sábado, 26 de julho de 2014

VERDADEIRO EVANGELHO? QUE NADA!

Ultimamente, tenho ouvido muitos dos que abandonaram a comunhão da igreja afirmarem que estão vivendo o verdadeiro evangelho. Quanto às suas antigas comunidades de fé, os dissidentes são unânimes ao dizer que são institucionalizadas, podres, idólatras, distantes dos princípios básicos da fé cristã, e irremediavelmente longe do verdadeiro evangelho. Contudo, quando analiso suas atitudes não consigo enxergar os traços do Jesus de Nazaré. Porquanto, seu “ministério”, se é que podemos chamar assim, consiste apenas em criticar tudo e todos. Ninguém presta, a não ser os ícones do desigrejamento, os quais são elevados ao mesmo nível dos tele-pastores. Isto é, seus ícones estão para eles tal como os "ungidos" estão para os neopentecostais. Até porque, conforme advogam, quem não pensa como eles ou é manipulado ou manipulador. Parafraseando o dito de  Natanael (Jo 1.46), os “verdadeiros servos de Jesus” entendem que nada pode vir de bom de “Nazaré”, ou seja, do ajuntamento chamado por eles de instituição.
Viver o verdadeiro evangelho, na concepção desses indivíduos, é ridicularizar os outros arrogando para si a propriedade do mais alto conhecimento bíblico e filosófico; é acusar os outros de imbecilização, é diminuir o próximo e superestimar o próprio ego. É mais ou menos assim: “quem não pensa como eu, é imbecil e manipulado”. Quanta santidade! Não consigo imaginar Jesus fazendo isso. Ele chamou sim os fariseus de hipócritas, mas nunca tentou ridicularizá-los ou colocar-se como super intelectual, reduzindo-os ao nível de Neandertais.
Será que isso é viver o verdadeiro evangelho? Abandonar os títulos eclesiásticos, mas fazer questão dos seculares, tais como escritor, líder de movimentos na internet, pensador, juiz, médico, etc. Não me lembro de Jesus incentivando esse tipo de coisa. Mesmo assim, todo mundo faz e não vê problema nenhum nisso. Problemático é só ser pastor, diácono ou qualquer outra coisa no contexto da igreja, ainda que esses títulos apareçam na Bíblia. Tudo é bom quando convém!
Criticam o clericalismo, mas não abrem mão do capitalismo, dos altos salários, etc. Estranho... Jesus viveria assim hoje? Pelo que me lembro, depois que iniciou Seu ministério, o Mestre não escreveu uma linha sequer, abriu mão de seu emprego, e passou o resto de seus dias na Terra propagando as boas novas. De igual modo, no livro de Atos, as pessoas vendiam suas propriedades ao invés de adquirir carros e casas luxuosas. Além disso, distribuíam tudo aos pobres. Quem faz isso hoje? Será que tem alguém vivendo como Jesus viveu? Nem os que alegam viver o “verdadeiro evangelho” o fazem! Por que não abrem mão de seus empregos, carros, casas, notebooks, tablets, I-phones, e doam tudo aos pobres?
Criticar é fácil. O mais difícil é amar as pessoas apesar de todas essas dificuldades. Foi para isso que Jesus nos chamou! Por isso, Ele mesmo reuniu um monte de problemáticos e denominou-os apóstolos. Justamente, para que pudessem aprender a amar a despeito das imperfeições. Pensando assim, consigo enxergar na “instituição religiosa” (maneira como os “verdadeiros cristãos” chamam a igreja) uma rica oportunidade de viver o evangelho genuíno. No meio de todos os problemas, amando todos aqueles imperfeitos, vivendo como Cristo, que não abandonou a comunidade judaica, antes, a priorizou na sua evangelização (Mt 10.6). O Mestre jamais abandonou o templo ou as sinagogas, só não fez deles o centro de sua vida. Lucas, inclusive, relata que era Seu costume ir à sinagoga aos sábados (Lc 4.16).
Se igreja é encontro, conforme advogam esses, porque não se encontrar com frequência para cultuar, como faziam nossos irmãos desde o primeiro século? De acordo com a Bíblia, eles se reuniam nos lares, mas também estavam juntos no templo (At 2.46). Muitas comunidades de fé observam essa prática nos dias de hoje: cultuam no templo aos domingos e durante a semana se reúnem nos lares, em pequenos grupos. Ah, mas isso também, como pensam os “verdadeiros cristãos”, faz parte de uma estrutura opressora e clericalista que quer somente manipular e usar os crentes a seu bel-prazer. Mesmo que essa “estrutura” ajude pessoas a serem inseridas, a se tornarem melhores seres humanos, continua sendo um instrumento “do mal”. Ainda que essa “estrutura” contribua com a saúde e a educação de nosso país, permanece sendo “maligna”. Eu hein! Que pensamento esquisito!
Por que será que a maioria dessas pessoas têm em comum o fato de terem sofrido decepções em relação às suas “instituições religiosas”? “Porque o sistema é falho, hipócrita e não vive o verdadeiro evangelho”, dirão eles. Então, por que muita gente permanece feliz nessas “instituições”? “Porque são imbecis e manipulados”, responderão. Mas, espera aí: só existem esses dois grupos? Imbecis e sabichões? Não existem pessoas que vivem o verdadeiro evangelho no contexto “institucional”? “Sim, mas é 0,00000001%, dirão eles”. Sabe, ninguém pode fazer esse tipo de leitura sem se colocar acima dos outros. Sinceramente, embora eu também seja um crítico do neopentecostalismo, reconheço que tem muito neopentecostal vivendo o evangelho muito mais do que alguns membros de igrejas históricas. Tem crente de verdade em todas as vertentes denominacionais. Não podemos nos considerar os únicos detentores de um conhecimento secreto que leva à salvação (gnosticismo?). Onde está a compreensão? Cadê a tolerância inerente ao amor?
No fundo, os propagadores desse “verdadeiro evangelho" são pessoas que não conseguiram conviver com os erros dos outros, que não conseguiram gerenciar suas emoções, e agora descontam nas instituições. O que eles queriam era não sofrer. Como sofreram, se voltaram contra os que lhes trouxeram o sofrimento. Isso é evidenciado pelas atitudes da maioria, que começa a se reunir nos lares, nas praças, nas salas de aula. O que eles queriam era se reunir com a igreja, mas do jeito deles. Como foram podados, se revoltaram e criaram seu novo grupinho, que no fim é uma reprodução do grupão do qual faziam parte, modificada para ser à sua imagem e semelhança.
O que mais me impressiona é que todo o conhecimento teológico que eles possuem, adquiriram com aqueles a quem eles se referem como “imbecis”, “manipulados”, “manipuladores”, “presos numa caixa”, “institucionalizados”, etc. Sem o “clericalismo” que tanto odeiam jamais poderiam ter estudado em uma instituição de ensino teológico (Ué, mas as instituições não são do capeta? Por que estudaram e estudam nelas?). É muita contradição para mim. Não dá para caminhar com esse povo.
Outra coisa que me intriga é que alguns dos que dizem que estão vivendo o verdadeiro evangelho enchem a cara de cachaça, fazem sexo fora do casamento, e são contra tudo e todos. Esse é o verdadeiro evangelho? Desculpa, mas se for isso, prefiro o “falso”; ou melhor, o que eles dizem que é falso. Sou feliz servindo a Cristo na minha “instituição”, “caixa”, “redoma”, ou seja lá como quiser chamar.
A propósito, quero ressaltar algo de suma importância a esse respeito: igreja não é encontro. É um organismo vivo! Encontro é algo efêmero. A igreja é perene, e é santa também. Não dá para enlarguecer o conceito de santidade a fim de legitimar a licenciosidade. Ser igreja não é só fazer ação social. Isso é parte da missão. É necessário anunciar a salvação. Jesus não veio só para dar um bom exemplo de comportamento. Ele veio para salvar a humanidade! Segui-lo sem anunciar isso, é negá-lo.
 Destarte, é melhor ficar na minha caixa do que viver esse “verdadeiro evangelho". Prefiro a bitolação à animosidade fomentada nesses grupos em relação às igrejas locais. Encontro muito mais amor nas “instituições” que nas palavras dos “verdadeiros” cristãos. Pelo menos lá, ninguém me chama de imbecil. E nem adianta vir com esse papo de que quem ama fala a verdade, porque eu posso muito bem falar a verdade sem ofender ou ridicularizar. Foi através da “instituição” que conheci Jesus, mas foi por meio dEle que conheci a graça. Então, olhei ao meu redor e só vi imperfeição. Foi aí que entendi a infinita dimensão do amor divino e o desafio proposto à igreja, de amar apesar dos erros, das falhas e das decepções. Portanto, agradeço a Deus pela “instituição” que Ele usou para me apresentar o evangelho, e louvo a Ele por permanecer nela.

