

DEVEMOS CELEBRAR O NATAL?


 
Com a proximidade do Natal, é comum ouvirmos mensagens, estudos e debates acerca da legitimidade dessa comemoração no contexto evangélico. Há quem se posicione de maneira contrária, argumentando que tal celebração é estranha ao cristianismo, pois se originou no seio do paganismo. Outros, advogando a mesma postura, utilizam outro argumento. Dizem que, por Jesus não ter nascido no dia 25 de dezembro, não devemos celebrar tal festa. Por outro lado, há ainda aqueles que, mesmo professando a fé cristã, defendem a realização da festa, assim como a utilização de todos os elementos que lhe são inerentes.
Diante de tantos discursos a respeito de uma das festas mais famosas do mundo, quem está com a razão? O crente deve celebrar o Natal ou não? Decerto, tais questionamentos permeiam os pensamentos dos membros de nossas igrejas. A fim de elucidar tais indagações, proponho-me neste artigo a discorrer sucintamente sobre o tema à luz de uma perspectiva histórico-fenomenológica, pontuando as particularidades inerentes à origem de tal prática e analisando sua interpretação atual.
Inicialmente, é necessário destacar algumas verdades acerca do assunto. Uma delas é o fato de que a celebração realizada no dia 25 de dezembro tem sua origem na religião pagã, mais precisamente no culto prestado ao deus-sol, a outra é o total desconhecimento histórico sobre a data correta do nascimento de Jesus. Realmente essas afirmações são genuínas, porém, como concluiremos mais à frente, não constituem justificativas plausíveis para a abolição da comemoração. Não obstante, antes de chegarmos a tal conclusão, é necessário apontar os fatores que contribuíram para que, mesmo diante dessas informações, o Cristianismo abraçasse essa festa.
Certamente, um dos grandes responsáveis por esse sincretismo foi o imperador romano Constantino, o qual, no início do século IV, emitiu o famoso “edito de Milão”, fazendo cessar a perseguição sobre a Igreja e permitindo a expansão da fé cristã. Porquanto, de acordo com Justo González (1995), embora ele, aparentemente, tenha se convertido ao Cristianismo, sua interpretação da fé cristã não o impedia de adorar outros deuses. Assim, ainda que construísse igrejas e proclamasse leis favoráveis aos cristãos, Constantino nunca abandonou o culto do deus-sol, conhecido entre os romanos como Sol Invicto. Tal postura, segundo González (op. cit., p. 33), foi motivada pela maneira como enxergava a divindade cristã, visto que “[...] durante boa parte de sua carreira política, pensou que o Sol Invicto e o Deus dos cristãos eram o mesmo ser” [...]. Este posicionamento é retratado por Duruy (apud. MABIRE, op. cit., p. 69), o qual “assinala que Constantino compôs para ser recitada ao domingo pelas legiões uma oração que tanto podia satisfazer os adoradores de Mithra, como os de Serápis, do Sol e do Cristo”. Ademais, González (op. cit.) ressalta que até o ano 320 Constantino manteve a imagem do sol cunhada nas moedas romanas.
Mais à frente, sob o reinado de Teodósio, o Cristianismo acabou por tornar-se a religião oficial do império romano. Por conta disso, Teodósio, em 392 d.C, proibiu definitivamente os cultos pagãos, tanto privados quanto públicos. Tudo isso com o fito de tornar universal a fé abraçada pelo império. Contudo, as tradições relativas ao paganismo permaneciam vivas nas zonas rurais. Em função disso, conforme explica Mabire (op. cit.), a Igreja optou por integrar os elementos pagãos que se mostravam desenraizáveis, dando-lhes um novo significado. Isto é, a ideia era dar uma roupagem cristã às celebrações pagãs.
Destarte, as festas que comemoravam os solstícios, foram substituídas por celebrações cristãs, as quais até hoje fazem parte do calendário religioso. O maior exemplo disso é o Natal, comemoração que foi sobreposta à antiga festa realizada no solstício de inverno (ocorrido em dezembro no hemisfério norte), cuja motivação religiosa era o nascimento do deus Mitra, o Sol Invicto.
Um exemplo claro dessa assimilação é a tradicional árvore de Natal. Este elemento era comumente utilizado, pelos povos germânicos, por ocasião do solstício de inverno. A árvore recebia uma série de enfeites relacionados ao sol, a saber, velas, bolas multicolores e uma roda solar no topo. A esse respeito cabe salientar que os pagãos, sobretudo os indo-europeus, sempre atribuíram sacralidade às árvores. Há, inclusive, na mitologia nórdica uma árvore sagrada associada à vida e ao conhecimento, denominada yggdrasil.
No entanto, mesmo que a festa em questão, assim como seus elementos sejam de origem pagã, é importante ressaltar que isso não significa que o fato de celebrarmos o Natal nos transforme em pagãos. Até porque, ao longo do tempo, a antiga festa pagã foi praticamente esquecida. Aquilo que as pessoas fazem hoje durante o período do Natal não tem ligação nenhuma com a adoração do Sol Invicto. A maioria das pessoas nunca ouviu falar nesse tal de Mitra. Trata-se de uma divindade falecida. Ninguém lembra mais dela. Foi relegada ao esquecimento. Da mesma forma, quem usa os enfeites de Natal, por mais que alguns extremistas encontrem significados pagãos em cada um deles, ninguém usa, hoje em dia, uma árvore de Natal pensando em Odin, em yggdrasil (as pessoas nem sabem pronunciar isso!). Todos veem esses objetos como ornamentos. Por isso, os utilizam com uma finalidade exclusivamente decorativa.
Dizer que quando alguém usa esses objetos está trazendo maldição sobre a sua vida é um completo absurdo. Porquanto, em momento algum, a Bíblia afirma que podemos receber “maldições” através de objetos (eu hein!). Só quem pode amaldiçoar é Deus. Porém, a maldição que estava sobre nós, o pecado, foi retirada por Cristo na cruz do Calvário.
Quanto à data na qual a celebração é realizada, quero sublinhar que 25 de dezembro não é o dia do deus-sol. Sem dúvida, um dia foi, mas há muito tempo deixou de ser. Você conhece alguém que celebra o Sol Invicto nessa data? Nem eu. Se dissermos hoje que a referida data é o dia do deus-sol, estaremos dando a essa divindade uma data específica, como se ela fosse dona desse dia, e, por outro lado, estaremos negando a Jesus uma data (“essa não pode Senhor, já tem dono” – que absurdo!).
Outro ponto a ser destacado é a possibilidade de celebrarmos o nascimento de Jesus na data em questão. Mesmo que não seja a data em que Ele nasceu, qual o problema? Só porque não sabemos qual foi o dia exato de seu nascimento não podemos celebrá-lo? Ora, a páscoa é celebrada todos os anos em datas diferentes e ninguém fala nada. Alguns, defendendo a ideia de não celebrar o Natal, dizem: “temos que celebrar o nascimento de Jesus todos os dias!” Sinceramente, isso só piora as coisas. Eu não posso separar uma data específica para comemorar o nascimento de Cristo, só porque há dois mil anos atrás esse era o dia do deus-sol, mas posso fazer isso todos os dias. Será que essas pessoas já pararam para pensar que os outros dias do ano também podem ter sido dedicados a divindades pagãs? Assim, estaríamos correndo o mesmo risco.
Cabe, entretanto, à Igreja de Cristo celebrar, na data em pauta, o nascimento de Cristo, não o capitalismo. Para tanto, é necessário expulsar da festa os elementos que, por conta de seu significado atual, tiram Jesus do centro dessa comemoração. É o momento de aproveitarmos para proclamarmos a Palavra de Deus, não um monte de baboseiras que nos fazem mais parecermos fanáticos religiosos do que servos de Cristo. É bom aproveitarmos a tradição de reunir as pessoas na noite de Natal para anunciar o verdadeiro significado da festa, cantar louvores ao Senhor e exercitar a comunhão. Não celebrar o Natal é perder a oportunidade de anunciar as Boas Novas.
Os problemas da atual celebração natalina não estão associados à sua origem pagã ou ao fato de não ser a data do aniversário de Jesus. O que mais descaracteriza a festa é o caráter comercial que ela adquiriu com o passar do tempo. Isto sim é extremamente problemático. Há pessoas que associam tal comemoração com o recebimento de presentes. É isso que ensinamos aos nossos filhos quando seguimos a correnteza. Além disso, há uma figura que assume um papel de maior destaque que o próprio Jesus, a saber, o Papai Noel. Isto porque ele dá presentes.
Podemos celebrar o Natal desde que Jesus seja o centro de nossa festa. Não devemos permitir que os símbolos natalinos, as roupas novas ou os presentes sejam mais importantes que o nascimento de Cristo. Não podemos realizar a Ceia de Natal somente para comermos bacalhoada e rabanadas, mas é necessário enxergar o momento como uma oportunidade de exercitar a comunhão. Vamos fazer cantatas em nossas igrejas, convidar os vizinhos e parentes, e assim lhes anunciar que só Jesus Cristo Salva!

