quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O CARVALHO NA BÍBLIA

             Um dos grandes problemas relativos à interpretação do texto bíblico, sem sombra de dúvida, é o anacronismo que caracteriza o entendimento de muitos, mormente os leigos, quando expõem as narrativas da Sagrada Escritura. Porquanto, com muita frequência, ouvimos, em nossas comunidades de fé, comentários, mensagens, e, até mesmo, “estudos” que não levam em conta o contexto histórico-cultural dos relatos bíblicos. Isto gera, inevitavelmente, como bem disse o teólogo John Stott (1994), um “Cristianismo de mente vazia”. Há zelo, mas não há entendimento (Rm 10.2). Isto porque, esses “intérpretes” insistem na ideia de que os personagens que viveram em períodos e lugares totalmente distintos tinham o mesmo conhecimento a respeito de Deus. Há quem creia que Abraão e Paulo, por exemplo, estavam no mesmo patamar em relação ao conhecimento teológico, o que é claramente um absurdo.
            Essa perspectiva não leva em conta o caráter progressivo da revelação divina. Deus revelou-se gradativamente, ou seja, passo a passo. Por conseguinte, Paulo, por estar em um ponto mais avançado dessa revelação, naturalmente, tinha um conhecimento mais detalhado a respeito do ser divino. O entendimento de Abraão, por outro lado, era extremamente parco. Ele fora criado numa tradição pagã, a qual adorava vários deuses e vinculava objetos a essas divindades. Isto é claramente evidenciado em Josué 24.2, onde o personagem que dá nome ao livro, ao discursar diante do povo, declara: “assim diz o Senhor Deus de Israel: Além do rio habitaram antigamente vossos pais, Terá, pai de Abraão e pai de Naor; e serviram a outros deuses[1]”. Resumindo, Abraão, assim como seus familiares, era pagão; e, embora Deus o tivesse chamado para uma nova vivência religiosa, muitos elementos de sua antiga fé permaneceram entranhados em sua cosmovisão. Afinal de contas, por setenta e cinco anos (Gn 12.4) o patriarca vivera naquela doutrina. Ele não conhecia nada a respeito de Yahweh; tudo o que fazia era baseado no conhecimento que o paganismo lhe dera. Tanto que, quando Deus o chama, a primeira coisa que ele faz é procurar um carvalho (Gn 12.6,7). Isso evidencia uma crença comum em todo o antigo Oriente Próximo, a saber: a atribuição de sacralidade a algumas árvores.
Essas “árvores sagradas”, como sublinha Vaux (2004), eram parte integrante da vida religiosa em todo o Crescente Fértil, região na qual Abraão viveu durante muito tempo. Contudo, ainda que essa sacralização de árvores fosse comum na época do patriarca, vale salientar que elas não eram cultuadas ou divinizadas, mas funcionavam apenas como acessórios do culto de divindades celestes (idem). Portanto, eram revestidas de um simbolismo que as associava à fertilidade concedida pelo deus do céu, o qual, segundo a crença primitiva, derramava o seu sêmen (a chuva) para fecundar a terra (também vista como uma deusa). Nesse contexto, a árvore usada com maior frequência para fins religiosos, conforme explica Eliade (2008), era o carvalho. Isto porque, frequentemente era atingida por raios, os quais estavam diretamente ligados aos deuses celestes. A esse respeito, inclusive, o historiador romeno salienta que o raio era, aos olhos do pagão primitivo, “a arma do deus do Céu em todas as mitologias e um local por ele atingido com um raio torna-se sagrado, os homens por ele fulminados ficam consagrados” (op. cit., p. 52). Por isso, nas regiões onde esses deuses eram adorados, o carvalho estava investido do poder e prestígios associados ao ser supremo.
Esse era o raciocínio de Abraão. Para ele, o carvalho marcava o local de culto; funcionando como uma espécie de “antena” que permitia a conexão com o divino. Assim, quando Deus fala com o patriarca, imediatamente, ele procura o “lugar” (māqôm[2]) de Siquém, o carvalho de Moré (Gn 12.6). Isto porque, na mentalidade arcaica de Abraão, se Deus disse que iria lhe mostrar a terra prometida, ele deveria dirigir-se a um carvalho para que a voz do Senhor fosse devidamente ouvida. O mais interessante, é que, após chegar ao local do carvalho, Deus aparece a ele e lhe transmite uma mensagem. Isto é, o Senhor respeita a cultura de Abraão, e vai ao seu encontro de acordo com sua crença. Em seguida, o texto sublinha que ali, ao pé do carvalho, onde Deus lhe falara, o patriarca edificou um altar (Gn 12.7), reforçando a ideia de que o local estava revestido de sacralidade, e que era, portanto, um ponto de conexão com o altíssimo. O mais impressionante, no entanto, é que, além de buscar o carvalho de Moré, com o fito de ouvir a voz do Senhor, Abraão decidiu residir no meio dos carvalhos de Manre[3] (também conhecido como Mambré) e, segundo o relato bíblico, “edificou ali um altar ao Senhor” (Gn 13.18). Isto é, o patriarca manteve a crença pagã que associava Deus ao carvalho, mesmo depois de encontrar-se com o altíssimo. Josefo (2005), inclusive, ressalta que, no período em que morou junto aos carvalhos, Abraão orava incessantemente, mostrando que o patriarca ainda vinculava a árvore ao Deus que lhe falara. Mesmo assim, naquele lugar ao qual o homem, ingenuamente, atribuía sacralidade, Deus foi ao encontro de Abraão (Gn 18.1).