Pr. Cremilson Meirelles

segunda-feira, 21 de julho de 2014

REVISITANDO AS BODAS DE CANÁ

Uma análise de João 2.1-11
 
Quem nunca ouviu falar do episódio no qual Jesus transformou água em vinho? Mesmo aqueles que não professam a fé cristã conhecem essa história. Até porque, ela já foi retratada no cinema, livros a mencionaram, além de ser largamente empregada nas cerimônias de casamento. Aliás, existe uma conhecida expressão popular referente às mudanças radicais que se baseia no primeiro milagre de Jesus. É o famoso dito: “fulano mudou da água para o vinho”!
Contudo, embora o uso frequente do texto revele o apreço que a cristandade tem por essa narrativa, penso que grande parte dos sermões fundamentados nela não reflete a realidade expressa nas páginas do evangelho de João. Basta atentar para o protagonista de muitas dessas homilias: o vinho. Este elemento vem roubando a cena já há muito tempo. Porquanto, usando e abusando das alegorias, vários pregadores o transformaram na alegria da vida conjugal, no Espírito Santo, entre outras coisas. Dificilmente, o vinho é tratado como apenas vinho. Além disso, a bebida produzida por Jesus também tem sido alvo de debates a respeito da abstinência do álcool. Uns dizem que ela não era fermentada, enquanto outros argumentam o contrário. Enfim, o Messias, o Salvador da humanidade, o Deus Todo-poderoso, é deixado de lado e o vinho assume o papel principal.
Pensando assim, alguns chegam a sugerir que o Cristo teria ido àquela festa somente para transformar a água em vinho, devolvendo assim a alegria furtada pela ausência da bebida. Não obstante, ao analisarmos honestamente o texto, a conclusão lógica e inevitável é que tal assertiva não faz sentido algum. Sem dúvida, Jesus foi até Caná por outro motivo. O problema é que sua motivação era tão óbvia e simples que muitos a desprezaram. Ora, o Mestre dirigiu-se até àquela pequena aldeia apenas para participar da festa e se alegrar com os nubentes. Afinal, foi para isso que o convidaram, não é? Era uma festa de casamento, oras. Por que temos que “enfeitar o pavão” e metamorfosear um relato tão bonito?
Penso que isto ocorre porque, para alguns, parece algo estranho imaginar que o messias prometido, o próprio Deus encarnado, teria tempo para se socializar com as pessoas, tal como nós fazemos. Contudo, é exatamente isso que narra o evangelista João. Ele diz que Jesus e seus discípulos foram convidados para as bodas em Caná da Galileia (Jo 2.2). Só isso. Não diz que o vinho representava a alegria, e, muito menos, o Espírito Santo. Na verdade, nenhum trecho da Bíblia diz isso! Na verdade, a beleza do texto não está nessas aplicações alegóricas, mas sim no exemplo que Jesus nos dá. Pois, o mestre mostra que devemos enxergar o ser humano não só como uma alma que precisa de salvação, mas como um ser completo, com necessidades físicas, sociais, psicológicas e espirituais. Precisamos valorizar todos os aspectos da vida humana. A salvação é a maior das necessidades, mas não exclui as outras. Jesus veio para nos salvar, mas considerou importante se alegrar conosco; e nem por isso suas atividades deixaram de ser espirituais.
Todavia, é muito comum, no contexto evangélico, supervalorizar aquilo que se faz no templo e atribuir menos valor ao que se faz fora dele. Para que uma atividade seja considerada espiritual deve ter alguma relação com o templo ou com o que se faz lá. Talvez, por conta disso, alguns decidiram alegorizar esse episódio. Até porque, embora Jesus tenha realizado um milagre, o contexto do evento nada tinha a ver com a espiritualidade templária do Cristianismo posterior. A narrativa mostra, ao contrário, o Mestre se divertindo com seus discípulos e amigos. Que magnífico exercício da comunhão, tão exaltada nas Escrituras (Sl 133.1)! Não dá para dizer que isso não é espiritual!
É necessário compreender que ser igreja é muito mais do que frequentar templos. É estar junto, ter tudo em comum (At 2.44). Nas bodas de Caná, os discípulos estavam reunidos, literalmente, em nome e ao redor de Jesus. Eles estavam em comunhão com o Mestre e uns com os outros, mas não estavam no templo. Creio que esse é o ponto principal, essa é a base para o milagre: Jesus como centro e cada crente como parte de um organismo vivo, dinâmico, que ultrapassa os limites geográficos e temporais. Assim, anunciamos as boas novas e mostramos como é bom servir a Cristo.
Não estou afirmando, entretanto, que devemos abandonar as reuniões no templo e os compromissos relacionados à comunidade de fé da qual fazemos parte; ao contrário, quero te convidar a enxergar a espiritualidade como algo maior do que os momentos que vivemos no interior do templo, a entender que nosso relacionamento com Deus tem de ultrapassar esses limites. Não podemos encenar, temos de viver isso o tempo todo. Nas festas, no trabalho, em casa, no colégio, etc.