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MABIRE, Jean; VIAL, Pierre. Os Solstícios: história e actualidade. Tradução de Nuno de Ataíde. Lisboa: Hugin, 1995.

GONZÁLEZ, Justo L. Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1995.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

SE A BÍBLIA É UMA SÓ, POR QUE EXISTEM TANTAS IGREJAS DIFERENTES?

                    
            Quem nunca fez essa pergunta? De um jeito ou de outro, todos nós já nos deparamos com essa questão. Mas será que há uma resposta simples e pronta para ela? Penso que não. Entretanto, há quem tente produzi-la com base no texto de 1Pe 4.10, afirmando que a infinidade de denominações se deve à “multiforme graça de Deus”, ou seja, as muitas divisões seriam, na verdade, uma maneira de Deus oferecer um cardápio variado de opções aos não crentes. Assim, os mais calmos poderiam procurar uma igreja mais calma, enquanto os mais agitados se encaixariam perfeitamente em um ambiente mais movimentado. Apesar de esta interpretação ser bonita e “politicamente correta”, sinto dizer que ela não expressa o real significado do texto, uma vez que o mesmo trata da diversidade de dons espirituais, não de denominações.  
            Como responderemos, então, a esse questionamento? Acredito que a diversidade de denominações resulta da idiossincrasia[1]. Porquanto, não há ser humano igual ao outro. Discordar faz parte da essência da humanidade, e é o que, de fato, nos particulariza, nos torna pessoas. Se pensássemos exatamente igual abriríamos mão da individualidade. Deixaríamos de sermos humanos.
            Essa perspectiva a respeito do ser humano vem perturbando os pensadores desde a Antiguidade. Filósofos como Parmênides, Sócrates e Platão, já se mostravam preocupados com essa caraterística da humanidade. Tal inquietação, conforme destaca Hannah Arendt (apud. Bauman, 2003, p.177), brotava do fato de “que a verdade, tão logo proferida, é imediatamente transformada numa opinião entre muitas, contestada, reformulada, reduzida a um tema de discurso entre tantos outros”. O mais impressionante, no entanto, é que homens pertencentes a um tempo privado do avanço tecnológico da atualidade, conseguiram perceber algo que buscamos frequentemente negar, a saber, a incapacidade humana de não discordar.
            Não conseguimos concordar em tudo. Sempre haverá um ponto do qual discordaremos, uma opinião contrária ao consenso. Todavia, a discordância em si não constitui um obstáculo à comunhão. É a forma como a encaramos, a maneira como reagimos diante dela, que pode erguer-se como barreira e dificultar as relações. Como afirma Bauman (op. cit., p. 178), “a convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são 'meras opiniões', esse sim é um obstáculo”.
            Não estou admitindo, com isso, que não existem verdades absolutas. Se o fizesse, não poderia apresentar-me como cristão, pois cremos que uma dessas verdades insofismáveis é a existência de um Deus único e Todo-poderoso, Criador, sustentador e governador do cosmos. Contudo, penso que há diferentes perspectivas em relação à essas verdades, o que não as diminui. São apenas pontos de vista distintos, mas que contemplam o mesmo absoluto. Um exemplo disso são as diversas interpretações a respeito da salvação, da ação do Espírito Santo, dos anjos e dos demônios. Cada grupo defende sua posição com unhas e dentes, defendendo que é a mais próxima da verdade. De certa forma, todos nós buscamos essa solidez. Não queremos abraçar uma fé que se liquefaça com facilidade, almejamos algo palpável, bem definido, estruturado. Por isso, buscamos respostas diretas e sem ambiguidade. O grande problema, porém, é que, muitas vezes, esse anseio nos faz esquecermos o amor pregado por Jesus. Acabamos nos perdendo em nossas discussões teológicas, quando, na verdade, deveríamos envidar esforços para proclamar o evangelho, no discurso e na prática. “Há muita impaciência com qualquer coisa ou qualquer pessoa que sugira outra perspectiva, outro modo de olhar para a mesma questão, outra resposta que seja digna de investigação” (TUTU, 2012, p. 24).
Como cristãos, precisamos concordar naquilo que é essencial, pois em todas as vertentes há verdades fundamentais e imutáveis, a saber: a divindade de Cristo, a salvação pela graça, a doutrina da Trindade, o reconhecimento do homem como pecador, a crença na obra redentora de Cristo, a existência do céu e do inferno, etc. Não obstante, por mais que concordemos nesses pontos, há outros que discordamos. Estes, entretanto, não são essenciais, são verdades secundárias, resultantes do distanciamento histórico em relação aos acontecimentos narrados na Bíblia. Como não estávamos presentes, por exemplo, no dia de pentecostes ou em um culto da igreja de Corinto do primeiro século, nos deparamos com uma série de teorias a respeito das línguas e do recebimento do Espírito Santo. Não dá pra dizer com convicção quem está certo, só se estivéssemos lá. Por isso, ficamos com as interpretações que julgamos coerentes. Até porque, nenhuma delas compromete a salvação do indivíduo. Falar línguas ou não jamais garantirá ou impedirá a entrada de alguém na morada celeste.
 Sempre haverá pontos conflitantes entre os diversos segmentos evangélicos. Isso não é um fenômeno recente, a discordância esteve presente na igreja desde o princípio. Paulo, por exemplo, discordava da visão de Pedro e dos outros cristãos de Jerusalém. Estes criam que os gentios convertidos deviam observar os ritos e preceitos do judaísmo, aquele entendia que bastava que eles recebessem a Cristo como Salvador. Foi essa controvérsia que os levou à realização do primeiro concílio, em 51 d.C (At 15). Perceba, contudo, que os dois lados da discussão criam em Jesus como o Cristo, Senhor e Salvador de suas vidas, mas discordavam em alguns pontos. Por fim, cada um teve de abrir mão de algo para manter a unidade. Paulo aceitou que se mantivesse o preceito judaico relativo à abstinência do sangue, enquanto os cristãos de Jerusalém concordaram em liberar os gentios dos demais costumes dos judeus. Porém, do essencial eles não precisaram abdicar, pois, nisso, concordavam.