Entretanto, o que chama a atenção é que muitos cristãos do século XXI, ainda agem como homens que, tendo os primeiros contatos com o Deus verdadeiro, atribuem sacralidade a lugares, tal como o monte das oliveiras, o rio Jordão, o monte Sinai, o templo X ou Y; e, por outro lado, revestem de malignidade os lugares onde os que professam credos diferentes se reúnem. Ora, Deus não fez nem uma nem outra coisa, porém, entendendo que Abraão era um homem de seu tempo, o Senhor apresentou-se gradativamente, trabalhando em seu coração a fé verdadeira que se tornaria referencial para as gerações futuras. Ele sabia que o patriarca não tinha o mesmo conhecimento teológico de Paulo. Assim, relevou os aspectos rudimentares de sua devoção e conduziu-o a um relacionamento íntimo consigo. Como podemos nós, então, priorizarmos discussões sem fim com pessoas que não creem “da maneira correta”? Deveríamos, na verdade, agirmos como o Senhor agiu: gradativamente e com amor apresentarmos as boas novas. Em contrapartida, é importante frisar que aquele que já abraçou a fé, que tem em mãos a revelação completa (a Bíblia), não pode agir como Abraão. Pois, associar Deus a um lugar, objeto ou pessoa é coisa de quem não conhece toda a revelação. Foi justamente por isso que Deus, mais à frente, vendo que o pensamento pagão demonstrado pelo pai da fé permanecera no meio de Israel, enviou profetas para condenar tais práticas (Is 1.29; 57.5; Os 4.13). Afinal, a lei já havia sido dada. Não era aceitável que os israelitas continuassem sacrificando debaixo do carvalho.
É impressionante como o sincretismo é atraente. Até mesmo, homens consagrados como Josué utilizaram o carvalho como referencial religioso. Em Josué 24.26, por exemplo, o sucessor de Moisés, coloca uma grande pedra debaixo do carvalho que estava junto a um antigo santuário dedicado a Deus em Siquém, mesmo lugar onde Abraão edificou um altar ao pé do carvalho. Coincidência? Creio que não. Possivelmente, com o passar do tempo, o carvalho de Moré passou a ser venerado por causa de sua ligação com o patriarca. Então, quando Josué, pretende sacralizar uma pedra para que esta sirva de memorial do concerto feito com o povo, o primeiro referencial religioso que vem à sua mente é o carvalho. Isto revela a força da influência cultural do paganismo oriental sobre a fé israelita. Essa influência pode ser percebida até mesmo em literaturas extra-bíblicas. Flávio Josefo, por exemplo, também supervaloriza a árvore e também a associa ao patriarca. Porquanto, de acordo com o historiador judeu, “o Carvalho de Abraão existia desde a criação do mundo e se chamava Ogigues; na mitologia grega, Ogigues foi o fundador de Eleusis e estava, assim, relacionado com os mistérios” (Apud Vaux p. 330).
Mesmo assim, o amor de Deus nos surpreende. Ele poderia ter dado um basta nas reminiscências do paganismo, desde o início. Porém, Ele permitiu que aquelas permanecessem mesmo após a morte de Abraão. Isaque, por exemplo, enterrou seu pai (Gn 25.9) e Débora, ama de Rebeca (Gn 35.8), em uma cova em frente aos carvalhos de Manre. Da mesma forma, Jacó, ao lado de Esaú, enterrou Isaque no mesmo local (Gn 35.27-29) e solicitou a seus filhos que também o sepultassem ali (Gn 49.28-30). É bem provável que essa recorrência funerária tivesse como pano de fundo a crença pagã de que a árvore era o receptáculo das almas dos antepassados, visto que, em muitas culturas, ela representa a vida. Talvez, por isso, Manre tenha se tornado, mais à frente, um local de peregrinação. Sobre isso, de Vaux assevera que “nos primeiros séculos de nossa era, Manre era um centro de peregrinação onde se venerava a árvore de Abraão, onde cada ano acontecia uma procissão” (2004, p. 330). Todavia, mesmo diante do sincretismo que caracterizava os patriarcas, Deus, sem tocar diretamente no assunto, aproximou-se daqueles homens a fim de revelar-se; abençoou-os, supriu suas necessidades, mostrando um amor incondicional, que se estende a toda a humanidade. Ao contemplar essa manifestação amorosa de Deus, lembro-me imediatamente de Romanos 5.8, que diz: “mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”. Mesmo que os patriarcas vivessem uma fé sincrética, Deus os amou, visitou, abençoou e cuidou deles, usando-os, inclusive, como instrumentos para transmissão da Sua revelação à humanidade. Aleluia!
Como imitadores de Deus (Ef 5.1), é importante que observemos o exemplo do Senhor e mostremos a mesma graça a esse mundo permeado de ódio, violência, vingança e desamor. Precisamos compreender que nosso propósito não é mostrar conhecimento ganhando debates; nossa meta é apresentar o Evangelho, vivido e pregado. Destarte, deixemos de lado toda a soberba e animosidade em relação ao outro, e sigamos amando e alcançando o mundo com a graça do Senhor Jesus.

