sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE MEFIBOSETE E LO-DEBAR

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Esta frase, proferida por Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, expressava a convicção de que o mais importante não é o que se diz, mas o efeito que provoca no público. Pensando assim, Hitler e seus adeptos construíam a “verdade” que desejavam por intermédio da imprensa.
Conquanto muitos discordem desse pensamento, temos de admitir que, de fato, isso funciona. Basta divulgar uma informação na mídia, seja televisão, redes sociais ou qualquer outro meio de comunicação, que, rapidamente, o assunto se reveste de veracidade. Isto porque, a maioria acredita cegamente naquilo que é veiculado através desses meios.
Todavia, esse fenômeno não é exclusividade do “mundo”. Também no meio evangélico acontece esse tipo de coisa. Basta um tele pregador afirmar algo para que sua assertiva seja popularizada e transformada em verdade absoluta. É assim que surgem, por exemplo, as interpretações “oficiais” de textos da Bíblia. Porquanto, depois que um dos homens da mídia propaga suas ideias (muitas vezes heréticas), elas se tornam paradigmas. Quem ousar apresentar outra explicação para o mesmo texto correrá o risco de ser massacrado pelas críticas dos fiéis.
Um caso desses é a interpretação popular do episódio envolvendo o rei Davi e o filho de Jônatas, Mefibosete. A grande maioria dos pregadores usa a “explicação oficial” do texto, a saber, a ideia de que Mefibosete sofreu desde os cinco anos de idade, quando ficou aleijado, pois se somaram à deficiência física diversas privações, uma vez que, após a morte de seu pai, fora criado por um mendigo em uma terra desértica chamada Lo-dᵉbar. Segundo esse raciocínio, somente com a ação graciosa de Davi seu sofrimento teve fim.
Partindo dessa premissa, preletores mal informados identificam Davi com Deus, Mefibosete com seus ouvintes e Lo-dᵉbar com a dificuldade que alguns estão vivendo. Usando essa linguagem metafórica, apelam para o lado emocional de seus ouvintes asseverando que o Senhor não permitirá que eles permaneçam em Lo-dᵉbar, mas os porá à mesa com o rei. Isto é, eles desfrutarão do “melhor dessa terra”, terão todas as suas necessidade supridas e não mais sofrerão.
Apesar de serem agradáveis aos ouvidos, as ideias elencadas acima nada têm a ver com a verdade bíblica. Até porque, se analisarmos a história de Mefibosete, veremos que, desde seu nascimento, nunca faltou quem cuidasse dele. Ainda que seu pai estivesse envolvido na defesa da nação, o menino recebia os cuidados de uma Ama[1] (2Samuel 4.4), que tentou protegê-lo assim que soube do assassinato de seu pai, haja vista que, por ser da família real, Mefibosete corria risco de morte. O texto diz que ela “o tomou e fugiu”. Porém, no afã de fugir, um acidente aconteceu: a criança sofreu uma queda e ficou aleijada.
Em momento algum a Escritura dá a entender que o ferimento de Mefibosete era evidência do desfavor divino. Foi apenas um acidente. Ora, acidentes acontecem. Deus não o estava castigando ou negligenciando. Afinal, ele era uma criança! Sua Ama também não o deixara cair de propósito. Foi justamente com o desejo de protegê-lo que ela iniciou a fuga. Ou seja, mesmo órfão, o neto de Saul não estava desamparado. Uma prova disso é o fato de ter sido acolhido por Maquir, a quem muitos pregadores, erroneamente, chamam de mendigo.  
De acordo com Flávio Josefo (2005), Maquir era um dos principais da província de Gileade; homem de muitas posses. Tanto, que, conforme é relatado em 2Samuel 17.27-29, foi capaz de fornecer suprimentos a Davi e ao seu exército, quando do levante de Absalão. Maquir era descendente de um outro Maquir, mencionado em Deuteronômio 3.15, filho mais velho de Manassés, “homem de guerra” (Josué 17.1), que recebera o território de Gileade depois da conquista de Canaã.
Segundo Champlim (2001, p. 1267), Maquir, possivelmente, havia “sido um simpatizante da causa de Saul, mas Davi logo o conquistou para defender o novo regime”, o que é evidenciado por sua atitude em 2Samuel 17.27-29. Foi justamente esse homem abastado e valoroso que, conforme explica Josefo (2005), educou Mefibosete em Lo-dᵉbar, certamente, oferecendo-lhe tudo do bom e do melhor. Até porque, não havia como um homem aleijado sobreviver naquela época sem a caridade de alguém.
Mefibosete foi tão abençoado durante o período em que esteve com Maquir que conseguiu até se casar! Porquanto, ainda que o texto não diga isso explicitamente, pode-se facilmente chegar a essa conclusão a partir da asserção de que ele tinha um filho (2Samuel 9.12). Ora, se hoje há discriminação para com os deficientes, imagine naquela época. Mas mesmo assim, Mefibosete conseguiu casar! Se isso for desgraça, como dizem aqueles que insistem em apregoar o sofrimento do filho de Jônatas, não sei o que pode ser considerado bênção.
Quanto à cidade na qual o jovem coxo vivia, cabe ressaltar que muito do que se fala a seu respeito não condiz com a realidade bíblica. Até porque, não há nada no contexto que justifique a ideia de que Lo-dᵉbar  era uma cidade desértica, onde só havia sofrimento. Aliás, asseverar que Lo-dᵉbar é lugar de sofrimento, não faz sentido nenhum, visto que, segundo a Bíblia, o sofrimento não é resultado da região em que nos encontramos, mas do pecado. Não fosse o desejo humano de dominar sobre o outro, Mefibosete não precisaria fugir. Logo, não teria ficado coxo. Além do mais, o único lugar ao qual a Escritura associa o sofrimento é o mundo. O próprio Jesus diz: “[...] no mundo tereis aflições [...]” (João 16.33). Por conta disso, em todos os lugares há pessoas sofrendo, seja em Lo-dᵉbar ou num país de primeiro mundo.
Ademais, sobre o local que abrigou o filho de Jônatas, Baldwin (1997) e Champlim (2001) salientam que Lo-dᵉbar se tratava de um nome alternativo para Dᵉbir, cidade situada a leste do Jordão, próxima da margem sul do mar de Quinerete (atual mar da Galileia). Sendo assim, a afirmação de que Lo-dᵉbar  era caracterizada pela carestia é uma falácia, porque nenhuma cidade próxima de um lago de água doce com 21 quilômetros de comprimento, 12 de largura e cerca de 40 metros de profundidade, viverá tal escassez. É justamente por isso, que ao longo da história grandes civilizações foram erguidas ao redor de rios.  