Essa “concordância discordante” é o nosso ideal. Embora discordemos em muitos aspectos, temos de concordar no essencial. A visão cristã não pode ficar restrita aos limites de nossas confissões doutrinárias, nem as denominações podem ser idolatradas como as únicas detentoras da verdade. Pelo contrário, precisamos compreender que todas as vertentes têm suas falhas, inclusive a nossa. Não existe denominação melhor que a outra. Só há maneiras distintas de enxergar aquilo que não é essencial.  
Entrementes, isso não significa que não temos de manter a identidade denominacional. De maneira nenhuma. A identidade é de suma importância, pois ela reflete o posicionamento interpretativo frente às verdades secundárias da nossa fé[2]. Quem não tem uma posição definida fica a mercê das heresias que tão de perto nos rodeiam. “É preciso manter-se firme às crenças que temos, sem fingir que todas as religiões são a mesma coisa, pois claramente não o são” (TUTU, 2012, p. 26).
Não estou defendendo, com base nisso, uma mixofobia[3]. Pelo contrário. Acredito que é possível nos relacionarmos como irmãos, filhos do mesmo Pai, sem abrirmos mão de nossas convicções. Afinal de contas, não é isso que acontece em nossas famílias? Quantos irmãos consanguíneos, embora se amem e convivam bem, discordam acerca de um ou outro ponto? Com certeza, muitos. Alguns, inclusive, possuem ideias diametralmente opostas. Mesmo assim, conseguem viver em comunhão.
Inobstante, há sempre quem condene essa “concordância discordante”. Isto porque, imaginam que todos deveriam, por sermos cristãos, pensar da mesma forma tanto no tocante às verdades fundamentais quanto às secundárias. Não se trata de uma simples ortodoxia, mas de uma fé homogênea, uma espécie de ecumenismo evangélico. O problema é que, para chegar a esse ponto, seria necessário eleger uma dentre as muitas interpretações como única. É exatamente isso que fazem os defensores dessa homogeneidade: elegem o neopentecostalismo (ou o pentecostalismo) como ortodoxia, considerando a teologia das igrejas históricas como heresia. Porquanto, acham que todos deveriam concordar com a ortodoxia atual (o pensamento neopentecostal), cuja estrutura transcende os limites institucionais, uma vez que faz parte do pensamento de membros de todas as denominações. Em suma, os mesmos que criticam a identidade doutrinária, defendem, na verdade, outra identidade, a neopentecostal. Quem discorda disso, é visto como herege. Lembra a Idade Média, não é?
Outro ponto defendido pelos críticos da identidade doutrinária é a ideia de que as denominações deveriam promover intercâmbios entre si. De modo que os pregadores e equipes de louvor pudessem transitar livremente entre as diversas confissões de fé. Quando uma igreja se recusa a participar desse intercâmbio, é acusada de não amar os irmãos. No entanto, é necessário frisar que o amor fraternal do qual a Bíblia fala é muito maior do que estar junto em uma programação ou poder pregar na igreja do outro. O amor deve ser manifestado no trato diário, fora dos limites físicos do templo. O fato de nos amarmos não significa que devemos gostar de fazer tudo juntos. Eu, por exemplo, amo minha esposa, mas não gosto de comprar roupas com ela, pois, no fim do dia, fico esgotado de tanto entrar e sair de lojas. Da mesma forma, ainda que nos amemos fraternalmente em Cristo, há coisas que não gostamos de fazer juntos, como, por exemplo, cultuarmos juntos. Por mais que alguns não tenham coragem de reconhecer, não nos sentimos tão à vontade fora dos limites de nossas confissões doutrinárias. Isto porque, enquanto os crentes “tradicionais” são mais comedidos, os pentecostais são extremamente agitados; enquanto os “tradicionais” não creem em línguas extáticas e revelações extra bíblicas, os pentecostais têm esses pontos como carro-chefe de sua confissão de fé. Decerto, um culto que reúna esses dois grupos trará incômodo para alguém. Se o culto for conduzido segundo a prática “tradicional”, os pentecostais ficarão inquietos, sentindo-se podados. Por outro lado, se a programação seguir o estilo pentecostal, os tradicionais se sentirão como peixes fora d’água. Por isso, o melhor mesmo é que cada grupo permaneça na sua prática de culto, se unindo para outras atividades que visem à propagação do evangelho e a defesa da fé, como eventos de caráter social, manifestações públicas, distribuição de Bíblias, etc.
É claro que isso não nos impede de estarmos juntos em programações normais ou especiais. Se o indivíduo sentir-se à vontade, não há problema algum. Mas sermos obrigados a darmos oportunidade a cantores e pregadores de outras denominações, sob a ameaça da “falta de amor”, é, no mínimo, temerário. Porque, normalmente, quando alguém prega, canta ou ministra, é inevitável a manifestação de sua identidade, seja “tradicional”, pentecostal ou neopentecostal. Por conta disso, inúmeros problemas resultam desses intercâmbios interdenominacionais, deixando pastores em má situação diante de suas ovelhas, tendo que, muitas vezes, corrigir os conceitos apresentados. Diante disso, considero mais saudável que apenas pregadores e cantores da mesma confissão doutrinária (ou de mesmo pensamento teológico) compartilhem os púlpitos.
Alguns podem achar minha postura discriminadora. Porém, muitos, conquanto recebam pessoas de outra denominação as consideram menos crentes, frias, etc. Quando alguém pergunta: “qual a sua igreja”? Muitos, ao saber que se trata de uma igreja tradicional, olham com indiferença, como se fôssemos menos crentes. Isso é discriminação! Deveríamos ficar felizes por essa pessoa servir a Cristo, não fazer pouco caso porque ela não é da mesma denominação.
Somos filhos do mesmo Pai. Mas, pense comigo: se você tivesse um irmão que pensasse totalmente diferente em relação a educação dos filhos, o deixaria ensinar seu filho? Certamente, vocês iriam conviver, se amar, se ajudar, mas na sua casa o ensino continuaria sendo sua responsabilidade. Não querer que seu irmão dirija seu carro, porque você o considera mau motorista, não significa que não o ame. O amor cristão deve ser mostrado no dia-a-dia. Programações não mostram amor, só demonstram uma postura politicamente correta.  
Quando o assunto é a cultura alheia, todos são unânimes em reconhecer que o indivíduo não deve abrir mão dela. Todavia, quando se trata da identidade denominacional, muitos querem liquefazê-la, argumentando que nada mais é que uma subcultura. Sinceramente, nesse tempo tão líquido que vivemos, onde os modelos estão desfigurados, a moral esfarelada e o amor decadente, o que mais precisamos é de identidade.

