sábado, 29 de julho de 2017

A ESCRAVIDÃO NA BÍBLIA - PARTE IV

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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            Algo digno de nota em relação à perspectiva bíblica acerca da escravidão é o fato de que a Escritura nunca condenou a servidão voluntária. Tanto, que a Lei continha normas aplicáveis àqueles que desejassem perpetuar sua condição de escravo (Deuteronômio 15.16,17). Além disso, como já mencionamos, de acordo com a Lei mosaica, a própria escravidão em si deveria ser um ato voluntário, com o objetivo de quitar uma dívida: “quando também teu irmão empobrecer, estando ele contigo, e se vender a ti, não o farás servir serviço de escravo” (Levítico 25.39).  
            Todavia, é importante sublinhar que, tal como o texto supracitado sugere, havia distinção entre o escravo israelita e o gentio. Pois, enquanto este podia ser vendido (Deuteronômio 21.14), aquele a si mesmo vendia. No entanto, apesar dessa diferença, o escravo gentio, tal como o israelita, gozava de uma série de benefícios. Um deles, inclusive, funcionava como uma espécie de freio inibidor da violência dos patrões. Porquanto, se alguém ferisse os olhos ou os dentes de um escravo, gentio ou israelita, segundo a Lei, teria de libertá-lo (Êxodo 21.26, 27).   
            Há nesse texto, entretanto, uma aparente contradição. Porquanto, nos versículos anteriores, a Bíblia diz que “se alguém ferir a seu servo ou a sua serva com vara, e morrerem debaixo da sua mão, certamente será castigado; porém, se ficarem vivos por um ou dois dias, não será castigado, porque é seu dinheiro” (Êxodo 21.20,21). Tal afirmação, aos olhos dos críticos, constitui uma prova cabal de que o escravo era considerado uma coisa, e que, portanto, não tinha direitos. Afinal, embora a Lei previsse a pena de morte para o assassinato (Gênesis 9.6), essa sentença não seria aplicada a quem matasse seu escravo.
Contudo, é possível perceber que o propósito do texto não é apontar o escravo como mercadoria; afinal, no versículo 20, o agressor é punido. O fato de não ser aplicada, nesse caso, a pena capital, não coisifica o escravo. Na verdade, a legislação estava dando ao patrão o benefício da dúvida. Isto é, na situação hipotética mencionada no texto, ele estaria disciplinando seu servo por alguma má ação, mas sem a intenção de matar. Ou seja, o que está em vista é uma morte acidental. Logo, não há contradição.
            Outra evidência de que a condição do escravo estrangeiro não era tão ruim quanto se pensa, é o fato de que podia contrair matrimônio com os filhos de seu dono. Um exemplo disso é encontrado em 1Crônicas 2.34,35, onde relata-se que um escravo egípcio casou-se com a filha de um israelita. Da mesma forma, em Êxodo 21.7-11, está prevista a possibilidade de uma escrava casar-se com o filho do patrão, e gozar de todos os direitos de uma filha (Êxodo 21.9).
A peculiaridade da escravidão praticada pelo povo da Antiga Aliança salta aos nossos olhos, sobretudo, quando verificamos que, além de todos os benefícios já mencionados, os escravos podiam, inclusive, ter parte na herança de seu senhor: “O escravo prudente dominará sobre o filho que causa vergonha e, entre os irmãos, terá parte na herança” (Provérbios 17.1). Outrossim, era concedido ao escravo o privilégio de, na ausência de filhos do patrão, ser o único herdeiro (Gênesis 15.3).
O mais impressionante nisso tudo, é que estamos tratando apenas de textos do Antigo Testamento, os quais são erroneamente classificados, por alguns, como cruéis e desumanos. Contudo, ao que parece, havia mais “humanidade” naqueles textos que em muitas sociedades contemporâneas. De modo que, muitos, facilmente concluirão que era melhor ser escravo no antigo Israel que ser livre em alguns lugares no mundo de hoje.
Continua no próximo boletim...
Pr. Cremilson Meirelles




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANZOLI, Lucas. A Bíblia e a Escravidão. São Paulo: Clube de Autores, 2017.

DEMAR, Gary. A Bíblia apoia a escravidão? Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/etica_crista/biblia-defende-escravidao_GaryMar.pdf

BARBOSA, João Cândido. O Trabalho e a Escravidão na Visão do Apóstolo Paulo. Goiânia: Fragmentos de Cultura, v. 24, n. 3, p. 403-411, jul./set. 2014.