Na história de Israel Lo-dᵉbar nunca foi um lugar mal visto ou sem importância.  Na verdade, a Bíblia relata que os israelitas se regozijaram com sua reconquista (2Rs 14.25; Am 6.13), visto que ela e outras cidades haviam sido tomadas pela Síria (2Rs 10.32-35). A luz desse episódio cabe-nos indagar: se, de fato, Lo-dᵉbar fosse um local esquecido pelo povo, uma terra infértil, por que recuperá-la? Por que se regozijar com sua agregação ao território de Israel?
Outrossim, uma análise etimológica do nome da cidade revela mais erros interpretativos. Porquanto, o nome não dá indicações de que se tratava de um lugar ermo, haja vista que o termo hebraico dᵉbar é derivado de dābār, que, embora possua uma considerável gama de significados, refere-se especialmente ao uso da palavra falada. Tanto, que o termo é empregado, inclusive, para referir-se à Palavra do Senhor (dᵉbar yhwh). Aliás, a expressão dᵉbar yhwh ocorre 242 vezes no Antigo Testamento. Soma-se a isso o fato de que o plural de dābār é dᵉbarim (palavras). A ligação entre dābār e dᵉbar é tão forte e evidente que na Septuaginta o termo é transliterado como lodabar. Destarte, conquanto muitos traduzam dᵉbar como pasto (ou pastagem), essa tradução é imprópria, uma vez que o termo hebraico para pastagem é dôber. Acerca desta palavra vale salientar que, segundo alguns lexicógrafos, sua origem vem de uma raiz diferente da qual derivou dābār, daí o significado distinto (HARRIS; JR e WALTKE, 1998).
À luz dessas informações, fica fácil compreender o significado real de Lo-dᵉbar, pois o termo Lo é uma das poucas coisas que os pregadores pós-modernos traduzem corretamente quando o assunto é a cidade que abrigou Mefibosete. Realmente, ele é uma partícula de negação. Assim, podemos asseverar que Lo-dᵉbar significa “sem palavra” ou “sem assunto”. Isto é, o escritor, propositalmente, emprega esse nome em vez de dᵉbir, a fim de destacar que não havia assunto entre a casa de Davi e a de Saul. Certamente, porque os descendentes de Saul temiam que o novel rei os assassinasse.
O impressionante é que nenhum dos hagiógrafos dá tanta atenção à Lo-dᵉbar como fazem os pregoeiros do mundo gospel. Em 2 Samuel 9 a cidade não é o centro da narrativa, e, muito menos, Mefibosete. O ponto central é graça. O tratamento bondoso dispensado ao jovem coxo contrasta com o costume oriental “de exterminar a descendência masculina da família real adversária” (LASOR, 1999, p. 202). De acordo com a cultura, o neto de Saul deveria morrer. Davi, porém, mostra graça, tal como o próprio Deus fizera com ele elevando-o ao trono e dando-lhe descanso de seus inimigos (2Sm 7.1), ainda que o filho de Jessé não merecesse nada disso. Afinal de contas, tanto Davi quanto Mefibosete eram pecadores, carentes da graça divina.
A condescendência de Davi deve ter impressionado a muitos, haja vista que como se ressaltou acima, de acordo com a cultura oriental, a atitude natural seria o extermínio de toda a descendência de Saul. Era isso que a maioria esperava dele. Até porque, havia uma profecia que apontava para a perpetuação de sua dinastia (2Sm 7.12). O próprio Mefibosete se manteve escondido justamente por essa razão. Porque, mesmo sendo deficiente e não oferecendo ameaça ao trono de Davi, o pensamento da época requeria sua morte.
Contudo, o rei prometera a Saul (1Sm 24.16-22) e a Jônatas (1Sm 20.12-16) que quando reinasse não desarraigaria sua descendência. É claro que tal pacto não privava Davi de sua liberdade, pois ele poderia muito bem, já que ambos haviam falecido, olvidar-se da palavra firmada e eliminar a casa de Saul. Não obstante, o rei decide mostrar graça, o que fica patente na palavra hebraica por ele empregada, a saber: hesed. Este termo dá a ideia de uma atitude de amor que ultrapassa os limites da mera obrigação. Conforme explicam Harris, Jr. e Waltke (1998, p. 698), “a hesed é gratuitamente concedida. É essencial a liberdade para decidir. A ajuda é vital, alguém está em posição de ajudar, e o ajudador o faz dentro de sua própria liberdade”. Isto é, Davi não foi coagido pela promessa, ele fez porque quis, impulsionado por seu amor a Jônatas.
Todavia, o que chama atenção no texto é o caráter imerecido da bênção que alcança Mefibosete. O pacto de Davi não era com ele. Na verdade, eles nem se conheciam! Por que alguém daria os benefícios de um príncipe a um homem coxo? As deformidades físicas eram consideradas julgamentos divinos. Por essa razão, as pessoas entendiam que o indivíduo, de alguma maneira, merecia o infortúnio. Davi, entretanto, diferente da maioria dos pregadores, não atenta para a desgraça de Mefibosete, mas vê naquela situação a oportunidade de mostrar a “beneficência de Deus” (2Sm 9.3).
Nós éramos como Mefibosete, deficientes, distantes do Pai. Afinal, ele fora separado de Jônatas ainda em tenra idade. De igual modo, desde a infância permanecemos longe do Senhor. Mas Ele, movido por Seu amor, quis mostrar sua beneficência para conosco, ainda que não merecêssemos. Para tanto, tal como fez Davi, Ele não buscou alguém digno de receber seu favor, pois queria apenas alguém, não importando sua condição física, moral ou espiritual. Ele decidiu nos resgatar do lamaçal do pecado, dando-nos uma posição privilegiada em Seu Reino, adotando-nos como filhos. Mefibosete esperava a espada, mas recebeu graça; nós merecíamos, de fato, a espada, o juízo divino, porém Ele nos ofereceu seu amor incondicional.
Não importa que nome o filho de Jônatas possuísse, se era Mefibosete (vergonha), como aparece em 2Samuel 4.4, ou Meribe-Baal (Baal é advogado), conforme o relato de 1Crônicas 8.34, o que fez a diferença em sua vida foi a graça divina, e não o registro civil. Isto porque, nenhum homem, por mais que possua um nome com um significado agradável ou que goze de saúde perfeita, pode viver sem a graça do Senhor; seja a graça salvadora ou a graça comum, todos dependemos do favor de Deus. Defender a ideia de que o favor divino para com Mefibosete só foi manifestado quando Davi decidiu ajudá-lo é negar a graça comum, ou seja, a bondade que o Senhor derrama sobre todo ser humano.
No entanto, a fim de elucidar as questões relativas à variação do nome do neto de Saul, sublinho que concordo com Champlim (2001, p. 4744). Pois, a esse respeito, ele assevera que a substituição de Baal (nome de uma divindade Cananeia) por Bosete (vergonha) foi