Pr. Cremilson Meirelles



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002. 6 v. 806 p.

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

TUTU, Desmond M. Deus não é Cristão. Tradução: Lilian Jenkino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2012.











[1] Maneira de ver, sentir, reagir peculiar a cada pessoa.
[2] Considero “verdades secundárias” os posicionamentos baseados em interpretações, tais como as visões relativas ao batismo no Espírito Santo, aos dons espirituais, doutrina da salvação, etc. As fundamentais, por outro lado, seriam aquelas para as quais não há contestação no meio cristão, a saber: a divindade de Cristo, a salvação pela graça, a doutrina da Trindade, o reconhecimento do homem como pecador, a crença na obra redentora de Cristo, a existência do céu e do inferno.
[3] Medo de misturar-se com desconhecidos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

JOÃO APÓSTOLO ERA PRIMO DE JESUS?

Recentemente, fui indagado a respeito do parentesco entre Jesus e o apóstolo João. A pergunta, na verdade, foi a seguinte: “o apóstolo João era primo de Jesus”? Ora, que João Batista era primo do Messias todos sabemos, mas quanto ao apóstolo João também possuir um parentesco consanguíneo, raramente ouvimos algo dessa natureza. Por isso, após o referido questionamento, decidi pesquisar a respeito. As linhas abaixo são o resultado dessa investigação.
 Inicialmente, é necessário frisar que não há na Escritura indicações diretas acerca disso. As afirmações relativas ao parentesco entre Jesus e João baseiam-se em interpretações acerca da identidade da irmã de Maria, mencionada em João 19.25. Uns defendem que era Salomé, esposa de Zebedeu, outros insistem que se tratava de Maria, mulher de Cleófas. As duas possibilidades são destacadas em um comentário marginal da Bíblia de Jerusalém (1998, p. 1891). “Ou se trata de Salomé, mãe dos filhos de Zebedeu (Mt 27.56) ou, ligando essa denominação ao que segue, Maria mulher de Clopas”. Abraçando esta última como verdade, alguns entendem que a melhor tradução para o texto (Jo 19.25) deveria receber mais uma vírgula: “e junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Entretanto, embora no texto grego não exista o termo kaì (e) antes de “Maria mulher de Clopas”, vale salientar que nos manuscritos originais não havia sinais de pontuação. Além disso, segundo Champlin (2002, p. 619), “a primitiva versão siríaca ‘peshita’ também inseria a palavra ‘e’ após a palavra ‘irmã’, o que serve para mostrar-nos que desde bem cedo, na história da interpretação do texto sagrado, essa passagem era aceita como a indicar a presença de quatro mulheres, e não de três somente, ao pé da cruz”.
Mesmo que essa teoria careça de respaldo, uma coisa é certa: havia uma ligação parental entre os filhos de Maria de Clopas e os de Maria, mãe de Jesus. Isto porque, de acordo, com Eusébio de Cesareia (2000, p. 60), “Clopas era irmão de José”. Logo, a Maria em questão seria cunhada de José e concunhada de sua esposa. Isso faria de seus filhos primos de Jesus. Mas quem são eles? Se concordarmos com os estudiosos que sustentam que Alfeu e Clopas eram a mesma pessoa[1], então os primos do salvador, por parte de seu tio, seriam Simeão (conforme assevera Eusébio), Tiago (Mt 10.3), o menor (mais moço), Judas Tadeu (At 1.13), José e Salomé (Mc 15.40).
Mas e quanto ao apóstolo João? Teria ele algum vínculo consanguíneo com Jesus? Há quem diga que sim. Porquanto, como os evangelistas concordam quanto a identidade de duas das mulheres que acompanhavam Maria por ocasião da crucificação de Cristo (Maria madalena e Maria de Clopas), especula-se que a terceira mulher, apontada por João como sendo a “irmã de Maria”, seria Salomé, mencionada diretamente por Marcos (Mc 15.40) e citada como a “mulher de Zebedeu” por Mateus (Mt 27.55,56). Ora, como Tiago, o maior (mais velho) e João eram filhos de Zebedeu (Mt 4.21), segundo essa tese, os dois teriam sido primos de Jesus.
Esse pensamento encontra algum respaldo quando olhamos para a atitude da esposa de Zebedeu diante de Jesus em Mateus 20.20. Pois, ela, conforme explica Champlin (2002, p. 502), “provavelmente ousou falar devido aos laços de parentesco”. Todavia, não há como por um ponto final a essa discussão. Até porque, além de não haver consenso, a teoria carece de uma maior fundamentação. De qualquer maneira, basta a possibilidade para que pensemos: “se assim for, grande parte dos discípulos de Jesus seriam seus familiares (pelo menos sete); isto, sem contar João Batista”. Tal conclusão é, no mínimo, intrigante.

Pr. Cremilson Meirelles




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1998.

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 1: artigos introdutórios: Mateus, Marcos . São Paulo: Hagnos, 2002. 1 v.

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 2: Lucas, João. São Paulo: Hagnos, 2002.

EUSÉBIO de Cesareia. História Eclesiástica. 3 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000




[1] Klopa seria a forma grega do aramaico Chalphay, enquanto Alphaios seria a transcrição direta desse vocábulo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