Dando sequência à análise do texto, algo curioso salta aos olhos quando atentamos para a declaração de João acerca de Maria. O evangelista não diz se ela foi convidada ou não, só afirma que ela já estava lá (Jo 2.1). Penso que isto ocorre por haver entre ela e os noivos algum grau de parentesco. Portanto, possivelmente, Maria, como parte da família, estava ajudando nos preparativos para a celebração. Por isso, já estava presente. Até porque, Segundo R. de Vaux, naquele tempo “a festa (de casamento) durava normalmente sete dias, Gn 29.27; Jz 14.12, e podia se prolongar por até duas semanas...” (2004, p. 57). Uma festa dessas proporções certamente requereria uma grande provisão de suprimentos, bem como uma boa administração destes. Acredito que a mãe de Jesus estava auxiliando nessa área. Daí a razão de sua preocupação com a falta de vinho. Isto é, nem para Maria o vinho era tão importante; seu desassossego era por causa da festa, não da bebida em si. A ausência do vinho marcaria negativamente a festa de casamento do casal.
O mais interessante, no tocante à suposta tragédia da ausência do vinho, é que os noivos nem tomam conhecimento do fato. Ou seja, a “alegria” não acabou em momento algum! Como podem, então, afirmar alguns pregadores que a alegria havia acabado, e que Jesus a devolveu? Não faz sentido algum! Nem o mestre-sala soube do ocorrido. Tanto, que, ao invés de exaltar Jesus pelo milagre, ele elogia o noivo pela qualidade da bebida. Portanto, fora Jesus, seus discípulos e Maria, somente os empregados contemplaram a escassez do vinho.
Além de não “devolver” a alegria à festa, a presença de Jesus não levou alegria à celebração. Ao ler isso, é possível que você esteja me chamando de herege, haja vista que a grande maioria dos pregadores afirma justamente o oposto. “A presença de Jesus trouxe alegria ao casamento”. A despeito dessas frases feitas, pense comigo: eles estavam numa festa! Você já viu uma comemoração sem alegria? Eles estavam felizes por causa do matrimônio, oras. Jesus não os fez ficarem felizes, eles já estavam! Não estou dizendo, com isso, que a presença de Jesus não traz alegria. Pois traz sim. Só estou afirmando que o texto não trata disso. Mas do que o texto fala então? Ah, chegamos ao ponto: do que João está falando? Qual o seu propósito? Sabe, há muitas interpretações sobre o texto. Não tenho a presunção de apontar a minha como a perfeita. Desejo somente lançar luz sobre alguns aspectos que, a meu ver, têm sido relegados a um segundo plano.
Vamos pensar um pouco. Jesus acabara de recrutar seus primeiros discípulos. Dois deles haviam sido discípulos de João Batista. Isto é, até então, seguiram um homem que não tinha casa (possivelmente, morava numa caverna), que não se vestia como a maioria e que mantinha uma dieta peculiar. Agora, entretanto, eram seguidores de um homem que tinha uma casa (João 1.38,39), não seguia nenhuma dieta e se vestia como qualquer outro judeu (tanto que a mulher samaritana o reconhece como judeu – João 4). Para complicar ainda mais a situação, a primeira atitude de Jesus na condução daqueles homens é leva-los a uma festa. Ora, todos esperavam que Ele agisse diferente. Afinal de contas, Ele era o messias prometido. Contudo, ao invés de ir pregar, como fazia João, ou reunir um exército, de acordo com a expectativa de muitos, Jesus os convida para ir a uma festa na Galileia. Provavelmente, isso contribuiu para que os discípulos questionassem: será que Ele é mesmo o messias? O próprio João Batista, em dado momento, chega a ter dúvidas (Mt 11.2,3). Não é à toa que o texto mostra que, antes do milagre, faltava-lhes fé (Jo 2.11).
Percebendo que seus discípulos enxergavam a partir de uma concepção limitada de seu ministério, Jesus realiza um milagre, a fim de elevar a fé deles a uma nova dimensão. O Filho de Deus não baseou suas atitudes naquilo que as pessoas queriam. Maria queria repor o vinho, os discípulos esperavam um comportamento ascético, mas o que todos precisavam era de fé. Sabendo disso, Ele transformou a água em vinho; não por causa do casamento, dos convidados, da festa e, nem mesmo, para atender ao pedido de Sua mãe. Ele o fez para que os discípulos cressem nele, não apenas como um guerreiro, não somente como humano, mas como o Filho de Deus.
À luz dessa interpretação, fica uma mensagem evidente: Jesus tem que ser o centro sempre! Só Ele sabe o que realmente precisamos. Temos de seguir a orientação de Maria e “fazer tudo quanto Ele disser”. Mesmo que falte vinho, ainda que nossos desejos e expectativas não se tornem realidade... o que Jesus tem para nós é sempre melhor! Não podemos focar os milagres. O próprio Cristo não fez. Ele transformou a água em vinho por causa das pessoas. Não houve cerimonial, nem rito, nem uma performance teatral. Simplesmente, ele disse que enchessem as talhas.
Jesus não gostava do show que vemos hoje em dia. Para um milagre acontecer, é necessário todo um aparato simbólico e ritual. Tem dia marcado e tudo. Será que isso está acordo com a Bíblia? Acho que não. Mesmo assim, o povo continua sendo arrastado por esse tipo de manifestação fenomênica. Como diz a Escritura: “o meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento” (Os 4.6). Que pena...