propositalmente feita por algum escriba posterior (ou mesmo pelo autor original), que não tolerava escrever o nome de um deus cananeu, associado a uma das famílias reais de Israel. Porém, pode escrever “vergonha” (Bosete), demonstrando o seu desprazer, diante desse nome, aplicado a um dos netos de Saul. A mesma variação pode ser encontrada no caso do nome ls-bosete (ver II Sam. 2:8 e I Crô. 8:33).


            Cada detalhe aqui exposto revela o caráter putativo das asserções feitas em uma das homilias mais famosas do evangelicalismo pós-moderno. Com base no que vimos, é possível identificar a maior carência do povo que se autodenomina evangélico: a Escritura. Por conta do analfabetismo bíblico muitos têm sido arrastados pelos ventos de doutrina (Ef 4.14). O que o pastor ou o pregador famoso declaram torna-se uma verdade inquestionável. Que absurdo! O que fizemos com os princípios da reforma? Jogamos no lixo?
            Precisamos voltar ao princípio! Despojar-nos de todo colesterol e gordura que nos foi acrescentado pelos movimentos surgidos no século XX, para sermos curados dessa enfermidade que tem levado muitos à morte, e morte eterna. É necessário mais Bíblia e menos emocionalismo, mais Deus e menos homem, mais graça e nenhum mérito. Só assim, erros como os que foram descritos neste artigo serão expurgados. O Senhor nos abençoe!

Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALLEN, Clifton J. Comentário Bíblico Broadman. Tradução de Arthur Anthony Boorne. 2 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1994. 3 v.

