sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SAUL E A PITONISA

Este, sem dúvida, é um dos textos mais polêmicos e obscuros da Escritura. Por isso, muitos preferem manter distância desse episódio tão confuso, evitando analisá-lo ou comentá-lo. Por outro lado, há quem goste da história, visto que, aparentemente, dá margem às práticas espiritualistas. Mesmo no âmbito do Cristianismo, há uma série de controvérsias a esse respeito. Uns esposam a ideia de que a vinda do profeta Samuel, no relato, se trata de uma manifestação demoníaca; outros, entretanto, defendem que Deus teria aberto uma exceção e permitido que o espírito de Samuel, de fato, falasse por meio da pitonisa. Contudo, a despeito das muitas interpretações relativas ao incidente narrado em 1Sm 28, pretendo neste artigo mostrar um perspectiva que faça justiça ao texto bíblico, levando em conta seu contexto imediato e situacional.
À primeira vista, o relato parece confirmar a vinda de Samuel do mundo dos mortos, atendendo ao chamado da pitonisa. No entanto, antes de qualquer assertiva temerária, é necessário entender qual a função do texto no seu contexto. Ora, 1Sm 28.3-25 tem como propósito comunicar uma vez mais a rejeição de Saul e reafirmar a escolha de Davi para substituí-lo. Isto fica bem claro quando, ao contrário de Davi, que nos momentos cruciais recebia a instrução de Yahweh (1 Sm 23.2.4.9-18; 30,7-20; 2 Sm 2.1; 5,19.23), Saul é abandonado (1Sm 28.6). Segundo o texto, o rei tentara de todas as maneiras ouvir a voz divina (sonhos, urim, tumim, profetas) sem lograr êxito. Entrementes, quando o texto assevera que Deus não respondeu aos apelos de Saul, o termo hebraico empregado (҅anah) aparece no tempo completo, transmitindo a ideia de uma ação já concluída. Isto é, Deus já decidira não respondê-lo. Portanto, dali para frente, de maneira alguma lhe daria resposta. Nem por revelação sacerdotal (Urim e Tumim), pessoal (sonhos) inspiracional (profetas), e, muito menos, espiritualista (pitonisa).
É necessário frisar também que o próprio Saul fora responsável pela eliminação dos meios de acesso ao divino, pois matara 85 sacerdotes de Yahweh (1Sm 22.6-19). Na verdade, ele eliminara toda e qualquer forma de comunicação com o sobrenatural, uma vez que até as  ҆oboth[1] e os yid ҅onim[2] (1Sm 28.3) foram expulsos em seu reinado. Além disso, o profeta Samuel já havia morrido. Isto é, as portas do sagrado estavam fechadas para Saul. É claro, porém, que, possivelmente, a expulsão dos adivinhos e encantadores fosse uma tentativa do rei de, em vão, buscar o favor divino (Dt 18.9-14).
Diante do silêncio divino, Saul decidiu, em um ato de desespero, lançar mão de um último recurso. Este, no entanto, ia de encontro à sua atitude anterior, visto que decidira consultar a classe que ele mesmo criminalizara. Para tanto, solicitou ajuda aos seus servos, pedindo que encontrassem mulher possuidora de um obh (1Sm 28.7). Aqueles, prontamente, lhe informaram sobre a notável médium que residia em En-Dor, cidade Cananeia pertencente ao território da tribo de Manassés, que distava cerca de 7 Km de Gilboa, onde o exército de Israel estava arregimentado. A mulher mencionada, certamente, tinha uma boa reputação no tocante ao contato com os mortos. Não foi à toa que seus criados a recomendaram. Saul, ansioso por ouvir alguma orientação do “mundo espiritual”, seguiu, então, rumo a En-dor, a fim de, mais uma vez, ouvir aquele que, por algum tempo, fora seu mentor.