Pr. Cremilson Meirelles


BIBLIOGRAFIA

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 2: Lucas, João. São Paulo: Hagnos, 2002.

DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004. 

YANCEY, Philip; BRAND, Paul. A imagem e semelhança de deus. uma analogia entre o corpo humano e o corpo de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2003.






quinta-feira, 17 de julho de 2014

O QUE É A ORAÇÃO?

“Oração é uma conversa com Deus”. Essa é a resposta padrão, dada pela maioria dos evangélicos. Entretanto, na prática, nem sempre aplicamos esse princípio. Um exemplo claro disso, é a oração pública realizada nos templos, pois quando alguém levanta a voz e ora muitos fecham os olhos e apenas ouvem o que o outro fala. Ora, se é uma conversa nós precisamos falar também, seja em pensamento ou fazendo uso de nossas cordas vocais. Não dá para ficar pensando em um monte de coisas que nada tem a ver com o que está sendo falado! É necessário se relacionar com o Todo-poderoso! É claro, no entanto, que podemos concordar com a oração pública, mas devemos remeter nossos pensamentos a Deus.
Outro erro muito comum em relação à oração é a ideia de que oração é algo que se recebe. Pensando assim, várias pessoas, quando solicitam que alguém interceda por elas, usam a expressão: “me ora”? Querido, ninguém ora você ou te ora; as pessoas oram POR você. Isto é, elas conversam com Deus, pedindo que Ele lhe abençoe. Não somos nós que recebemos a oração. Deus é quem recebe. Nunca peça para alguém “te orar”, solicite que orem POR você.
Quanto à oração intercessora, vale salientar que, embora seja válida, não pode ser divinizada. Digo isso, porque há muitas pessoas que acreditam que há orações “mais fortes” que outras. Assim, muitos se tornam dependentes da oração do pastor, por exemplo, por crerem que sua oração tem mais poder. Entenda: a oração não tem poder. A Bíblia afirma categoricamente que “o poder pertence a Deus” (Sl 62.11). O próprio Jesus afirmou que “todo poder lhe fora dado” (Mt 28.18). Não há poder no homem, só em Deus. Sem Ele, nada podemos fazer (Jo 15.5). Quando Tiago declara que “a oração de um justo pode muito em seus efeitos” (Tg 5.16), não está afirmando que a oração tem poder, mas está dizendo que ela é eficaz, ou seja, dá certo. Além disso, quando ele diz justo refere-se a todo crente em Cristo, porquanto como diz Romanos 5.1, nós fomos justificados pela fé. Você pode orar! Pode falar direto com Deus! Quando Jesus morreu na cruz, o véu do templo se rasgou, mostrando que mediante Seu sacrifício temos acesso direto ao Pai. Portanto, não dependa dos outros! Estabeleça um relacionamento íntimo com o Senhor! Dependa dEle! Somente dEle. Isso é oração: um meio para exercitar a dependência do Senhor e a fé nEle.

Pr. Cremilson Meirelles

sábado, 12 de julho de 2014

PRECAUÇÕES PARA EVITAR QUE SEJAMOS OBJETO DE ESCÂNDALO

Sermão pregado no dia 06/07/2014, na PIB em Manoel Corrêa
Texto Base: Lucas 17.1-6

No texto que lemos, vemos o Senhor Jesus fazendo uma afirmação que nem sempre levamos em conta: os escândalos são inevitáveis. Mas por que ainda nos espantamos com eles? Por que muitos deixam de frequentar o templo, de desfrutar da comunhão da igreja por causa deles? Ora, se sabemos que eles acontecerão, por que se indignar diante deles?
Embora as palavras do Mestre ressaltem a inevitabilidade dos escândalos, elas também apontam o prejuízo deles. Até porque, no texto grego, o termo que Jesus (skándalon) usa dá a ideia de algo que causa tropeço, que leva uma pessoa a cair no pecado. Nisto está incluído o falso ensino, mas também as atitudes impensadas, as palavras duras, e diversas outras atitudes que levam o outro ao tropeço.
Por isso, Jesus declara que seria melhor que o indivíduo que praticasse tais atos contra o próximo, tivesse morrido. E a morte sugerida por Ele é extremamente desonrosa, haja vista que o indivíduo deixaria de ser sepultado, o que era vergonhoso na época. Portanto, aos olhos de Cristo, ferir ou desencaminhar alguém voluntariamente, levando-o a afastar-se da comunhão, é um crime hediondo. O interessante é que sua afirmação diz respeito a todo ser humano, e não somente às crianças. Porquanto, ao usar o termo “pequeninos”, se refere aos membros da comunidade considerados insignificantes e de somenos importância.
Destarte, ainda que Jesus tenha asseverado que os escândalos são inevitáveis, precisamos evitar que eles venham através de nós. Para tanto, é necessário tomar algumas precauções, as quais são pontuadas pelo Mestre no texto em pauta e pretendo compartilhar com você neste sermão.
    
