sexta-feira, 13 de outubro de 2017

É CERTO DAR DINHEIRO PARA A IGREJA? – PARTE III

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa




            Conquanto as doações para igreja local sejam mal vistas por alguns, salta aos olhos o fato de que Jesus e seus apóstolos lidaram muito bem com isso. Tanto, que, mesmo após a ascensão de Cristo, o grupo apostólico continuou recebendo dinheiro dos demais discípulos: “não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha” (Atos 4.34,35).
O que impressiona nesse relato, é que as pessoas estavam tão desapegadas que não faziam questão de gerenciar o valor das doações, mas outorgavam esse privilégio aos apóstolos. Ninguém se sentia lesado por não ter ingerência direta sobre o numerário. Ademais, partindo do princípio de que os doze (incluindo Matias) constituíam a liderança da igreja primitiva, dar dinheiro a eles era o mesmo que dar para a igreja; e ninguém achava isso estranho.
Mas, o que eles faziam com os valores doados? No texto citado, fica claro que o dinheiro era empregado no auxílio aos cristãos necessitados. Porém, as Escrituras apontam outras áreas de investimento. Uma delas era o sustento missionário. Um exemplo disso pode ser encontrado em 2Coríntios 11.8, onde o apóstolo Paulo afirma que recebeu salário de outras igrejas para poder realizar a obra entre os coríntios: “outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e, quando estava presente convosco e tinha necessidade, a ninguém fui pesado”. O termo traduzido como salário é o grego opsōnion, que originalmente referia-se à verba que o soldado recebia para seu sustento. Esse sentido da palavra pode ser verificado no discurso de João Batista, em Lucas 3.14: “e uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal, nem defraudeis e contentai-vos com o vosso soldo (opsōnion)”. Com o passar do tempo, entretanto, o termo opsōnion adquiriu a conotação de salário em geral.
O apóstolo Paulo usa esse termo em três ocasiões (1Coríntios 9.7; 2Coríntios 11.8; Romanos 6.23). Em duas delas, opsōnion alude ao sustento que lhe era devido em razão do trabalho missionário. Em 1Coríntios 9.7, por exemplo, o apóstolo faz uma analogia com o serviço militar, indagando: “Quem jamais vai à guerra à sua própria custa?” Com esse questionamento, Paulo tencionava defender seu direito ao suprimento das necessidades básicas. Porquanto, tal como o soldado, ele esperava que seu exército lhe fornecesse provisões. No entanto, a igreja de Corinto não compreendia muito bem essa realidade. Pois, enquanto os pobres cristãos macedônios consideravam um privilégio contribuir (2Coríntios 8.4), a abastada igreja coríntia precisava ser instada a assumir sua responsabilidade, tanto em relação aos irmãos que padeciam necessidades (2Coríntios 8.7), como no tocante ao sustento missionário (1Coríntios 9.7; 2Coríntios 11.8).
Além de promover a manutenção do trabalho missionário, o dinheiro doado pelos cristãos primitivos era aplicado em programas sociais, que visavam o sustento dos órfãos e das viúvas (Atos 6.1-6; 1Timóteo 5.9,16). Esses programas eram dirigidos pela liderança da igreja. Não era resultado de iniciativas individuais. Isto é, os membros da igreja faziam suas doações e os líderes gerenciavam os recursos. Se não fosse assim, por que Paulo daria orientações acerca dos requisitos para inscrição das viúvas a Timóteo, o jovem pastor da igreja de Éfeso?
É bem verdade, entretanto, que, seguindo o modelo administrativo de Jesus, é necessário que haja um tesoureiro, ou seja, alguém responsável pelas finanças, a fim de  que o líder não manuseie diretamente o dinheiro. Contudo, embora isso aconteça nas igrejas históricas, nem sempre é realidade nas comunidades evangélicas contemporâneas.
Continua...
Pr. Cremilson Meirelles