Pr. Cremilson Meirelles






REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. Tradução de Fernando Tomaz e Natália Nunes. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. 9 ed. Rio de Janeiro: CPAD. 2005.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.

STOTT, John R. W. Crer é também Pensar. A importância da mente cristã. Trad. Milton Azevedo Andrade. Sexta impressão. ABU Editora. São Paulo, SP. 1994.




[1] Grifo nosso.
[2] Termo hebraico que denota o espaço físico onde algo está ou deve estar, isto é, o local desse algo.
[3] No texto hebraico aparece o termo mamrē, na Septuaginta usa-se o grego mambré. Mesmo assim, o local permanece o mesmo

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

EU, UM ESCRAVO?

Desde que nascemos, fomos submetidos a algum tipo de controle. Nossos pais, embora, aparentemente, fizessem nossas vontades, na verdade, ditavam cada passo de nossas vidas; afinal, eram eles que nos carregavam para onde queriam, nos vestiam com roupas que eles escolhiam, nos deram nomes que não são de nosso agrado, etc. À medida que crescemos, o controle aumentou, pois começamos a entender as ordens que nos eram dadas, e, por termos nascido num ambiente de dominação, começamos a ceder mais facilmente. Contudo, ao chegarmos à adolescência, passamos a clamar por independência, a questionar essa estrutura familiar. Foi aí que achamos que tínhamos algum controle sobre nossas vidas. Muitos, inclusive, passaram a ter, praticamente, a necessidade de, com frequência, reafirmar esse entendimento, dizendo: “ninguém manda em mim”!
Todavia, não conseguimos enxergar o óbvio: nunca fomos completamente livres, nascemos como escravos. Não fui eu quem inventou isso, foi Jesus quem disse: “todo aquele que comete pecado é escravo do pecado” (João 8.34). Na epístola de Paulo aos Romanos, a Bíblia afirma algo que confirma essa verdade e coloca todos nós no mesmo patamar. “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). Ora, se todos pecaram e quem comete pecado é escravo do pecado, todo ser humano está na condição de escravo; e assim como acontecia na infância, ansiamos pela liberdade. Isto porque, tal como qualquer outro escravo, o que mais queremos é a alforria. Isto é, a libertação.
 O grande problema, é que, alguns, passaram tanto tempo como escravos que se acostumaram com isso. Passaram a gostar da escravidão. Sabe por quê? Porque nunca conheceram a verdade, não sabem que ser livre é muito melhor do que ser escravo. Foi exatamente isso que Jesus disse em João 8.32: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Seus ouvintes não compreenderam, porque não se consideravam escravos; achavam que eram livres na escravidão que viviam. Por isso, “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres” (João 8.33)? Às vezes, estamos do mesmo jeito: aprisionados pelo pecado, achando que somos livres. Achamos que liberdade é fazer o que der na telha. Isso é inconsequência! Outros pensam que liberdade é repetir todo tipo de comportamento apresentado pela mídia como "legal". Isso não é ser livre, é ser marionete da sociedade. Tem gente que fala o que todo mundo fala, veste o que todo mundo veste, pensa o que todo mundo pensa, e acha que é livre. Amado, liberdade é poder dizer não ao mundo e sim pra Deus, mas isto só é possível por meio de Cristo. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36). Quer ser livre de verdade? Entregue-se completamente a Cristo!                                                    
 Pr. Cremilson Meirelles


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

ONDE ESTÁ A FÉ?

Certamente, “fé” é um dos termos mais em voga no evangelicalismo contemporâneo. Usa-se essa palavra afixada na lataria de automóveis, em estampas de camisetas, entre outras coisas. Mesmo assim, me pergunto, às vezes, “quando, porém, vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” Porquanto, embora se fale muito sobre a fé, parece que, em muitos casos, ela não está focada em Jesus Cristo e em Sua Palavra. Há fé em homens sagrados, em objetos consagrados, em rituais, e até fé na fé dos outros. Mas onde está a fé em Cristo? As pessoas creem mais no poder da oração do que no poder de Cristo. Parece que o poder foi “retirado” das mãos de Deus e transferido a homens, objetos, palavras mágicas e rituais.
Infelizmente, ao longo do tempo, foi desenvolvida uma espiritualidade que despreza a verdade central do evangelho: o amor. A igreja acabou se corrompendo e, mais uma vez, cometeu os mesmos erros. Voltamos a supervalorizar as obras em detrimento do amor, o exterior ao invés do interior. Pensando assim, muitos acharam que bastaria orar umas quatro horas por dia, ler a Bíblia toda anualmente e distribuir folhetos aos domingos, para que se tornassem super santos, cheios de poder. Desculpe, mas quero te dizer algo impactante: tudo isso é insuficiente! Pois, como diz o apóstolo Paulo: “ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria” (1Co 13.1-3).
Sem amor não dá para nos considerarmos adoradores. E quando falo de amor, refiro-me a um sentimento sincero em relação à Deus e ao próximo. De modo que tudo o que eu fizer seja alavancado por esse amor. Até porque, orar, jejuar e dar esmolas, eram atitudes praticadas pelos fariseus, os quais recebiam duras críticas de Jesus. Isto porque, seus atos eram motivados pelo orgulho, sendo, portanto, hipócritas na sua essência. Assim, de nada adianta orar, jejuar, dar esmolas, cantar na igreja, tocar instrumentos, e, até mesmo, evangelizar, se estas atitudes não forem motivadas pelo amor a Deus e ao próximo. Quem ama, de fato, jamais verá nessas práticas um meio de ganhar pontos com Deus. Pelo contrário, sempre entenderá que os únicos pontos que tem foram conquistados por Jesus na cruz do Calvário, e por isso o amará cada vez mais. Da mesma forma, esse amor será inevitavelmente direcionado ao próximo, pois não há como amar a Deus e não amar o homem, Sua imagem e semelhança. Não fazê-lo, seria, no mínimo, contraditório. Essa é a fé que Cristo procura! Uma fé focada nEle e em Sua Palavra, que tenha como resultado natural, o amor.
Pr. Cremilson Meirelles