IGREJA X INSTITUIÇÃO




Após muita relutância, decidi escrever algo sobre a relação entre instituição e igreja. Isto, com o fito de responder a alguns questionamentos suscitados por defensores de um pensamento anti-institucionalista, cuja posição tem se mostrado contrária a toda e qualquer estrutura religiosa hierarquizada e burocratizada. Reconheço, entretanto, que muitos deles têm o desejo sincero de servir a Cristo integralmente, e até concordo com algumas de suas colocações. Discordo apenas da aparente animosidade demonstrada pelos mesmos quando se trata das igrejas locais e das denominações evangélicas, além de divergir de alguns de seus conceitos. Antes, porém, quero sublinhar que não nutro nenhum ressentimento em relação a eles. Por isso, quero manter essa discussão no campo das ideias. Não tenho a intenção de criticar pessoas, mas sim de refletir acerca do relacionamento entre igreja e instituição.
Ao tratar de um tema tão controverso, creio que o primeiro passo deve ser a conceituação. Até porque, como discorrer sobre aquilo que não sabemos o que é? Muitos erros, inclusive, decorrem justamente do entendimento equivocado de alguns termos. Esta, na verdade, não é uma deficiência de alguns, mas uma dificuldade inerente a toda humanidade. Há um abismo entre nós no tocante à comunicação. Tentamos transpô-lo por meio das palavras. Contudo, estas nem sempre expressam com precisão o que pensamos. Às vezes, queremos dizer uma coisa, mas o receptor compreende outra totalmente diferente. Assim, com o escopo de viabilizar um melhor entendimento, começaremos trilhando a senda etimológica.
O termo instituição origina-se do latim institutio, derivado de institutus, particípio passado de instituere, que dá a ideia de definir, estabelecer. A palavra é formada do prefixo latino in (em) somado ao verbo statuere (fazer ficar em pé)[1].  O sentido original da expressão evoca a noção de fundar ou principiar algo. Esse “algo” sempre teve um caráter coletivo, ainda que não se tratasse, necessariamente, de uma estrutura organizacional. Este conceito parcial de instituição, na verdade, foi posteriormente atribuído à palavra. Porquanto, na sua essência, o termo não aponta exclusivamente para um espaço físico, uma entidade, estabelecimento ou organização pública ou privada, mas diz respeito às normas e regras que cosem a tessitura da sociedade. Esses preceitos, costumes ou leis duradouras, estabelecidos formal ou informalmente, com efeito, estruturam as relações sociais, sendo, por conta disso, sancionados pela sociedade. No entanto, em virtude de seu caráter coletivo, as instituições, podem ser vistas como expressão da cultura de um povo, variando, por conseguinte, geográfica e cronologicamente.
De acordo com Roland de Vaux (2004, p.15), renomado historiador e arqueólogo francês, “instituições de um povo são as formas de vida social que esse povo aceita por costume, escolhe livremente ou recebe de uma autoridade”. Dando sequência ao raciocínio, de Vaux afirma que “os indivíduos se submetem às instituições, mas estas, por sua vez, não existem senão em função da sociedade que regem, quer se trate de uma sociedade familiar, política ou religiosa”. Em suma, instituições são estruturas cognitivas que regulam as relações humanas, em suas dimensões políticas, religiosas, familiares, econômicas, etc.
À luz desse pensamento, percebemos claramente que não há como nos desvencilharmos das instituições, pois elas são o cimento da vida social. A família, o casamento, os ritos sociais e religiosos, a divisão do tempo, a metrologia, são exemplos de instituições de um povo. Trata-se de instâncias que antecedem a existência do indivíduo, sendo, portanto, exteriores a este. Isto é, já nascemos ligados à realidade institucional. Somos inseridos coercitivamente nessa realidade assim que chegamos ao mundo. Até porque, as instituições são veículos para a satisfação das necessidades humanas. Logo, negá-las, como diria Durkheim (2002), é negar o fato social, e, consequentemente, a própria sociedade, pois aquelas são mecanismos protetores desta.
Conforme explica o Dr. Huáscar Fialho Pessali, professor da UFPR, para identificar uma instituição é necessário observar três elementos fundamentais: “uma ação regular; o estabelecimento ou ajuste de regras ou normas que geram repetição, estabilidade e uma ordem previsível; e um senso geral explicando, justificando ou legitimando as atividades e as regras”. Ao observar esses elementos, percebo a presença de cada um deles no ajuntamento dirigido por Jesus de Nazaré. Porquanto, o mestre galileu tinha o ensino e a proclamação como a ação regular de seu ministério. Além disso, Ele mesmo propôs a seus discípulos que houvesse reuniões (Mt 18.20) e que estas fossem regulares (Lc 22.19). Outrossim, Cristo, quando instituiu o batismo e a ceia e ordenou a proclamação, estabeleceu regras que geraram repetições, estabilidade e uma ordem previsível. Ademais, sua ressurreição foi o fato que se tornou senso geral entre os discípulos, servindo para explicar e legitimar as atividades e as regras.
O movimento fundado por Jesus também pode ser enquadrado na perspectiva institucionalista de Thorstein Veblen, o qual aponta a estabilidade e a permanência como pressupostos da instituição (SILVA, 2010), além de elencar a homogeneidade como uma de suas qualidades. Ora, estabilidade, permanência e homogeneidade são aspectos que Jesus buscou implementar em seu ministério terreno. Ele encorajava seus discípulos a perseverarem (Mc 13.13) na observância da fé por Ele propagada, o que evidencia seu desejo de um grupo homogêneo (a mesma fé), perpétuo (até o fim) e estável. Porque, mesmo que, diante de algumas palavras de Cristo muitos o abandonassem (Jo 6.66), os doze sempre permaneciam (Jo 6.67,68), o que denota a estabilidade do grupo. O simples fato de alguns elementos do ensino de Jesus se manterem em todos os segmentos cristãos, denota a perpetuidade daquilo que o mestre instituiu, bem como uma homogeneidade elementar.
Da mesma forma, é possível verificar no ajuntamento cristão primevo o conceito defendido por de Vaux. Isto porque, os discípulos passaram a experimentar uma nova forma de vida social com base naquilo que receberam de Jesus, a quem reconheciam como autoridade. Aliás, foi o próprio Messias quem escolheu seus líderes, chamados apóstolos; confiou a um deles a tarefa de cuidar das finanças (Jo 12.1-6); e estabeleceu regras de conduta para seus discípulos (Mt 5.1 - 7.29). Em adição, vale salientar que o termo grego (ekklesia) empregado pelo Filho de Deus para referir-se aos seus seguidores tem origem em uma reunião institucional, caracterizada por convocações com intervalos regulares. “Sua esfera de competência incluía decisões quanto às sugestões para mudanças da lei, às nomeações para posições oficiais e – pelo menos no seu apogeu – quanto a toda questão importante da política interna e externa” (COENEN; BROWN, 2000, p. 984). A cada cidadão era reservado o direito de falar e propor assuntos durante a reunião. A ekklesia estava intimamente ligada à religiosidade do povo. Tanto, que suas sessões eram abertas com orações e sacrifícios aos deuses locais. Ora, à época havia outras palavras gregas que poderiam ter sido empregadas com referência ao corpo de Cristo, tais como thiasos (assembleia cúltica para adorar um deus), eranos (fraternidade que celebrava festas, para a qual contribuía cada participante), koinon (aquilo que é comum), synodos (grupo de pessoas que seguiam no mesmo caminho) e synagoge[2] (comunidade cúltica).