GEISLER, Norman. Ética cristã. São Paulo: Vida Nova, 1984.

________________. Manual popular de dúvidas, enigmas e contradições da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.


         

terça-feira, 25 de julho de 2017

A ESCRAVIDÃO NA BÍBLIA - PARTE III

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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            Conforme destacamos na pastoral anterior, no sétimo dia da semana o escravo gozava do direito de não fazer obra alguma (Deuteronômio 5.14). Contudo, além do sábado, os escravos descansavam também por ocasião da celebração das festas previstas na Lei. Uma delas era a festa dos pães asmos: “no mês primeiro, aos catorze do mês, pela tarde, é a Páscoa do SENHOR; e aos quinze dias deste mês é a festa dos asmos do SENHOR: sete dias comereis asmos; no primeiro dia, tereis santa convocação; nenhuma obra servil fareis” (Levítico 23.5-7). O mesmo ocorria por ocasião do dia de pentecostes (Levítico 23.21), da festa das trombetas (Levítico 23.23-25), do dia da expiação (Levítico 23.30,31) e da festa dos tabernáculos (Levítico 23.36). Quanto a esta última, cabe ressaltar que todos descansavam de seus trabalhos no primeiro e no oitavo dia: “Fala aos filhos de Israel, dizendo: Aos quinze dias deste mês sétimo, será a Festa dos Tabernáculos ao SENHOR, por sete dias. Ao primeiro dia, haverá santa convocação; nenhuma obra servil fareis. Sete dias oferecereis ofertas queimadas ao SENHOR; ao dia oitavo, tereis santa convocação e oferecereis ofertas queimadas ao SENHOR; dia solene é, e nenhuma obra servil fareis” (Levítico 23.34-36).

            Mas, os benefícios não param por aí. Pois, além de folgarem nos dias de festa, aos escravos era permitido participar das celebrações: “E te alegrarás perante o SENHOR, teu Deus, tu, e teu filho, e tua filha, e teu servo, e tua serva, e o levita que está dentro das tuas portas, e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão no meio de ti, no lugar que escolher o SENHOR, teu Deus, para ali fazer habitar o seu nome. E lembrar-te-ás de que foste servo no Egito, e guardarás estes estatutos, e os farás. A Festa dos Tabernáculos guardarás sete dias, quando colheres da tua eira e do teu lagar. E na tua festa te alegrarás, tu, e teu filho, e tua filha, e teu servo, e tua serva, e o levita, e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão das tuas portas para dentro” (Deuteronômio 16.11-14).

            Outrossim, enquanto aos estrangeiros e aos trabalhadores contratados era vedada a participação à mesa na celebração da páscoa, aos escravos era permitido comer o cordeiro pascal: “Disse mais o SENHOR a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da Páscoa; nenhum filho de estrangeiro comerá dela. Porém todo servo de qualquer, comprado por dinheiro, depois que o houveres circuncidado, então, comerá dela. O estrangeiro e o assalariado não comerão dela” (Êxodo 12.43-45). 

            Havia também uma refeição de comunhão, custeada pelos dízimos, da qual os escravos participavam junto com a família à qual serviam: “nas tuas portas, não poderás comer o dízimo do teu cereal, nem do teu mosto, nem do teu azeite, nem as primogenituras das tuas vacas, nem das tuas ovelhas; nem nenhum dos teus votos, que houveres votado, nem as tuas ofertas voluntárias, nem a oferta alçada da tua mão; mas o comerás perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que escolher o SENHOR, teu Deus, tu, e teu filho, e tua filha, e teu servo, e tua serva, e o levita que está dentro das tuas portas; e perante o SENHOR, teu Deus, te alegrarás em tudo em que puseres a tua mão” (Deuteronômio 12.17,18).   

Ora, isso era inimaginável entre os outros povos da época! Somente a Lei do Senhor concedia tais direitos! Por essa razão, se um israelita comprasse um escravo de outra nação, como determina Levítico 25.44, estaria, na verdade, beneficiando-o. Afinal, em nenhum outro país a escravidão seria tão branda! Em adição, ser adquirido por um senhor israelita proporcionava o privilégio de conhecer a revelação do Senhor, e a oportunidade de se unir à comunidade da aliança!

Continua no próximo boletim...

Pr. Cremilson Meirelles





               REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANZOLI, Lucas. A Bíblia e a Escravidão. São Paulo: Clube de Autores, 2017.