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

EU NÃO SOU ABRAÃO E MINHA ESPOSA NÃO É SARA


 
            Nos dias de hoje, mesmo diante do avanço tecnológico, do maior acesso à educação e à informação, muitas pessoas ainda sustentam preconceitos quando o assunto é adoção de filhos. Isso não se restringe a um grupo específico, é característica de muitos, independente de raça, naturalidade e credo. Há pessoas, inclusive, que, ao constatar a infertilidade, optam por viver sem filhos, pois abominam a ideia de “criar filhos de outros”. Justificam essa postura com uma série de lendas e mitos acerca das conseqüências da adoção. Alguns, defendendo um raciocínio primitivo, dizem que têm medo de adotar porque a criança pode herdar a má índole dos pais (se por acaso, estes tiverem sido marginais), ou porque temem que, quando crescer, o adotado possa voltar-se contra eles, chegando até a matá-los. Estes esquecem, entretanto, que o filho biológico pode fazer o mesmo.
            O mais triste é que essa postura está presente também no meio evangélico. Nós, que deveríamos viver a graça que pregamos, abraçamos os mesmos preconceitos daqueles que não professam a fé em Cristo. Isto mostra que essa visão limitada independe de cor, credo e posição social. Por isso, muitas pessoas deixam de ser felizes e, consequentemente, fazer uma criança feliz, por conta dessas barreiras. Parece que, para estes, adotar é o mesmo que reconhecer o fracasso; é como se a criança não fosse seu filho de verdade.
            Esse raciocínio preconceituoso é alavancado por pregadores que insistem em transformar em regra o que aconteceu com determinados personagens da Sagrada Escritura. Entre estes os de maior destaque são Abraão e Sara, cuja esterilidade foi revertida pelo Senhor. No entanto, naquela ocasião havia um propósito específico para isso. Deus, através de meios miraculosos, estava separando para si um povo, por intermédio do qual o Messias viria ao mundo. Isso não significa, entretanto, que os mesmos milagres que foram realizados ao longo desse processo revelatório devam, necessariamente, ocorrer na vida dos cristãos. Pensar assim é contrariar a Escritura. Porquanto, quando o olhamos todo o contexto bíblico, vemos que nem todas as estéreis foram curadas. Na verdade, as Escrituras só narram a reversão da esterilidade das matriarcas de Israel. Mas, será que só elas eram estéreis? Acredito que não. Foi justamente por causa da presença da esterilidade no meio do povo que Deus inseriu como uma das cláusulas contratuais de seu pacto com Israel, a garantia de fertilidade. É óbvio, no entanto, que tal bênção dizia respeito ao contrato firmado com a nação de Israel, não com a Igreja de Cristo.
Conquanto o Reino de Deus seja constituído dos crentes do Antigo e do Novo Testamento, há aspectos da aliança veterotestamentária que dizem respeito, exclusivamente, a Israel. O sistema sacrificial e as leis civis, por exemplo, são específicos para os israelitas daquele tempo. Há uma distinção entre aquele momento histórico e o contexto do Novo Testamento. Acerca disso, Berkhof (1990, p. 569) assevera:

A igreja do Novo Testamento e a da antiga dispensação são essencialmente uma só. No que se refere à sua natureza essencial, ambas consistem de crentes verdadeiros, e tão somente de crentes verdadeiros. E, em sua organização externa, ambas representam uma mistura de bons e maus. Contudo, diversas mudanças importantes resultaram da obra realizada por Jesus Cristo. A igreja foi separada da vida nacional de Israel e obteve uma organização independente. Em conexão com isto, os limites nacionais da igreja foram eliminados. O que até essa época tinha sido uma igreja nacional, agora assumiu caráter universal.