É óbvio que, para não contradizer suas ordens, o rei precisou se disfarçar. Afinal, ele não queria ser visto pelo povo descumprindo uma de suas leis. Entretanto, isso não foi suficiente, pois o texto dá indícios de que a pitonisa, desde o princípio, desconfiou da verdade. É bem verdade que não seria muito difícil suspeitar, visto que um homem muito alto, disfarçado, acompanhado dos servos do rei, procurando-a na calada da noite, só podia ser o próprio monarca. Isto porque, como podemos ver em 1Sm 9.1,2 e 10.23, Saul era o homem mais alto dentre os israelitas. Além disso, assim que Saul chega, a mulher menciona a atitude do rei para com os necromantes, asseverando que não poderia fazer o que lhe fora pedido (1Sm 28.9). Ora, sem dúvida, ela devia consultar os mortos constantemente, independente do perigo de ser morta. Se não fosse assim, os criados do rei não a conheceriam (1Sm 28.7). Decerto, ela diz não ser possível realizar a consulta, por ter suspeitado que o “visitante misterioso” era Saul.
As suspeitas da pitonisa são confirmadas quando o próprio Saul garante que nenhum mal lhe sucederia (1Sm 28.10). Quem, senão o rei poderia garantir uma coisa dessas? Soma-se a isso o fato de Saul lhe pedir que fizesse subir a Samuel (1Sm 28.11). Porquanto, levando-se em conta que o relacionamento de Samuel e Saul era conhecido por todos, qualquer cidadão concluiria, naturalmente, que um homem alto, acompanhado dos servos do rei, que diz que quer falar com Samuel, e que garante a proteção e liberdade da necromante, era Saul. Tantas coincidências não poderiam ser aleatórias!
Mesmo assim, a pitonisa precisava que ele se revelasse, para garantir a sua segurança, pois sem a revelação não haveria compromisso. Isto é, se Saul permanecesse disfarçado, ela correria risco de morte. Sendo assim, sabendo que ele gostaria de falar com Samuel, ela arma uma cena (grita), dizendo que viu Samuel e declarando a Saul que sabe quem ele é (1Sm 28.12). Toda essa encenação tinha o propósito de isentá-la de qualquer punição, e dar credibilidade ao que estava fazendo.
Contudo, fica uma pergunta: Como explicar o fato de que o texto declara, literalmente, que a mulher “viu” Samuel? Para respondê-la, porém, é preciso analisar a expressão no idioma original, o hebraico. À luz deste, podemos concluir que a afirmação, de fato, é literal, porque o autor sacro utilizou o verbo hebraico rā ҆â, que significa ver, olhar, inspecionar, ter visão. A princípio, parece que essa informação reforça a ideia do diálogo entre o profeta e o rei. No entanto, segundo Philbeck Jr. (1986) alguns manuscritos gregos trazem Saul, em vez de Samuel. Isto é, dentro dessa ótica, a mulher teria se assustado ao perceber que estava diante do mesmo rei que havia proibido a prática necromante.
Inobstante, ainda que não se leve em conta a observação acima, precisamos concordar que a história descrita no texto fora relatada por uma testemunha ocular. De outra maneira, como poderíamos ter certeza dos fatos ali narrados? Ora, fora a pitonisa, estavam ali apenas o rei e seus criados. Com certeza, um deles contou o ocorrido a alguém. Esse relato, sem dúvida, foi influenciado por suas crenças, que não eram nem um pouco ortodoxas. Isto porque, o povo de Israel tinha uma forte inclinação ao paganismo. Por que Saul teve de expulsar os médiuns? Porque eles viviam tranquilamente entre o povo. Eles vivenciavam um sincretismo religioso. Ademais, a Bíblia relata que era comum a existência de estrangeiros dentre os servos do rei (1Sm 21.7; 26.6; 2Sm 23.25-39). Destarte, a única conclusão razoável é que o testemunho da Escritura expressa aquilo que a pitonisa disse ter visto, com o que, possivelmente, concordaram Saul e seus criados. Isto, no entanto, não enfraquece o texto bíblico. O episódio narrado é parte da revelação divina. Porém, tal como ocorre com os discursos dos amigos de Jó, as palavras de Satanás (Mt 4.1-11), a fala da mulher de Tecoa (2Sm 14.2-21), eram palavras e conceitos humanos. É Preciso considerar também a natureza do texto, ou seja, é uma narrativa, não um escrito doutrinário.