BALDWIN, Joyce G. 1 e 2 Samuel, introdução e comentário - Série cultura bíblica.
São Paulo: Vida Nova, 1997.

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 2: Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1Samuel, 2Samuel, 1Reis. 2 ed. São Paulo: Hagnos, 2001.

___________, 1933- O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 6: Dicionário - A - L. 2 ed. São Paulo: Hagnos, 2001.

___________, 1933- O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 7: Dicionário - M - Z. 2 ed. São Paulo: Hagnos, 2001.

FLESCH, Cecília, et al. Triunfo da Mentira: um projeto político fundamentado em farsas e supostas verdades. Eclética, Julho/Dezembro, 2005. Disponível em: http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/media/7%20-%20triunfo%20da%20mentira.pdf

HARRIS, R. Laird; JR, Gleason L. Archer; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.

LASOR, William S; HUBBARD, David A; BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999.

JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. 9 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

KASCHEL, Werner; ZIMMER, Rudi. Dicionário da Bíblia de Almeida. 2 ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

SCHÜLLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas/RS: Editora ULBRA, 2002.

VANGEMEREN, Willem A. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese Do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.




[1] Empregada que cuida das crianças em casa de família (KASCHEL; ZIMMER, 1999).

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

“O SOBRENATURAL DE DEUS”

Será que essa frase faz sentido? Bem, a maioria acha que sim. A prova disso é o uso frequente dessa expressão entre os evangélicos. Contudo, será que a aceitação dos crentes pode canonizar palavras, frases ou práticas? Creio que não. Até porque, a referência para os cristãos oriundos da reforma protestante sempre foi a Bíblia, e não “o que todo mundo faz ou crê”. Este, infelizmente, é o critério utilizado pelo evangelicalismo moderno. A moda gospel prevalece em detrimento das Escrituras.
Entretanto, quando a Palavra de Deus é levada em conta, é possível concluir facilmente que a frase em tela é incoerente. Porquanto, Deus é um ser sobrenatural. A Bíblia está repleta de textos que mostram isso. Em João 4.24, por exemplo, o próprio Jesus afirma que “Deus é Espírito”. Ora, conforme assevera o apóstolo Paulo, em 1Coríntios 2.9-16, o natural se contrapõe ao espiritual. Logo, se Deus é Espírito e o que é espiritual difere do que é natural, toda ação de Deus pode ser considerada sobrenatural.
Seguindo esse raciocínio, dizer que alguém verá “o sobrenatural de Deus” em sua vida não faz sentido algum. Até porque, já que o Espírito Santo habita em nós, podemos afirmar que Deus atua sobrenaturalmente em nós o tempo todo. Além disso, segundo a doutrina bíblica da preservação, Deus atua continuamente conservando “existentes as coisas que Ele criou, bem como as propriedades e forças de que as dotou” (STRONG, 2003, p. 602). Sendo assim, mesmo quem não crê nEle é alvo de sua ação e dependente do seu poder sobrenatural. “Os incrédulos continuam a viver neste mundo unicamente por causa da graça comum de Deus – toda vez que alguém respira, isso se dá pela graça, porque o salário do pecado é morte, não vida” (GRUDEM, 1999, p. 550). Isso sim é sobrenatural, pois o homem jamais poderia por seu próprio esforço adiar o juízo divino.
É claro que alguém pode argumentar, ressaltando que tal expressão é útil para fazer distinção entre aquilo que Satanás, um demônio ou um anjo realizam e aquilo que Deus faz. Isto porque, a ação do Diabo também é sobrenatural, assim como a dos anjos e dos demônios. Pensando assim, haveria o sobrenatural do Diabo, dos demônios, dos anjos e de Deus, uma vez que todos são seres espirituais. No entanto, esse raciocínio cai no mesmo erro, pois já que todos são espirituais a ação de todos é sempre sobrenatural. Eles estão acima do natural, do comum. Em Mateus 28.2, por exemplo, é dito que um anjo do Senhor, além de remover uma pedra de umas duas toneladas, provocou um terremoto com sua descida. Outrossim, em 2Pedro afirma-se que os anjos são “maiores em força e poder”, ou seja, eles são sobrenaturais. Mesmo assim, a Sagrada Escritura não se preocupa em fazer essa diferença entre um “sobrenatural” e outro. Até porque, conquanto os seres angelicais e os demônios sejam sobrenaturais, Deus é o todo-poderoso. Não há ninguém acima dEle.
Ademais, a maneira como se emprega a referida expressão dá a entender que se trata de algo diferente, que normalmente Deus não faz: “o sobrenatural de Deus”. O que aconteceu com o termo bíblico “milagre”? Não serve mais? Parece que não. A impressão que tenho é que o mundo gospel não sobrevive sem um novo jargão, sem frases de efeito, sem novas performances. Por isso, vemos expressões novas surgindo a cada dia: “os sonhos de Deus”, “o novo de Deus”, etc. O pior de tudo, porém, é que muitos líderes nem se preocupam com isso. Todas as novidades são encaixadas à medida que surgem sem nenhum questionamento, sem qualquer verificação bíblica. Aliás, quem questiona, automaticamente, é tachado de herege, legalista, chato, etc.
Para completar, a frase em questão, além de não estar registrada na Bíblia, é usada, geralmente, em discursos triunfalistas e mágico-religiosos, onde o líder determina o tempo e o lugar da manifestação do “sobrenatural de Deus”, fazendo com que todos entendam que esse “sobrenatural” diz respeito às bênçãos materiais e individuais. Definitivamente, não dá para concordar com isso. Porquanto, o simples fato de Deus falar conosco já é algo sobrenatural. Destarte, a única conclusão lógica é que esse negócio de “sobrenatural de Deus”, não só é esquisito e antibíblico como também representa crenças contrárias aos princípios do protestantismo histórico. Portanto, cabe a nós rechaçarmos não só o uso dessa expressão, mas toda espécie de jargões e frases de efeito produzidas pela subcultura neopentecostal, e vivermos um relacionamento íntimo com o Deus sobrenatural que muitos abandonaram há tempos.
Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova 1999.


STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Trad. Augusto Victorino. São Paulo: Editora Hagnos, 2003.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

PRINCÍPIOS ABANDONADOS

Há 497 anos, em 31 de outubro de 1517, Martin Lutero pregava suas 95 teses na porta da catedral do palácio de Wittenberg, na Alemanha, o que se tornou o marco da Reforma Protestante. Naquela ocasião, o monge alemão expressou sua insatisfação com a postura eclesiástica da época, que privilegiava a tradição e os dogmas em detrimento das Escrituras.
Ao contrário do que alguns pensam e apregoam, entretanto, Martin Lutero não estava isento dos erros que caracterizavam a estrutura que criticava. Afinal de contas, ele era oriundo daquele sistema, um homem do seu tempo. Por conta disso, ao analisar suas teses, pode-se perceber que o monge cria no purgatório (Tese nº 17). Mesmo assim, Lutero deu um passo gigantesco em direção à liberdade dos grilhões romanos, lançando as bases para a fé reformada.
Não obstante, Lutero não foi o único reformador. Desde o século XIV, já havia um movimento de retorno às Sagradas Escrituras, cujos ícones foram perseguidos e assassinados. Dentre estes, destacam-se John Wycliffe, John Huss e Jerônimo Savonarola, os quais defendiam a Bíblia como única regra de fé e prática e Cristo como o único mediador. Todos eles contribuíram significativamente para a reforma do século XVI.
            De um modo geral, os reformadores defenderam cinco princípios fundamentais, expressos por meio de cinco frases latinas, que se tornaram os pilares da Reforma Protestante, a saber: Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Fide, Sola Gratia e Soli Deo Glória. Porquanto, para eles, a Escritura era a palavra final em matéria de fé e prática, Cristo era o único mediador entre Deus e os homens, a salvação só era possível pela graça por meio da fé e toda glória deveria ser creditada somente a Deus.
Ao longo dos séculos, esses foram os princípios que nortearam a fé protestante em todo o mundo. No entanto, a partir do século XX, gradativamente os fundamentos foram sendo abandonados. Com o surgimento de “novas revelações” e “novos movimentos”, os pilares da reforma foram esquecidos, dando lugar a uma fé supersticiosa e baseada exclusivamente na experiência. Com isso, o misticismo característico da religiosidade popular adentrou os templos das igrejas, desfigurando o protestantismo tradicional, transformando-o no evangelicalismo moderno.
Como resultado disso, doutrinas como a confissão positiva, maldições hereditárias e a teologia da prosperidade se tornaram os novos pilares. Sua força e influência foi tão grande que pastores e líderes dos mais diversos segmentos acabaram cedendo aos seus apelos heréticos, abrindo mão da Escritura a fim de validar a nova ortodoxia.
Por conseguinte, os defensores dos princípios da reforma se tornaram minoria e passaram a ser vistos como hereges. Porquanto, embora a maior parte do povo evangélico, atualmente, declare crer nos cinco solas, na prática a maioria já os abandonou. Até porque, não dá para dizer “eu profetizo sobre sua vida” sem violentar o princípio de Sola Scriptura. Aliás, não dá para defender a confissão positiva se esse princípio for observado. Além disso, no contexto atual, fica difícil dizer Solus Christus, visto que há um endeusamento dos líderes eclesiásticos, chamados com frequência de “ungidos do Senhor”. Estes são tratados como mediadores. A oração deles é mais forte, a palavra é mais poderosa, os ritos que promovem são mais eficazes. O princípio do sacerdócio universal de todos os crentes já caiu por terra há muito tempo.
Soli Deo glória também já foi abandonado há bastante tempo. A glória e a honra hoje em dia são creditadas às denominações e aos homens que as presidem. Parece que o poder está com eles, e não com Deus. É... voltamos à Idade Média. Igualmente, Sola Fide tornou-se completamente inaplicável, haja vista que o conceito atual de fé é totalmente deturpado. Fé passou a ser o mesmo que pensamento positivo. Ter fé é acreditar firmemente que algo vai acontecer. Não precisa nem crer em Deus, basta crer que o que você deseja lhe será concedido que... puf... a bênção virá. Eu hein!
Sola Gratia nem encontra espaço nesse contexto. Na verdade, salvação não é uma das preocupações dos evangélicos. O mais importante é receber a bênção. O que se busca é o aqui e o agora. Céu e inferno não fazem mais parte do discurso. As pessoas acham que estão salvas porque vão muitas vezes ao templo e participam de todas as programações. Ledo engano.
Precisamos voltar às raízes de nossa fé. Como afirmou certa vez Hernandes Dias Lopes, não precisamos de um avivamento, mas de uma nova reforma. É necessário resgatar os fundamentos do protestantismo e abandonar a teologia putrefata do neopentecostalismo. Senão, estaremos fadados a sermos consumidos por esse vírus até que não haja mais vida no corpo.