               Os termos do contrato firmado com Israel eram os estatutos da Lei. Por isso, “na aliança do Sinai, Israel faz o juramento, e a obrigação é obediência às estipulações da aliança” (LASOR, 1999, p.79). Por outro lado, no Novo Testamento, há uma aliança particular do indivíduo com Cristo, que o insere na Igreja. A diferença, entretanto, está nos termos do contrato neotestamentário, pois este só possui um termo: o amor. Deus deixa de tratar com a nação para tratar com o indivíduo. Acabaram os limites nacionais. Por isso, há uma série de ordenanças e cláusulas contratuais veterotestamentárias que não se aplicam a nós. Veja, por exemplo, que a promessa de que não haveria estéril em Israel é proferida no mesmo contexto em que se fala das nações que Deus os ajudaria a destruir. É óbvio que isso diz respeito a Israel!

Mas se diligentemente ouvires a sua voz, e fizeres tudo o que eu disser, então serei inimigo dos teus inimigos, e adversário dos teus adversários.
Porque o meu anjo irá adiante de ti, e te levará aos amorreus, e aos heteus, e aos perizeus, e aos cananeus, heveus e jebuseus; e eu os destruirei.
Não te inclinarás diante dos seus deuses, nem os servirás, nem farás conforme às suas obras; antes os destruirás totalmente, e quebrarás de todo as suas estátuas.
E servireis ao Senhor vosso Deus, e ele abençoará o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de vós as enfermidades. Não haverá mulher que aborte, nem estéril na tua terra; o número dos teus dias cumprirei (Êxodo 23.20-26).