1 - Cuidar de si mesmo
Este primeiro tópico parte da declaração inicial de Cristo, no versículo 3, a qual, na verdade, é a conclusão do que fora dito nos versículos 1 e 2. Ao traduzir o discurso de Jesus para o grego, o evangelista usou a expressão prosécho (estar preocupado, ser cuidadoso, estar vigilante) heautoîs (pronome reflexivo que diz respeito ao próprio, à você mesmo). Com isso, Ele estava dizendo a seus discípulos que, para evitar os escândalos, deveriam ser cuidadosos com eles mesmos.
Em princípio, isso parece fácil, mas na prática não é tão simples assim. Cuidar de si mesmo fisicamente já é um pouco difícil para alguns, imagine socialmente e espiritualmente! A tendência humana é sempre cuidar mais dos outros que de nós mesmos. Estamos sempre preocupados com a vida dos outros, com o que eles fazem e o que deixam de fazer. Nossas vidas seguem focadas no outro, mesmo que não reconheçamos isto. Criticamos, apontamos erros, elogiamos, amamos, mas sempre o foco é o outro. Isto se aplica até àqueles que se consideram autossuficientes, melhores que todos, pois estes precisam de uma plateia para sua arrogância, de alguém para pisar.
O grande problema é que todos temos telhado de vidro. Isto é, podemos incorrer amanhã nos mesmos erros que condenamos hoje. Por isso, a orientação de Jesus é assaz pertinente. Precisamos cuidar de nós mesmos! Se teu irmão adulterou, cuidado! Se você não fizer a manutenção do seu casamento e do seu relacionamento com Deus, pode ser o próximo! Se alguém se afastou do convívio da igreja por causa de uma palavra dura que ouviu, não critique o irmão que a proferiu. Ao contrário, seja vigilante para que você não provoque o mesmo resultado. Refreie sua língua! Controle seu linguajar, porque ao usar palavrões, certamente você causará escândalos, levando outros a tropeçar.
Todavia, sabemos que o que mais escandaliza não são palavras, mas atitudes, tais como: desonestidade, agressão física, fornicação, adultério, etc. É bem verdade, no entanto, que algumas dessas atitudes são postas em práticas, muitas vezes, por intermédio de palavras. Não obstante, o que quero salientar é a necessidade de estarmos preocupados com nossa conduta, lembrando que tudo o que fazemos afeta, direta ou indiretamente, o próximo. Até mesmo a falta de cuidado com a própria saúde atinge outras pessoas. Porque, se não nos cuidarmos hoje, amanhã as pessoas que amamos sofrerão, tendo que cuidar de nós ou lidando com a dor da perda. Por isso, é de suma importância dar ouvidos a Jesus e cuidar de nós mesmos.
Alguém, entretanto, pode retrucar: “ué, mas a Bíblia não diz que Deus cuida de nós? Por que tenho de cuidar de mim mesmo”? A estes digo: o fato de Deus cuidar de nós não nos exime do cuidado pessoal. Se não fosse assim, por que haveria mandamentos? A resposta é fácil: pelo simples fato de que Deus não fará tudo por nós. O bom andamento das relações interpessoais é responsabilidade nossa! Nem Deus nem o pastor podem nos forçar a tomar certas atitudes. Até mesmo na manutenção de nosso relacionamento com o altíssimo a responsabilidade é nossa. O Senhor não te força a orar ou ler a Escritura, apenas te concita a fazê-lo. É claro que a inobservância dessas práticas, naturalmente, nos enfraquece. Daí a necessidade desse cuidado pessoal.
Não permita que sua vida influencie outras negativamente. Seja um bom exemplo! Ore, leia a Bíblia todos os dias, ame as pessoas como Jesus amou, se preocupe com elas, compartilhe as boas novas. Em suma, viva o evangelho! Esse é o cuidado que Cristo espera que você tenha em relação à sua vida. Só assim o impacto causado será positivo.
           
2 - Perdoar
Definitivamente, esta é uma das atitudes mais difíceis não só no contexto da igreja, mas em todo relacionamento humano. Muitos, na verdade, não querem fazê-lo; acham que é humilhação, rebaixamento. Por conta disso, a maioria prefere a primeira orientação de Jesus em relação ao pecado de um irmão, a saber: “repreende-o” (v. 4). Alguns, inclusive, fazem isso com prazer: chamam a atenção, brigam, esbravejam, e até agridem.
Porém, certamente, não foi isso que Jesus quis dizer com “repreende-o”. Nós é que damos vazão à carnalidade e fazemos acusações e exigências quando alguém erra conosco. O que Cristo recomenda é que exponhamos o problema ao ofensor e expressemos o desejo de restaurar a comunhão.  Até porque, o objetivo dessa atitude é a solução do problema, e não aumentá-lo, provocando um escândalo.
Apesar disso, a maior dificuldade no tocante à prática do que Jesus falou é que o perdão é sempre algo que esperamos do outro: ou exigimos que eles nos peça, ou pedimos que ele nos perdoe. Creio, inclusive, que esse é um dos maiores problemas da igreja. Grande parte dos membros das comunidades de fé deste tempo têm questões mal resolvidas no que tange ao perdão. Há pessoas que passam a vida toda na igreja sem perdoar, abrigando o ódio e mágoa em seus corações. O pior de tudo é que, às vezes, o objeto do ódio já até faleceu, mas o indivíduo ainda não perdoou.
É triste, mas isso causa não só sofrimento à pessoa que mantém o ressentimento no coração, mas produz escândalo. Isto porque, na maioria das vezes, essas pessoas exercem cargos na igreja. Assim, vendo-as, alguns questionam: “como é que pode?!?! O camarada canta, prega, dirige cultos, mas não fala comigo”?!?! Muitos têm tropeçado por causa desses maus testemunhos... O pior de tudo é que tem gente que nem tenta perdoar. Simplesmente tenta justificar sua postura apontando o temperamento ruim do outro. Alguns ainda tentam se justificar usando as palavras de Jesus, dizendo: “ora, como Jesus disse, eu só tenho que perdoar ‘se ele se arrepender’. Tá vendo aí? Não estou errado, ele não se arrependeu”.
No entanto, quero chamar sua atenção para um detalhe no texto que lemos. Jesus nos manda irmos ao encontro do ofensor. Isto é, a iniciativa de buscar a reconciliação deve ser nossa. Ora, se você vai ao encontro de alguém a fim de se reconciliar, pronto a perdoar se ele se arrepender, é porque no seu coração já há a disposição de deixar de lado a ofensa, ou seja, no seu interior você já perdoou, só falta agora a verbalização do perdão. Além disso, quando analisamos o texto paralelo de Mateus 18.15-17, vemos que a coisa se intensifica mais ainda se a pessoa não se arrepender. Porquanto, o Mestre diz que se o ofensor não se arrepender devemos considerá-lo como gentio ou publicano. Diante disso, eu pergunto: como Jesus tratava os gentios e publicanos? Como amor ou com desprezo? É claro que a resposta é: com amor. Jesus se assentava com eles, os acolhia, apresentava-lhes o evangelho. Logo, se a pessoa não se arrepender, é seu dever amá-la ainda mais, tal como Jesus fez com os gentios e publicanos.
Precisamos abrigar em nossos corações o desejo da reconciliação, não da vingança. Como a Bíblia diz, “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” (Rm 12.19). Confie na justiça divina. Isso compete a Ele, não a você. Não permite que a mágoa, a amargura, o ressentimento tomem conta do seu coração. Inevitavelmente, isso atingirá outros. Não é à toa que a Escritura adverte: “tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem” (Hb 12.15).
           