DEMAR, Gary. A Bíblia apoia a escravidão? Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/etica_crista/biblia-defende-escravidao_GaryMar.pdf

BARBOSA, João Cândido. O Trabalho e a Escravidão na Visão do Apóstolo Paulo. Goiânia: Fragmentos de Cultura, v. 24, n. 3, p. 403-411, jul./set. 2014.

GEISLER, Norman. Ética cristã. São Paulo: Vida Nova, 1984.

________________. Manual popular de dúvidas, enigmas e contradições da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.





A ESCRAVIDÃO NA BÍBLIA - PARTE II

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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            Como vimos na última pastoral, a escravidão israelita se distinguia da moderna, pois enquanto esta se baseava no rapto de pessoas, aquela era, na verdade, uma forma de quitar dívidas. Até porque, raptar e comercializar indivíduos são práticas claramente condenadas nas Escrituras: “o que raptar alguém e o vender, ou for achado na sua mão, será morto” (Êxodo 21.16).
            Apesar disso, os críticos da Bíblia insistem que o texto citado acima não prova a inexistência de escravidão baseada no sequestro. De acordo com eles, Êxodo 21.16 seria aplicável somente aos israelitas. Porquanto, Deuteronômio 24.7 dá a entender que a proibição se restringia ao rapto e venda de israelitas. No entanto, não há nenhum indício de que a lei registrada em Êxodo 21.16 refira-se exclusivamente a israelitas. Afinal, se fosse assim, o versículo 12 também seria restrito aos israelitas: “quem ferir a outro, de modo que este morra, também será morto.” Porém, essa ordem fora destacada como um princípio divino e universal, em Gênesis 9.6: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem.” Sendo assim, o que vemos em Deuteronômio 24.7 é uma proibição relativa aos israelitas, a qual, em hipótese alguma, restringe a abrangência de Êxodo 21.16.  
            A diferença entre a escravidão praticada em Israel e a que foi imposta aos africanos é tão evidente, que a Bíblia declara que o escravo deveria ser tratado como um empregado, e não como um prisioneiro submetido a maus tratos: “ele deverá ser tratado como um empregado contratado anualmente; não permitam que o seu senhor domine impiedosamente sobre ele” (Levítico 25.53 – NVI). É bem verdade, no entanto, que a escravidão poderia vir como resultado de um crime. Entretanto, isso só aconteceria se o ladrão não tivesse como restituir o que fora roubado: “o ladrão fará restituição total; e se não tiver com que pagar, será vendido por seu furto” (Êxodo 22.3b). Isto é, seria uma espécie de “trabalho forçado”, imposto como punição pelo crime.
            Outro aspecto distintivo da escravidão israelita era a permissão de que o escravo fugitivo vivesse em liberdade, na cidade que escolhesse. Pois, a lei de Moisés proibia os hebreus de devolvê-lo ao seu patrão: “não entregarás a seu senhor o servo que se acolher a ti de seu senhor. Contigo ficará, no meio de ti, no lugar que escolher em alguma das tuas portas, onde lhe estiver bem; não o oprimirás” (Deuteronômio 23.15,16). As demais nações antigas, ao contrário, puniam o escravo fugitivo com a morte.       
O fato da lei não prescrever punição para os fugitivos, consequentemente, fazia com que os senhores tratassem bem seus escravos. Até porque, se não o fizessem, poderiam fugir, e não retornar nunca mais. Destarte, em razão do bom tratamento que lhes era dispensado, muitos escravos decidiam permanecer com seus senhores (Dt 15.16,17).
Ademais, cabe salientar que o escravo no Antigo Israel tinha direito a vários dias de descanso ao longo do ano. Um desses dias era o sábado: “mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhuma obra nele, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu escravo, nem a tua escrava, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas” (Deuteronômio 5.14).
Continua no próximo boletim...
Pr. Cremilson Meirelles

           
               REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANZOLI, Lucas. A Bíblia e a Escravidão. São Paulo: Clube de Autores, 2017.

DEMAR, Gary. A Bíblia apoia a escravidão? Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/etica_crista/biblia-defende-escravidao_GaryMar.pdf

BARBOSA, João Cândido. O Trabalho e a Escravidão na Visão do Apóstolo Paulo. Goiânia: Fragmentos de Cultura, v. 24, n. 3, p. 403-411, jul./set. 2014.

GEISLER, Norman. Ética cristã. São Paulo: Vida Nova, 1984.

________________. Manual popular de dúvidas, enigmas e contradições da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.