Naturalmente, diante dessas asserções, alguém pode objetar argumentando que Jesus falava aramaico, não grego. Logo, possivelmente, o termo usado por Ele foi o hebraico kahal. Porém, ressalto que, na Septuaginta, utilizou-se ekklesia para traduzir o termo kahal. Mesmo assim, é necessário frisar que nos trechos em que kahal é traduzido como ekklesia, “indica a assembleia do povo ou uma assembleia jurídica (e.g. Dt 9.10;23.3 e segs. Jz 21.5, 8; Mq 2.5), o corpo político (e.g., os exilados que voltaram: Ed 10.8, 12; Ne 8.2, 17)” (Op. Cit. p. 988). Ao passo que, especialmente em Crônicas, diz respeito à assembleia do povo para a adoração (2Cr 6.3; 30.2, 4, 13, 17). Por outro lado, o termo também fora utilizado para traduzir o hebraico kahal quando este apontava para a assembleia do povo de Deus reunida para atender a convocação de Iahweh. Assim, acredito que se os evangelistas utilizaram tal termo, só o fizeram porque entenderam que essa era a ideia que mais se aproximava do que Cristo falara.
Todavia, mesmo após essa exposição, pode ainda pairar uma dúvida relativa à parca utilização de ekklesia nos evangelhos, visto que o termo está praticamente ausente dessas narrativas. Só aparece em Mt 16.18 e 18.17. Inobstante, como afirma Augustus H. Strong, “a igreja existia em germe antes do Pentecostes. De outro modo, aqueles que se converteram não podiam ser acrescentados a nada (At 2.47). [...] Para todos os efeitos e propósitos, constituíam uma igreja, embora a igreja não estivesse ainda completamente equipada para a sua obra pelo derramamento do Espírito Santo [...]” (STRONG apud SOARES, 1987, p. 23).  
Em virtude dos fatos apresentados acima, não só estou certo de que Jesus fundou uma instituição chamada igreja como também vejo nitidamente a fundação de instituições dentro dessa instituição. Batismo e Ceia são exemplos claros disso. Afinal, Ele “instituiu” a ambos. Porém, não quero afirmar com isso que Jesus elaborou uma estrutura organizacional burocratizada, tal como a que vemos hoje, com CNPJ, conta bancária, piso salarial, estatuto, regimento interno, etc; mas penso que, sem dúvida, seu ajuntamento não era anárquico nem desorganizado. De outra maneira, para que teria gasto tempo formando líderes?
Observando as páginas do Novo Testamento, fica bem claro que o termo “igreja” não era empregado exclusivamente como referência à “universal assembleia” (Hb 12.23), isto é, à igreja invisível, chamada Corpo de Cristo. As reuniões regulares restritas a espaços geográficos também eram denominadas assim. Isso é patente nas epístolas paulinas. Ao remeter-se aos Coríntios e Tessalonicenses, por exemplo, Paulo saúda-os como “igreja (ekklesia) de Deus que está em Corinto” (1Co 1.2; 2Co 1.1) e “igreja dos tessalonicenses em Deus” (1Ts 1.1), conferindo, indiscriminadamente, ao ajuntamento local de cristãos o título “igreja”. Em outras passagens vemos o apóstolo afirmar que, em um mesmo local havia várias “igrejas” (Rm 16.4,16; 1Co 11.16; 14.33; 16.19; 2Co 1.1; 8.1; Gl 1.2,22). Igualmente, ao escrever à Filemon Paulo faz menção da igreja que havia em sua casa. Com certeza ele não estava se referindo à totalidade dos salvos, mas à igreja local. Em Rm 16.1-16, a mesma ideia aparece, pois Paulo fala da “igreja” que estava em Cencreia (v. 1), da “igreja” que estava na casa de Priscila e Áquila (v. 3-5), além de mencionar “as igrejas dos gentios” (v. 4) e “as igrejas de Cristo” (v. 16). Ao escrever a Timóteo, Paulo chama a igreja de “casa de Deus” referindo-se a ela como um espaço geográfico onde os crentes se reúnem (1Tm 3.15). Mantendo essa linha, o apóstolo João, seguindo orientações do próprio Cristo, destina, no livro do apocalipse, sete cartas a sete “igrejas”. Por que Paulo e João fariam uma coisa dessas se não pudéssemos chamar nossos ajuntamentos locais de “igreja”? Por que as igrejas seriam identificadas com lugares se, de fato, não houvesse reuniões regulares em um mesmo local?
Decerto, os textos supracitados respaldam o pensamento tradicional de que há uma igreja local, delimitada geograficamente, e uma igreja universal, constituída de todos os salvos, em todos os tempos e lugares. A existência de uma não elimina a outra, mas, ao contrário, a primeira é parte da última. Antes, as igrejas são parte do reino espiritual de Deus. Não há como separá-las do mesmo.
O aspecto institucional da igreja de Cristo fica bem nítido no cristianismo primitivo. Havia eleição de líderes (At 1.15-26; 14.23; Tt 1.5), costumes litúrgicos consensuais (1Co 11.1-16; 14.26-39), ortodoxia teológica (At 2.42; Gl 1.8) exposta, inclusive, por meio de canções (Rm 11.33-36; Fp 2.6-11) e cartas doutrinárias, convocação de Concílio (At 15.1-29), prestação de relatórios (At 11.1-18). Além disso, o próprio Jesus, em Mt 18.17, aponta para essa dimensão física da igreja, reconhecendo a autoridade da congregação, composta de joio e trigo, para tratar de atritos entre irmãos, atuando como uma instância superior ao indivíduo. É evidente que o Filho de Deus não tinha em mente a igreja universal, seu ensino contempla a comunidade cristã local, a qual Ele chama de igreja. Esta, para que pudesse agir segundo a direção dada pelo mestre, fornecendo orientações salutares ao agressor, precisaria, certamente, de uma postura uniforme em relação aos delitos. Uma espécie de posicionamento ético-doutrinário, uma ação conjunta da ekklesia. É exatamente essa posição que Paulo requer dos coríntios diante do escândalo produzido por um dos membros daquela igreja (1Co 5.1-13). Semelhantemente, em Atos 6.2,5 a igreja, mais uma vez, age conjuntamente por ocasião da escolha dos diáconos, e, no capítulo 14 do mesmo livro, a igreja reuniu-se para ouvir o relato de Paulo e Barnabé.
Portanto, “a igreja numa cidade ou numa casa é simplesmente a manifestação local da igreja universal e dela deriva a sua dignidade” (STRONG, 2003, p. 643). Corroborando essa asserção, Andrews declara: “a ‘igreja’ é a fonte de todas as ‘igrejas’ locais. ҆ekklesia em At 9.31 = a igreja representada naquelas províncias. Seu sentido é universal e local, como em 1Co 10.33. A igreja local é um microcosmo, uma localização especializada do grupo universal (STRONG, 2003, p. 643). Destarte, a estrutura organizacional construída em torno das pessoas e pelas pessoas, simboliza e expressa a união interior do ser humano com Cristo e de um indivíduo com o outro.