3 - Ter fé
             Ao ouvir as palavras do Mestre, os discípulos, impressionados com seus ensinamentos, clamam: “aumenta-nos a fé” (v. 5). Sem dúvida alguma, a reação deles demonstra seu espanto em relação àquilo que Cristo estava requerendo. Afinal, os padrões estabelecidos por Ele estavam, claramente, acima da capacidade humana. Tratava-se de algo que nunca lhes fora ensinado. Por isso, se espantaram e pensaram: “precisamos de mais fé”.
Contrariando o pensamento dos discípulos, Jesus explica que a questão não é ter uma fé maior ou menor, mas ter alguma fé. Para exemplificar isso, Ele usa o grão de mostarda, uma semente de dimensões ínfimas. De acordo com Cristo, bastaria que eles tivessem fé, mesmo pequena, pois a menor quantidade de fé já é suficiente para realizar feitos extraordinários. Tão extraordinários quanto perdoar alguém 7 vezes no mesmo dia, ou 490 vezes, como vemos Mateus 18.21,22. A imagem da amoreira mostra exatamente isso. Jesus não estava falando, literalmente, da remoção de uma planta; a ideia que Ele quer transmitir é que até mesmo a falta de perdão, a mágoa, o ódio, podem ser removidos por Deus de uma vez por todas. Basta ter fé.
 O que Jesus destaca ao usar a figura da planta atirada ao mar é mais profundo do que parece, visto que traz à lume uma de nossas características mais gritantes: cremos que o mar abriu, que Cristo ressuscitou, que pessoas podem ser curadas de enfermidades físicas ainda hoje, que Deus pode resgatar pessoas dos vícios, mas quando se trata da mágoa que carregamos em nossos corações achamos que Ele dificilmente removerá aquilo que nos impede de perdoar.
A fé da qual Jesus fala no texto não se resume a crer em milagres. Isso não é fé. O termo grego traduzido como fé, dá a ideia de confiança, fidelidade, não de crença em milagres. Porquanto, crer em milagres muitos creem, até os demônios (Tg 2.19). Ter fé é mais do que isso; é confiar no Senhor, é entregar a vida nas mãos dEle, como fizeram os heróis da fé de Hebreus 11, é depender dEle em tudo. Só assim, o que nos impede de perdoar será completamente removido. Creia que Deus é capaz de fazê-lo. Até porque, o propósito dEle é muito maior do que realizar curas de doenças físicas. O que Ele quer é transformar os corações.
Quando mostrarmos essa fé, aquele nos ofendeu se escandalizará positivamente, pois perceberá que algo além da capacidade humana foi realizado. Isto só pode vir de Deus. É disso que o mundo precisa: de graça! Cristo mostrou graça em todo o seu ministério terreno. Agora, após a Sua ascensão aos céus, cabe ao Seu Corpo fazê-lo. É tarefa da igreja mostrar graça neste mundo corrompido pelo pecado. Temos de lembrar que só nos tornamos família de Deus porque fomos alvo de um amor incondicional. É nosso dever levar esse mesmo amor aos outros, a fim de que, por intermédio de nossas vidas, conheçam a Cristo.
Deixe Deus trabalhar em seu coração, levando-o a amar até mesmo àqueles que te fizeram mal. “Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo”? (Mt 5.46). Só assim, nossa fé em Deus evitará o escândalo negativo e influenciará positivamente os que nos rodeiam.

CONCLUSÃO

            Como vimos, conquanto os escândalos sejam inevitáveis, podemos evitar que eles venham através de nós. Por isso, eu te convido a seguir os parâmetros aqui expostos, não porque fui eu quem os expôs, mas porque Cristo nos ensinou assim. Portanto, cuide do seu relacionamento com Deus e com o próximo. Não transfira essa responsabilidade para o pastor ou para Deus, ela é sua. Preocupe-se com seu testemunho pessoal. Não seja instrumento de tropeço, mas de agregação. Peça a Deus que remova aquilo que te impede de perdoar, pois só assim você poderá seguir em frente, sendo bênção no contexto da igreja. O perdão é terapêutico, precisamos dele.

            Tudo isso só será possível, entretanto, se você tiver fé. Ela é o marco zero da vida cristã. Tudo o que fazemos como cristão tem por base a fé. Logo, se você quer ser objeto de um escândalo positivo, tenha fé. Confie no Senhor! Ele é plenamente capaz de mudar teu coração, levando-o, inclusive, a perdoar quem te magoou, te espancou, quem abusou de você. Deus pode fazer isso! Tenha fé! 