Pr. Cremilson Meirelles




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

COISAS DE OVELHA

Sermão pregado na PIB em Manoel Corrêa, Cabo Frio.

Texto Base: Mateus 25.31-46
Ao ler esse texto, dificilmente pensamos a respeito da razão pela qual o pastor aparta dos bodes as ovelhas. Na verdade, a maioria das pessoas nem sabe a diferença entre bode e ovelha. É claro, entretanto, que não tenho a intenção de tratar dos detalhes que diferenciam um do outro. Contudo, é importante ressaltar que a ovelha é a fêmea do carneiro e o bode é o macho da cabra. Embora se pareçam, trata-se de espécies distintas. Com base nessa informação, podemos deduzir o porquê de separar as ovelhas dos bodes. 
Ora, já que pertencem a espécies diferentes, o resultado do cruzamento dos dois seria um animal híbrido, que não poderia se reproduzir. Além disso, experiência tem demonstrado que o mais comum é que esses filhotes nasçam mortos. A partir dessa observação, fica mais fácil compreender a razão da separação: nenhum pastor gostaria de ter ovelhas prenhas gerando filhotes natimortos.
A despeito desses aspectos, na comparação utilizada por Cristo os homens são identificados com base em seu relacionamento com Deus e com o próximo. As realizações elencadas pelo Mestre identificam as ovelhas e denunciam os bodes, evidenciando que, assim como bodes e ovelhas, há duas espécies de seres humanos: filhos de Deus e criaturas de Deus. Seguindo esse raciocínio, pretendo, neste sermão, pontuar as atitudes que caracterizam a filiação divina, ou seja, que mostram quem, de fato, são as ovelhas. Chamarei esses aspectos de “coisas de ovelha”.

1 – AJUDAR OS NECESSITADOS
            Ao proferir seu discurso escatológico, Jesus mostra que há lugar no Seu Reino para aqueles que não fizeram coisas consideradas extraordinárias pelos homens, tais como cantar, pregar, ou qualquer outra atividade realizada no interior do templo. As realizações que o mestre atribui aos que estão à Sua direita nada têm a ver com as atividades realizadas pelos soberbos de Mateus 7.22,23, que se gabam de suas obras. Cristo não exalta Suas ovelhas por terem profetizado, expulsado demônio ou feito maravilhas. Ele apenas destaca que seus grandiosos feitos eram praticados fora das dependências do templo, e dos olhares dos religiosos. Isto é, ao contrário dos bodes, elas se preocuparam em viver o cristianismo genuíno, e não apenas momentos no templo.
Repare que as ovelhas são inconscientes de terem realizado boas obras. Isto porque, elas não fizeram com a intenção de obter o reconhecimento humano e nem ganhar pontos com Deus. Foi exatamente isso que tornou as obras tão boas: sua espontaneidade. Tanto, que elas se espantaram. Ou seja, fizeram o que fizeram por amor ao próximo, diferente dos fariseus, que davam esmolas para serem vistos pelos homens (Mateus 23.5).
Os que estarão à direita de Cristo, naturalmente, ajudam os necessitados, pois não conseguem ver pessoas padecendo, privadas das necessidades básicas, e não atendê-las. É disso que Jesus fala. Ele ressalta que as necessidades básicas do ser humano: fome, sede e vestuário; foram integralmente supridas por suas ovelhas. Com isso, redireciona o foco, tirando-o do “eu” e apontando para Deus e o próximo. Porque, ao fazer bem ao outro, as ovelhas mostram seu amor por Jesus.
No dia do juízo, cada pessoa saberá imediatamente se é salva ou condenada. Naquela ocasião, o Rei dos reis destacará o que fizemos em nossa vida e conduta diárias, a fim de mostrar que nas pequenas coisas fornecemos prova de que somos verdadeiros discípulos do Senhor. Por isso, nos chamará de benditos. Isto nos leva a concluir que a justiça que Cristo nos imputou mediante a fé (Romanos 5.1) precisa ser comunicada, isto é, demonstrada através de atitudes. Afinal, como diz a Bíblia, “a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tiago 2.17).
Precisamos evidenciar que somos ovelhas através das obras. Temos de ajudar os que perecem, os que passam fome, os que não têm o que vestir. Até porque, “aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4.17). Não podemos fechar os olhos para os que sofrem. Talvez, haja pessoas próximas de nós precisando dos itens básicos mencionados por Cristo. Quem deve ajudar? Nós. Eu e Você. Não transfira a responsabilidade. Seja ovelha. Quem não ajuda porque não quer, das duas uma: ou é bode ou ainda não entendeu o que significa ser servo do Senhor.