Não obstante, a igreja de Cristo, por ser composta de seres humanos, é marcada pela imperfeição desde a sua fundação. Entre os discípulos de Jesus havia discriminação (Lc 9.51-56), competição (Mc 10.35-45), furto (Jo 12.1-6), traição (Mt 26.14-16), incredulidade (Jo 20.24-29), entre outros problemas. O que me alegra, entretanto, é que, diante de todas essas imperfeições, Jesus mostrou um amor inextinguível, mesmo àqueles que o abandonaram, assim como àquele que o traiu. Por isso, embora faça minhas críticas aos movimentos contemporâneos, procuro amar mais os imperfeitos. Por mais que discorde, teologicamente, dos pentecostais e neopentecostais, considero-os meus irmãos em Cristo. Por mais que veja imperfeições nas igrejas históricas continuo amando meus pares e transmitindo a mensagem de Cristo através dessa "instituição" imperfeita. Até porque, onde há seres humanos, onde há carne, sempre haverá imperfeição. Só na eternidade as lágrimas serão enxugadas de nossos olhos. Até lá, será imperfeição sobre imperfeição. Nós e nossas igrejas continuaremos defeituosos. Mesmo assim, “[...] Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”.
A igreja, assim como a família, é instituição divina, seja encarada sob o ângulo físico ou espiritual. Não se trata apenas de uma mera fundação, como uma ONG. É mais que isso. Não é à toa que, na Escritura, a designação “igreja de Deus” é atribuída também às comunidades cristãs locais (1Co 1.2). No entanto, como afirma Strong (2003, p. 642), “a igreja, diferente da família e do Estado, é uma sociedade voluntária”. Não há nela o caráter coercitivo e hereditário presente nas demais instituições, uma vez que o ingresso no Corpo de Cristo antecede a adesão à igreja local. Por conseguinte, a religião espiritual não pode ser inimiga da institucional, pois aquela é essência desta.
Sei que as atitudes de alguns líderes, às vezes, nos magoam. Essas mágoas levam alguns a criticarem toda a estrutura. Eu procuro não fazer isso. Até porque, foi através dessa estrutura considerada "hipócrita", "imperfeita", "farisaica", que eu conheci a Cristo. Ele usou aqueles irmãos defeituosos para me apresentar o evangelho, tal como fez com os apóstolos. Logo, não posso deixar de louvar a Deus por aquelas vidas. Além disso, é essa mesma instituição que continua enviando missionários pelo mundo a fim de cumprir o ide de Jesus. Procuro não enxergar somente a partir das lentes de minha confissão doutrinária. Vejo que as diversas denominações têm contribuído de alguma maneira para propagação do Evangelho. Isto, na verdade, é o que considero mais importante: anunciar a Palavra. "É verdade que alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade. Estes o fazem por amor, sabendo que aqui me encontro para a defesa do evangelho. Aqueles pregam a Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade, pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso. Mas, que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato, continuarei a alegrar-me [...]" (Fp 1.15-18).
Por outro lado, penso que essa animosidade relativa às estruturas organizacionais é um dos problemas que caracterizam a pós-modernidade. Corroborando essa asserção, Bauman (2004, p. 65) assevera que “nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante. Essa razão nega direitos aos vínculos e liames, espaciais ou temporais”. Alavancados por essa tendência pós-moderna, muitos rotulam como opressora ou vilã toda estrutura organizada e duradoura, enxergando o pertencimento a uma instituição como alienação ou submissão a um regime manipulador. Nesse contexto, a instituição é vista como adúltera, pois teria traído o Cristianismo original. Pensando assim, seus adeptos usam uma linguagem pejorativa para referir-se à estrutura que rejeitam, indo de encontro ao ideal propagado por Jesus.
Há quem diga que as críticas são dirigidas exclusivamente aos erros da instituição. Porém, suas diatribes levam qualquer um a pensar que estão confundindo os erros com a estrutura. Além disso, o tempo que poderia ser gasto com a evangelização acaba sendo empregado na elaboração de comentários mordazes, fornecendo, inclusive, munição para os inimigos da cruz de Cristo. Em adição, vale ressaltar que, ao invés de contribuir para a agregação dos “sem-igreja”, dão a eles subsídios para permanecerem distantes do aprisco. Se a instituição tem uma parcela de culpa na evasão eclesiástica, a outra, sem dúvida, é responsabilidade desse discurso anti-institucionalista.
Criminalizar toda e qualquer estrutura organizacional é um erro que Jesus nunca cometeu. O Mestre nunca criticou a estrutura física, nem a teologia farisaica, mas a hipocrisia daqueles homens (Mt 23.3). Ele não condenou nem os segmentos que brotaram como produto de seus ensinos. Quando apareceu um homem que expulsava demônios em seu nome (Mc 9.38-40), Jesus não o repreendeu. Ora, por que aquele homem não andava com Jesus? Talvez divergisse de seus discípulos, mas o fato é que ele acreditava em Jesus, pois expulsava em seu nome. No entanto, ele fazia parte de outro segmento, andava sozinho, pensava diferente. Pensar diferente não é pecado. O que precisamos entender é que nossa lealdade, em primeiro lugar, é a Cristo. Se não estamos contra Cristo, o que inclui seus ensinos, estamos a seu favor. Partindo dessa ótica, não importa se somos presbiterianos, congregacionais, batistas ou assembleianos. O importante é se somos de Cristo. E se somos dEle, não há como vivermos uma religiosidade autônoma, divorciada do outro.
Acredito que essa perspectiva que foca os erros eclesiásticos, decerto alicerça-se em decepções e mágoas geradas no interior da instituição. Talvez com um líder, com a teologia, ou com o sistema de governo. Todavia, o grande problema, é que muitos não compreendem que as igrejas não gerenciam suas ações do mesmo jeito. Algumas adotam, por exemplo, o governo monárquico, onde há um líder supremo do qual todas as ordens são emanadas (Católica, IURD); outras optam pelo episcopal, no qual o bispo exerce uma autoridade normativa gerenciando diversas igrejas, podendo, inclusive, remover o pastor de uma congregação sem consultar o Sínodo (Luterana, Anglicana) ou Concílio (Metodista); existe também o sistema presbiteriano, também chamado de oligárquico, um grupo pequeno formado composto de um pastor e alguns presbíteros representa a congregação na gerência dos interesses da comunidade; outro tipo, praticado por congregacionais e batistas, é o sistema conhecido como congregacional, onde cabe à congregação o direito de gerir seus negócios democraticamente. A igreja, reunida em assembleia, toma suas decisões mediante o voto.
Ademais, vale salientar que não existe sistema perfeito. Todos eles possuem falhas. Mesmo assim, entendo que, alguns, favorecem mais erros do que os outros, pois dão margem à opressão que tanto magoa as pessoas. Por isso, muitos acabam generalizando, atribuindo erros que caracterizam o tipo de governo de sua denominação a todos as outras, porque acham que todas as igrejas procedem da mesma forma.
Tudo isso é perfeitamente compreensível, mas não justifica a redução da igreja local a uma mera instituição religiosa evangélica. A dissociação proposta por alguns, distinguindo instituição e comunidade cristã me parece o mesmo que separar o Hulk do Bruce Banner. É impossível! Eles são a mesma pessoa. Ainda que nos gibis isso já tenha acontecido, é claramente algo irrealizável. O Hulk é o Bruce metamorfoseado, não outro ser. Da mesma forma, a comunidade cristã e a instituição são a mesma entidade. Afinal, aquela só existe por causa desta. Onde quer que a comunidade cristã se reunir, haverá institucionalização. Isto porque, como cristãos, sempre desejaremos fazer o bem às pessoas, divulgar nossa fé e nos reunirmos para cultuarmos.