            Quando nos despimos das idéias prontas e requentadas utilizadas por proclamadores de clichês, conseguimos enxergar o que deveria ser evidente: a esterilidade é propósito divino. Basta olhar atentamente para as narrativas que tratam do tema. Nelas, as estéreis são instrumentos para o enaltecimento das origens de Israel, visto que seus patriarcas, profetas e heróis são gerados por ex-estéreis. A esterilidade, na verdade, é o que dá ocasião para a ação de Deus. Talvez, por isso, ela não seja contada entre as maldições que alcançariam Israel caso abandonassem o Senhor. Ainda que as punições enumeradas para essa transgressão sejam terríveis, as mulheres de Israel continuariam a dar à luz (Dt 28.53). Há situações, entretanto, que a esterilidade, embora não seja solucionada, é instrumento do Senhor. Um exemplo disso é o caso de Termutis, filha de Ramsés II, que, por não poder ter filhos, decidiu adotar Moisés (Ex 2.1-10). Se não fosse a esterilidade dela, como o libertador de Israel poderia sobreviver? Deus a fez estéril para que ela pudesse ser bênção na vida de Moisés, proporcionando-lhe melhores condições de vida, dando-lhe o status necessário para que pudesse entrar e sair livremente do Egito, além da instrução de excelência oferecida aos príncipes egípcios.
            Se você enfrenta a esterilidade, não se ache o pior do mundo ou reclame com Deus. Esta pode ser a oportunidade de proporcionar a uma criança o mesmo que Termutis proporcionou a Moisés. Você tem a chance de interromper o processo de marginalização de uma criança, e transformá-la em um cidadão de bem. A adoção te concede esse privilégio. Não vivemos mais no Antigo Testamento! Não somos Abraão e Sara! Deus tinha um propósito específico para a vida deles. Você já parou para pensar qual o propósito que Ele tem para sua vida? De repente, Ele quer te usar como instrumento para salvar uma vida que se encontra à deriva nos rios do descaso, presa ao cesto das limitações sociais, esperando que você a salve para que ela possa fazer a diferença na sociedade.
            Na cultura egípcia, se Moisés não tivesse sido adotado seu destino seria o mesmo que o de seu povo, a escravidão. Da mesma forma, na atualidade, muitas crianças têm trilhado as sendas da escravidão; são desprezadas, humilhadas, marginalizadas, usadas. Para estas, a única chance de mudança é a adoção. Mesmo diante desse quadro, casais inférteis permanecem impassíveis, esperando que, tal como ocorreu com Abraão e Sara, aconteça com eles.
            A adoção é um ato de graça, semelhante ao que Deus fez conosco. Afinal, somos filhos dEle por adoção (Gl 4.4,5). O próprio Jesus, inclusive, foi adotado por José, marido de Maria. Este, inclusive, é o maior exemplo humano de amor relacionado à adoção. Não havia nada que José pudesse dar a Jesus que Ele não tivesse. Ora, todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). Mesmo assim, o carpinteiro de Nazaré, deu a Jesus o que tinha de melhor: sua profissão. Isto pode ser verificado em Marcos 6.3, onde Jesus, após a morte de José, é reconhecido como carpinteiro, e não como “filho do carpinteiro”. Isto porque, sem dúvida, ele exercia bem sua profissão. Que maravilha! José gastou tempo com Jesus, ensinando-lhe os detalhes da carpintaria. Cabe salientar, entretanto, que o carpinteiro, naquela época, não era tão especializado quanto hoje. Seu