2 – ACOLHER O DIFERENTE
Na cultura judaica, a hospitalidade era um dever sagrado. Receber um hóspede era uma honra disputada. Isso facilitava bastante as viagens. Inclusive, de acordo com a tradição judaica, o forasteiro podia desfrutar da hospitalidade por três dias. Depois disso, deveria se retirar e seguir viagem.
Não obstante, após o período intertestamentário, por terem sofrido tanto com a opressão estrangeira, os judeus passaram a ver os gentios com desconfiança. Por isso, ao falar sobre a hospitalidade, Jesus usa o termo Xenós, que significa estranho, estrangeiro, e que nas versões latinas do Novo Testamento foi traduzido pelo latim Hostis, palavra que significa inimigo, o que reflete a postura judaica em relação aos estrangeiros, vistos por eles como inimigos. Isto porque, adoravam outros deuses e observavam costumes diferentes. Agindo assim, os judeus contrariavam a Lei. Porquanto, em Deuteronômio 10.19, o próprio Deus disse: “amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito”.
No texto em pauta, Jesus faz alusão à hospitalidade, prática tão venerada na história judaica, ressaltando a atitude das ovelhas, que receberam os estrangeiros, diferente dos hipócritas, que afirmavam servir a Deus, mas desprezavam o próximo. Mais uma vez os que estão à sua direita se espantam. Isto porque, tudo o que fizeram foi espontâneo. Jesus tocou na ferida de seus ouvintes. Ele afirmou que sua igreja deveria acolher todo o tipo de gente. Para a glória de Deus, o sermão surtiu efeito. A igreja primitiva se tornou uma comunidade acolhedora, recebendo tanto judeus como gentios, vencendo o preconceito. Assim, rapidamente, os gentios se tornaram maioria.
Apesar disso, com o passar do tempo, o problema da discriminação voltou. A igreja, que outrora foi acolhedora, passou a ser discriminadora. O preconceito entre brancos e negros separou os cristãos durante muitos anos. Nos Estados Unidos, por exemplo, além de existir banheiros específicos para negros, havia também igrejas separadas para negros. O pior de tudo é que isso ainda existe. Recentemente, em 2011, uma mulher foi disciplinada em sua igreja porque levou o namorado negro ao culto.
Se isso nos espanta, deveríamos olhar para nós mesmos, pois, às vezes, com nossos grupos fechados, com nossas panelas, criamos barreiras para a integração de quem chega de fora. Não conversamos com os visitantes, só com nossos amiguinhos. Isso afasta as pessoas. Achamos que integrar as pessoas é tarefa exclusiva do pastor, mas não é. Quando Jesus fala sobre isso, não separa os pastores das ovelhas. Todos são apresentados no mesmo nível. Isto é, Ele ressalta que o acolhimento é responsabilidade de todos, e não só dos líderes religiosos.
Às vezes, estamos tão preocupados com nossa própria vida, com as bênçãos que queremos receber, que nos esquecemos de acolher o outro. Queremos ser acolhidos, mas não queremos acolher. Por conseguinte, surge uma multidão de pessoas carentes, que só encontram o suprimento de sua carência em uma única pessoa: o pastor. Isso é muito ruim, porque a igreja deveria ser uma comunidade terapêutica, onde todos se preocupassem uns com os outros, e não apenas consigo mesmo. Não basta somente cumprimentar as pessoas, é necessário dar atenção, ouvi-las, se interessar, se preocupar com elas, ainda que não façam parte do nosso grupinho.
Tem tanta gente sedenta por atenção, por igualdade... Não podemos rejeitar ninguém. Gays, prostitutas, traficantes, todos devem ser bem-vindos e tratados da mesma forma que os demais.   