Vamos supor então que eu e você decidimos viver um cristianismo afastado do ambiente institucional. A primeira coisa que faríamos, com certeza, seria encontrar um lugar para nos reunirmos, fosse embaixo de uma árvore, à beira de um rio, ou nos lares. Uma vez que, seguindo o exemplo de At 2, procuraríamos estarmos juntos com a maior frequência possível. Como bons seguidores de Cristo, seríamos naturalmente  levados a ajudar os necessitados. Nesse contexto, surgiria, inevitavelmente, a necessidade de dinheiro, visto que, nessa sociedade capitalista, como ajudar o próximo, tal como fez o bom samaritano, sem dinheiro? Como pagar a hospedagem? Como cuidar dos ferimentos sem a medicação adequada? Como alimentar os famintos sem comida? É... tudo isso requer dinheiro. Havendo uma arrecadação financeira, precisaríamos de alguém para gerir esses bens. Uma espécie de tesoureiro, tal como Judas. Outrossim, embora seja algo novo na história universal, diante das exigências sociais precisaríamos de um CNPJ para agirmos comunitariamente no emprego desse numerário. Cabe ressaltar, no entanto, que toda essa estrutura não sobreviverá sem liderança. E um líder só não será suficiente à medida que o grupo aumentar. Precisaremos também estabelecer um dia e um horário para as reuniões, seja para culto ou para traçar as metas. Mais à frente, com o aumento do grupo, será necessário um lugar para nos reunirmos e para recebermos as pessoas. Até porque, sabemos que podem ocorrer variações climáticas que inviabilizarão reuniões externas. Mesmo assim, alguém pode objetar: por que não nos reunimos nas casas como faziam os discípulos originalmente? Ora, se estamos pregando, ajudando o próximo, fazendo a obra de Deus, naturalmente, o grupo vai aumentar. Como abrigar, confortavelmente, todas as pessoas em uma residência? Daí surge a necessidade de edificar um prédio ou alugar um espaço maior. Pronto, já temos uma sede. Espera aí! Temos sede, arrecadação, reuniões regulares, liderança, divulgamos o evangelho, quem somos nós? Três opções: a) um time de futebol? b) Um partido político? c) Uma instituição conhecida como igreja? É óbvio que “c” é a reposta certa!
Tendo em vista que as reuniões seriam realizadas em um local separado exclusivamente para esse fim, para viabilizar a frequência dos idosos, deficientes e demais visitantes, seria imprescindível realizar algumas melhorias, a saber: a construção de acessos para cadeirantes, aquisição de assentos acolchoados, para que os idosos ou os que sofrem de dores na coluna possam se sentir confortáveis, construção de banheiros adequados aos deficientes físicos, rampas de acesso, salas de aula para ensino do evangelho com ênfases distintas, dependendo da faixa etária, instalação de bebedouros para facilitar a vida de quem sofre de doenças renais ou diabetes, aparelhagem de som, mesmo que seja simples, para que todos possam ouvir a o ensino da Palavra. Caramba! Igualzinho às nossas igrejas!
Toda essa estrutura contribui para o bom andamento da obra de Deus. Não posso dizer que todo esse aparato nada tem a ver com a obra do Senhor. O que precisamos entender é que, mesmo que o templo caia, que sejamos despejados daquele local, a igreja continua, porque ela não é de pedra, mas de carne e osso. Entretanto, se podemos dispor dessa estrutura, por que não usá-la em favor do Reino de Deus? Por que ficar no meio da rua, perto de rios, nos lares ou nas catacumbas, se temos liberdade para nos reunirmos em um ambiente separado para esse fim? A igreja primitiva se reunia nos lares, perto de rios, porque havia perseguição, mas, em muitos textos, vemos Jesus e seus discípulos indo às sinagogas e ao templo.
Embora até aqui esteja saindo em defesa da igreja, enquanto realidade histórica e institucional, não estou, em momento algum, prescindindo do caráter universal e invisível da igreja de Cristo. Nem haveria como fazê-lo, tendo em vista que o Novo Testamento testemunha abundantemente a seu respeito (Mt 16.18; Ef 1.22,23; 3.10; 5.24,25; Cl 1.18; Hb 12.23), identificando-a, inclusive, com o reino espiritual de Deus. Porém, quero deixar claro que a igreja local é parte integrante do Corpo de Cristo. Pois, por mais que saiba que o Rol de membros não é o Livro da Vida, quando olho para aqueles que frequentam o templo não me considero competente para identificar quem pertence e quem não pertence ao Corpo de Cristo. Essa identificação, na verdade, é prerrogativa divina (Mt 13.35-41). O fato de não convertidos fazerem parte do ajuntamento cristão, não o faz deixar de ser igreja. Paulo pensava assim. Porquanto, ao dirigir-se aos coríntios, grupo caracterizado por uma série de pecados, chamou-os de igreja (1Co 1.1,2). Acho muito angustiante ficar sempre desconfiado, pensando que a pessoa que está do meu lado não faz parte do Corpo de Cristo. Quem somos nós para fazermos esse tipo de julgamento? Jesus nunca nos ensinou a fazermos isso. Ao contrário, o mestre nos ensinou a amarmos uns aos outros, aceitando-nos mutuamente. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13.35).
Não estamos autorizados a fazermos esse tipo de segregação, visto que, se o fizermos, estaremos negando a vocação cristã da inclusão. Até porque, por mais que saibamos que em nossas igrejas há pessoas que podem furtar bolsas, é nossa missão integrá-las. Elas precisam estar conosco e nós precisamos estar com elas, pois é no convívio com o diferente, com o excêntrico, com o agressivo, que nós temos a oportunidade de pregar e viver o evangelho, é nesse contexto que temos a oportunidade de perdoar, de amar aquele que nos faz mal, de sermos imitadores de Cristo. Destarte, vivamos plenamente o evangelho de Jesus Cristo na instituição que Ele fundou, fazendo a diferença no mundo que Ele criou através do amor.

Pr. Cremilson Meirelles



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Trad. Gordon Chown. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. 1 v.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Editora Martin Claret, 2002.

PESSALI, Huáscar Fialho. Uma conversa sobre instituições: o que são, como surgem e importância têm. Disponível em: http://www.academia.edu/4350909/Uma_conversa_sobre_instituicoes_o_que_sao_como_surgem_e_mudam_que_importancia_tem. Acesso em: 04 nov. 2013.

SOARES, Ebenézer. Manual da Igreja e do obreiro. 5. Ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1987.

SILVA, Vagner Luís da. Fundamentos do institucionalismo na teoria social de Thorstein Veblen. Política e Sociedade. Nº 17, volume 9, outubro de 2010. p. 289-323

STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003. 2 v.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.








[1] Informação disponível em: http://origemdapalavra.com.br/pergunta/etmologia-da-palavra-instituicao/ Acesso em 04 nov. 2013.
[2] Esta última, porém, deve ter sido rechaçada por causa de sua natureza judaica.