trabalho abrangia carpintaria, marcenaria, arquitetura e engenharia. Isto é, seu aprendizado exigia esforço físico e intelectual. Certamente, isso tomou grande parte do tempo de José, ou seja, ele passou bastante tempo com seu filho. Além disso, a transmissão da profissão constitui uma forte evidência de que José o tratou como seu filho genuíno, pois como afirma de Vaux (2004, p. 73) “os ofícios eram em geral hereditários e as técnicas se transmitiam na oficina familiar”. Os rabinos costumavam dizer: “quem não ensina a seu filho um oficio útil, o cria para ser ladrão”. José queria ver o bem de Jesus. Afinal, era o seu filho.
            Há quem diga, porém, que existe o perigo do filho adotado voltar-se contra os adotantes, visto que traz em seus genes a maldição que acompanhava os pais biológicos. Que absurdo! A Bíblia não dá respaldo nenhum para crermos em “maldições hereditárias”. Pelo contrário, em Ez 18, o profeta combate esse pensamento. O que se transmite hereditariamente são os efeitos do pecado e não o pecado, pois este, segundo a Bíblia, não é hereditário, é de responsabilidade pessoal (Ez 18: 20-22). Isso é atestado no mesmo livro em que se encontra o texto predileto do defensores dessa tese: Dt 5.9. Em Dt 24:16, a Bíblia diz: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais: cada qual morrerá pelo seu pecado”.
Amado, bandidagem não se transmite geneticamente! A índole do indivíduo depende dos relacionamentos que ele tem ao longo do processo de formação de seu caráter. Conforme explica Josgrilberg[1], “[...] sem o outro não somos nada. Nossa constituição tem o ponto focal na presença do outro. Nascemos da vida dos outros fisiologicamente, psicologicamente, culturalmente, e mesmo religiosamente [...]”. Isto é, o sujeito é formado a partir dos relacionamentos. Pensar que uma criança adotada evidenciará, cedo ou tarde, os maus costumes dos pais biológicos é uma grande asneira. Quantas vezes, vemos pais bons com filhos ruins. Absalão, por exemplo, se voltou contra Davi, seu pai, e não era adotado. Amom, seu outro filho, estuprou a própria irmã, e não era adotado. Suzane Richthofen, um caso mais recente, mesmo sendo filha biológica assassinou os pais. Logo, deixar de adotar por esses motivos é, no mínimo, crueldade.
            Portanto, deixemos os preconceitos de lado e sejamos instrumentos divinos para a transformação de vidas, tanto socialmente quanto espiritualmente. Independente de cor, idade ou origem, vamos simplesmente amar. Como afirma o dito popular “pai é quem cria”. Gerar biologicamente não torna ninguém pai de verdade. Até porque, muitos geram crianças que passam a maltratar com o passar do tempo. Precisamos fazer a diferença neste mundo tenebroso, não somente indo ao templo, mas mostrando que somos templo; e templo não é lugar de discriminação. Em suma, ame de verdade!

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã, 1990.

JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. 9 ed. Rio de Janeiro: CPAD. 2005.

JOSGRILBERG, Rui de Souza. A Constituição do Sujeito Ético. Revista Caminhando v. 13, n. 21, p. 41-59, jan-mai, 2008.

LASOR, William S; HUBBARD, David A; BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999. 860 p.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.

 



[1] Doutor em Ciências da Religião pela Université des Sciences Humaines de Strasbourg,
França.