3 – VISITAR
            Esse ponto é um dos mais mal entendidos na igreja moderna. Isto porque, há uma tendência de transferir essa responsabilidade para os pastores. Entretanto, Jesus se dirige a todos os que estão à sua direita. Ele não faz distinção entre pastores, diáconos e ovelhas. Todos são ovelhas aos olhos do Todo-poderoso. Portanto, a todos cabe a responsabilidade de visitar. Afinal de contas, a visita é a expressão da comunhão. É a atitude de quem tem tudo em comum. Há momentos em que no templo não há comunhão. As pessoas chegam atrasadas para o culto, saem mais cedo, e não falam com ninguém. Contudo, nos lares a comunhão é possível.
            Se negligenciarmos esse aspecto da nossa espiritualidade, estaremos agindo como os fariseus, que viviam uma religiosidade vazia, centralizada no templo, mas não punham em prática a essência das Escrituras. Precisamos tirar o foco do templo e entender que temos de ser igreja dentro e fora do templo. Se somos ovelhas, temos de agir como um rebanho e permanecermos juntos.
            O problema é que acabamos terceirizando essa tarefa, achando que, se damos o dízimo, o pastor tem o deve de realizar aquilo que nos cabe, nos eximindo das responsabilidades. Assim, começamos a supervalorizar a visita pastoral. Até porque, se como pensam alguns, visitar é tarefa exclusiva do pastor, a visita dele se torna mais importante que a de qualquer outro. Pensando assim, muitos ficam choramingando querendo receber visitas pastorais. É claro que isso é um absurdo! Não há visita mais importante do que a outra. Todos somos iguais. O pastor não é um super-homem, é humano. Toda ovelha deve visitar, e toda visita deve ser vista igualmente. Haja vista que o pastor sozinho jamais dará conta de visitar todos sempre.
            Passamos o tempo todo cumprindo ritos, buscando bênçãos, querendo ser visitados pelo pastor (como se o pastor fosse um deus) e esquecemos de fazer a nossa parte. Ser igreja é estar junto nas casas também. É visitar os enfermos, os encarcerados, e todos aqueles que padecem. Às vezes, usamos uma série de justificativas para não visitar: “não aguento vê-lo nessa situação”, “não sei o que falar”, “não tenho tempo”, etc.
            É necessário romper as barreiras e cumprir nossa missão. Vamos visitar uns aos outros. Visitemos os novos convertidos para que possam se firmar na fé. Visitemos os enfermos a fim de levar um pouco de alegria aos seus corações. Porque, se estivéssemos no lugar deles, era exatamente isso que gostaríamos que nos fizessem. Lembremos de Mateus 7.12: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas”.

CONCLUSÃO
Não dá para dizer que somos ovelhas enquanto agimos como bodes, negligenciando nosso dever maior de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Isso é hipocrisia! É autoengano! É o que os bodes fazem. Enganam a si mesmos. Acham que são Filhos de Deus, mas não fazem a vontade do Pai. Seguem suas vidas achando que estão bem em relação a Deus, mas trilham o caminho espaçoso que conduz à perdição.

Se somos ovelhas, devemos ajudar os necessitados, acolher o diferente, e visitar as pessoas. Terceirizar isso é reconhecer que não temos a natureza adequada para realizar tais tarefas; é afirmar que somos bodes; indignos da morada celeste. “Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (1João 4.20). Portanto, amemos as pessoas e não somente “o ser amado por elas”; tiremos o foco do “eu”, e olhemos mais para eles: Deus e o próximo.

Pr. Cremilson Meirelles

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ENTENDENDO A BÍBLIA

Nos dias de hoje, mesmo após o desenvolvimento do estudo teológico, vemos pessoas que insistem em interpretar literalmente todas as afirmações bíblicas. Essa postura leva, inevitavelmente, o indivíduo à construção de pensamentos heréticos e antibíblicos. Porquanto, o texto bíblico, assim como as frases que dizemos no dia a dia, pode possuir tanto um sentido literal como um sentido figurado.
O sentido literal é aquele que se limita ao sentido básico das palavras, podendo ser compreendido sem ajuda do contexto. É o sentido das palavras tal como se encontra no dicionário. Por exemplo: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. Ora, não tem como entender outra coisa nesse texto, a não ser que, no princípio, Deus criou tudo o que existe. Isto é, o texto é literal.
O sentido figurado, ao contrário, amplia ou altera o significado das palavras. Quando alguém diz que está “morrendo de fome”, por exemplo, sabemos que a pessoa não está prestes a morrer, mas ela quer dizer que está com muito apetite. O mesmo ocorre na Bíblia. Há diversas passagens que empregam esse sentido. Não podemos entendê-las literalmente. Já imaginou se o fizéssemos?!? Quando Jesus disse “Eu sou a porta”, por exemplo, iríamos achar que Ele é feito de madeira e tem maçaneta. Um absurdo, não é?
O grande problema, entretanto, é que sempre há aqueles que utilizam as interpretações descritas acima da maneira que lhe convém, desrespeitando o sentido apresentado pela Escritura. Os que interpretam literalmente os versículos, normalmente, tendem ao radicalismo, enquanto os que optam exclusivamente pelo sentido figurado, acabam forçando o texto a dizer o que desejam.
Contudo, de ambos os lados, o que impera é a conveniência. Isto porque, quem gosta da interpretação literal, quando convém diz que é figurado. Um exemplo disso é o texto de Mateus 5.29,30, onde Jesus diz para arrancar fora o que nos faz pecar. À exceção de Orígenes, homem que se mutilou por causa desse texto, ninguém quer interpretar esses versículos literalmente.
Amado, para compreender a Escritura é necessário muito mais que oração. É preciso conhecer o contexto histórico, social e cultural da época. Conhecer os idiomas originais também é de suma importância, pois há textos difíceis de entender, onde só a análise do grego e do hebraico pode fornecer respostas. Só assim poderemos concluir se um texto é literal ou figurado. Orar é importante, mas só a oração não leva ao entendimento real do texto. Por isso, vamos valorizar cada vez mais o estudo da Palavra, seja no templo ou nos lares, mas vamos estudar a Bíblia!

Pr. Cremilson Meirelles