sábado, 5 de julho de 2014

RUMO AO $HEXA$

Embora o título acima pareça favorecer a campanha em prol do hexacampeonato da seleção brasileira, definitivamente, a intenção não é essa. Na verdade, o foco deste artigo são os cifrões que ladeiam o “hexa”. Isto porque, ainda que a esmagadora maioria seja aficionada no futebol, penso que o esporte mais popular do Brasil traz em seus bastidores uma história de manipulação de resultados, que beneficiam uma minoria endinheirada e atendem aos interesses políticos e econômicos da nação.
Com base nesse raciocínio, sou levado a crer que a seleção brasileira sagrar-se-á campeã da competição que ora disputa. Não digo isso porque reconheço que possuímos um bom time (nem estou acompanhando os jogos), mas por acreditar que há interesses maiores envolvidos. Uma derrota brasileira, sem dúvida, causaria um forte impacto político e econômico no país. O clima de insatisfação paira no ar já há algum tempo. Os protestos e as greves são a evidência disso. Ora, se a situação já estava tensa antes da copa, imagine se o Brasil perder! A oposição teria um prato cheio em suas mãos. Aí sim o governo estaria em maus lençóis. Por isso, acho que a coisa já está arranjada para a conquista do hexa. É claro que isso é só uma teoria. Além disso, mesmo o que foi previamente combinado pode falhar. Contudo, tenho de admitir: essa tese faz muito sentido! Basta olhar o histórico da corrupção no  futebol mundial!
O grande problema é que o fanatis... ops, o amor ao time, faz com que muitos não vejam o que está diante de seus olhos. Estes são ludibriados tal como ocorre com os expectadores de um show de mágica: o “mágico” os engana diante de seus olhos, manipulando sua percepção. Assim, inocentemente, continuam depositando sua fé em um sistema tão falho quanto todos os outros.
Todavia, ao contrário do que se pensa, corrupção não é coisa só de político ou de policial, ela faz parte do gênero humano desde há muito tempo. Porquanto, com a entrada do pecado no mundo todos nos tornamos corruptos e depravados. Logo, não deveria causar espanto, o fato de que existem falcatruas em toda atividade em que o homem está envolvido. Até mesmo no futebol!
Ah... mas como é difícil admitir isso! As pessoas brigam, discutem, esbravejam, mas não reconhecem as falhas do sistema. Elas querem acreditar porque isso alimenta algo que perderam quando lhes contaram que Papai Noel não existia. Isso me lembra o diálogo entre o Neo e o Morpheu no filme Matrix, onde, em dado momento Morpheu diz: “você tem que entender, que a maioria destas pessoas não estão prontas para serem desplugadas. E a maioria delas estão tão inerentes, tão irrevogavelmente dependentes deste sistema, que lutarão para defende-lo”. Infelizmente, tal como disse o “profeta” do cinema, a maioria prefere não enxergar; e ainda lutam pelo direito de continuar cegos.
Ao ouvir essa argumentação, os apaixonados pelo futebol tentam contra argumentar apontando situações que supostamente desmentem a teoria da “armação” dos jogos. Em relação à Copa do Mundo, por exemplo, alguns têm respondido que se, de fato, há alguma falcatrua para favorecer o Brasil alguém se esqueceu de avisar isso à seleção do Chile, pois no finalzinho do jogo eles acertaram uma bola no travessão. Se a bola entrasse, defendem eles, o Brasil estaria eliminado.
Conquanto reconheça o esforço e a sinceridade com que os advogados do futebol lutam para conservar a estrutura simbólica que lhes proporciona uma boa dose de dopamina[1], não vejo esses episódios, tal como o “quase” gol do Chile, como indícios da honestidade do sistema. Ao invés disso, vejo essas ocorrências como evidência da boa índole de um ou dois indivíduos, mas não do sistema. Até porque, em todo sistema comprado, há sempre pessoas honestas, que não se vendem. Isto acontece na política, na polícia e nas atividades comerciais. Sempre há alguém honesto. Estes, às vezes, complicam os corruptos. Acredito que esse foi o caso do Chile. Além do mais, como ressaltamos acima, se os "mágicos" profissionais conseguem nos enganar diante de nossos olhos, penso que simular um sufoco não deve ser tão difícil assim. Basta pensarmos um pouquinho.
Ora, todos admitem que existe corrupção na polícia, no congresso nacional, em algumas igrejas e diversos estabelecimentos comerciais. Até o cidadão comum se corrompe, fazendo “gato” de luz, água, TV por assinatura, dando propina a policiais, sonegando impostos, furando filas, etc. Pensa bem: se nos mais diversos setores da sociedade há corrupção, por qual razão no futebol, onde circulam montanhas de dinheiro, não haveria? Não creio que uma competição dessa monta seja isenta de fraudes. Há muita coisa em jogo (muito mais que uma bola). Há interesses políticos, econômicos e sociais. Para vencer uma copa ou jogo, muitos pagam. A copa de 98 levou muitos a refletir sobre isso. As apostas são milionárias! Se o Brasil ganhar, muita gente ganha. Por isso, acredito que a copa já está comprada.
Quem comprou não sei, mas não consigo olhar para o futebol, de um modo geral, e manter a inocência de alguns. É só pesquisar um pouco que encontramos os indícios de que a coisa não é tão “séria” quanto se pensa. Na edição 1924 da revista Veja, por exemplo, em novembro de 2005, foi exposta a “máfia do apito”, na qual o então árbitro da FIFA, Edilson Pereira de Carvalho, recebia cerca de R$ 15.000,00 por jogo “vendido”. Segundo a revista, a máfia envolvia

um grupo de empresários, donos de bingos em São Paulo e Piracicaba (no interior paulista) e o árbitro Edilson Pereira de Carvalho, um dos dez juízes brasileiros pertencentes aos quadros da Federação Internacional de Futebol (Fifa), que reúne a elite da arbitragem mundial. Com os resultados acertados com o juiz, a quadrilha lucrava em apostas milionárias em sites de jogatina na internet (RIZEK, 2005, p. 72).


No mesmo artigo, outras fraudes futebolísticas foram apresentadas. O que chama atenção, porém, é que elas não se limitam ao Brasil. Porquanto, também em 2005, o árbitro alemão Robert Hoyzer foi acusado de manipular resultados de jogos da segunda e terceira divisão e da Copa da Alemanha. E não para por aí. A coisa não envolve só juízes, mas atletas também. Recentemente, por exemplo, o clube espanhol Hércules foi acusado de comprar resultados para ascender à primeira divisão. Para tanto, um dos acionistas do time teria oferecido dinheiro ao goleiro da equipe adversária para que este entregasse o jogo[2]! Sinto muito, mas não dá para depositar fé nesse sistema.
            Outro ponto assaz importante para esta discussão é o livro, lançado este ano, escrito pelos repórteres Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha e Tony Chastiner, cujo título (Jogo Sujo) expressa claramente seu conteúdo e corrobora muitas das palavras ditas até aqui. De acordo com o site R7, “a obra mostra a trama de propinas, negociatas, traições e escândalos que envolvem Ricardo Teixeira e João Havelange no comando da CBF e da Fifa, respectivamente”[3].
Isso não é novidade nenhuma, pois, já em 1982, na edição 648 da revista Placar uma das maiores fraudes do futebol brasileiro foi posta às claras, a saber, a máfia da loteria esportiva. Esta, de acordo com a reportagem,

consistia em um esquema que “fabricava” resultados dos jogos de futebol visando beneficiar apostadores da loteria esportiva. A Loteca tinha 13 jogos por rodada e o apostador marcava em uma ou duas opções: sobre o time vencedor ou empate. Uma agência de notícias enviava à Caixa Econômica uma sugestão de partidas para serem inscritas nos bilhetes da Loteca. Cabia à CEF apenas pagar os vencedores. A reportagem deixa clara a lisura do órgão. O radialista e testemunha-chave, também: “A loteria esportiva é séria até a bola rolar”. Esse jornalista trabalhou durante sete anos no esquema. Apostadores de todo o Brasil o procuravam para sugerir as partidas que já haviam “fabricado” o resultado. Para essa produção, os apostadores – que eram desde empresários a cartolas, bicheiros e principalmente donos de lotéricas – subornavam árbitros, jogadores, técnicos e dirigentes (MAGAGNIN, 2009).


Há ainda outro livro, publicado em 1998, sob o título “como eles roubaram o jogo”, onde um jornalista inglês coloca em dúvida a honestidade das instituições que comandam o futebol em todo o mundo, sobretudo a FIFA. De acordo com o autor, um dos grandes maestros da corrupção no âmbito do futebol foi o brasileiro João Havelange, que presidiu o futebol mundial por 24 anos.
Isto, no entanto, é só a ponta do iceberg. Como esses, há muitos outros casos, só não foram descobertos. Por isso, há muito tempo deixei o romantismo de lado. Não torço mais. Não perco mais meu tempo vibrando por cidadãos que, cheios dos milhões, pouco se importam conosco. Para essa indústria somos somente “pagantes”. É assim que eles nos chamam. E tem gente que ainda briga por eles.
A coisa é tão gritante, que Ralf Mutschke, diretor de segurança da FIFA declarou publicamente que estava declarando guerra à manipulação de resultados das partidas de futebol em todo o mundo. Mutschke sublinhou que está, inclusive, sendo ajudado pela Interpol para a detecção das fraudes. Isso prova que o negócio existe mesmo. Até a instituição que coordena as competições mundiais reconhece isso! Por que muitos não enxergam?
A paixão pelo time é tão forte que alguns chegam a dizer que tem corrupção nos jogos de todos os outros clubes, mas quando o dele joga, é só honestidade. Uns poucos até admitem a manipulação, mas creem que só ocorre nas finais. Quanta inocência! As apostas são feitas ao longo de todo o campeonato! Logo, os corruptos vão tentar manipular tudo que for possível.
Ademais, não só os resultados são objeto de manipulação. O povo também é. Digo isso, em tese, mas é o que penso. Acredito que o futebol é mais um instrumento de manipulação das massas. O objetivo é manter o povo sem cultura, desejando mais ser jogador de futebol do que médico ou professor. É assim que a elite faz a manutenção de sua condição e nós fazemos a manutenção da nossa. Acerca disso, Schlatter (2009) salienta que “O futebol é um elemento marcante na trajetória política brasileira, tendo sido em diversos momentos usado como ferramenta por estadistas, que aproveitaram seu apelo popular como meio de manipulação e condução das massas”. Isto, sem dúvida, ocorreu não apenas no Brasil. Há registros históricos da utilização de conquistas esportivas para manipulação do povo em todo o mundo. Em 1934, por exemplo, o ditador italiano Benito Mussolini, aproveitou a conquista da Copa do Mundo pela Itália para divulgar o fascismo.
Estão nos dando “pão e circo” como faziam os imperadores romanos, e nós estamos gostando disso. Nossos filhos estão imitando o andar malandro e o corte de cabelo dos jogadores, achando que basta jogar futebol para vencer na vida. É uma propaganda anti-educação, uma estratégia que promove a imbecilização do povo, que visa manter-nos exatamente onde estamos. Quanto mais peões melhor. Que tristeza!
Em virtude disso, prefiro assumir uma posição de indiferença frente às competições profissionais. Não torço por nenhum time. Tenho mais o que fazer do que gastar meu tempo sofrendo, com os nervos à flor da pele, por causa de pessoas que nem sabem que eu existo. Considero que vivo melhor assim. Não discuto com ninguém por causa de futebol, não dou meu dinheiro suado para essa indústria milionária, e passo muito mais tempo com minha família. Não estou dizendo para você fazer o mesmo, só te convido à reflexão. Deus o abençoe!

Pr. Cremilson Meirelles 




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MAGAGNIN, Anna Catarina Lucca da Cunha. Reportagens Investigativas no Jornalismo Esportivo. Porto Alegre, 2009. Monografia (Graduação em Comunicação Social) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

RIZEK, André; OYAMA, Thaís. Jogo Sujo. Revista Veja. Rio de Janeiro: Abril, n. 1924, p. 72-80, 2005.

SCHLATTER, Bruno Belloc Nunes. Futebol e populismo: o esporte das multidões e a política das massas. Revista Historiador. Número 02. Ano 02. Dezembro de 2009. Disponível em: http://www.historialivre.com/revistahistoriador

YALLOP, David A. Como eles roubaram o jogo. Rio de Janeiro: Record, 1998.





[1] A dopamina é comumente associado com o sistema de prazer do cérebro, proporcionando sensações de prazer e de reforço para motivar uma pessoa proativa para realizar determinadas atividades.
[2] Disponível em http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,hercules-da-espanha-e-acusado-de-suborno-para-garantir-acesso,589778
[3] Disponível em http://esportes.r7.com/futebol/livro-que-denuncia-corrupcao-no-futebol-mundial-ganha-destaque-na-midia-17052014