Quanto ao diálogo entre Samuel e Saul, o que supostamente é dito pelo “profeta”, todo mundo já sabia. A condição de Saul e o que Samuel pensava dele, era de domínio público. A pitonisa apenas repete aquilo que Samuel já havia falado (1Sm 15.22–28; 28.17). Além do mais, o próprio Saul diz a “Samuel” que os filisteus estavam guerreando contra ele. Diante disso, da loucura de Saul e do fato de que Davi já havia sido ungido rei, seria fácil prever o futuro. Em adição, vale salientar que é Saul quem “entende” que se trata de Samuel (1Sm 28.12). Isto é, o rei, sem vê-lo, concluiu que era Samuel. Até porque, conforme a narrativa, apenas a mulher diz que vê (1Sm 28.13,14). Ela simula um “transe” e representa uma espécie de psicofonia, dizendo ser Samuel o interlocutor. Uma completa farsa.
Visto isso, acredito que o episódio em pauta é um registro histórico da ação de mais uma charlatã. Isso fica bem claro quando analisamos as predições do suposto Samuel, uma vez que destoam frontalmente da realidade. Sua afirmação de que Saul seria entregue nas mãos dos filisteus, por exemplo, não se cumpriu, visto que 1Sm 31.4 a Escritura informa que Saul cometera o suicídio, e, em 31.11-13, é dito que o corpo de Saul foi parar nas mãos dos habitantes de Jabes-Gileade.
Não obstante, conquanto o relato contido em 2Sm 1.1-10 discrepe dos textos supracitados, é necessário frisar que o registro não expressa a realidade do que aconteceu a Saul em seus últimos momentos de vida. Trata-se, contudo, da reprodução da história inventada por um amalequita que esperava receber uma recompensa do novo rei e gozar de prestígio perante o povo por ter assassinado o rival de Davi. Possivelmente, o homem passara por perto do lugar onde Saul morrera e, reconhecendo o cadáver, furtou sua coroa e bracelete antes que os filisteus o encontrassem.
Outro erro do “fantasma Samuel” foi declarar que Saul e seus filhos morreriam no dia seguinte (1Sm 28.19). Isto porque, pelo menos três filhos do rei permaneceram vivos, a saber: Is-Bosete (2Sm 2.8-10), Armoni e Mefibosete (2Sm 21.7,8). Nem Saul morreu no dia seguinte conforme fora “profetizado” (1Sm 28.19). Sublinha-se, inclusive, que a mulher emprega o termo mahar, que significa, literalmente, amanhã. Não se tratava de um sentido figurado, mas do próximo amanhecer. Todavia, Saul morreu, mais ou menos, uns 17 dias depois. Esta assertiva é confirmada quando analisamos a história que se segue. Porquanto, no capítulo 29, o autor sacro destaca que, antes do ataque derradeiro, os filisteus despediram Davi, por pensarem que ele lutaria a favor de Israel (1Sm 29.1-11). Em seu retorno a Ziclague, Davi gastou 3 dias (1Sm 30.1) e mais um dia na preparação para a nova expedição; de Ziclague até o ribeiro de Besor, uma viagem de cerca de 30 Km, o filho de Jessé e sua tropa despenderam mais um dia. Além disso, em 1Sm 30.13 é dito que os amalequitas estavam três dias a frente de Davi e seus companheiros, visto que este era o tempo que o homem egípcio havia sido deixado para trás. Em adição, o texto afirma que um dia inteiro foi empregado na batalha contra os inimigos (1Sm 30.16,17). Em suma, três dias foram gastos até Ziclague, um dia de preparação, um dia até Besor, três dias até o acampamento amalequita, um dia de guerra e mais oito dias para retornar, totalizando 17 dias. Mais à frente, em 2Sm 1.1,2, o autor sacro assevera que a notícia a respeito da morte de Saul só chegou depois de três dias que Davi tinha retornado a Ziclague. Ora, a distância entre Gilboa e Ziclague era percorrida em três dias. Assim, a conclusão lógica é que, após 17 dias da “profecia”, Saul, enfim, morreu.
Portanto, não há como concordar com a interpretação de que Deus abriu uma exceção, permitindo que Samuel retornasse do “mundo dos mortos” só para repetir aquilo que já dissera a Saul. Qual teria sido a razão disso? Por que Deus faria Samuel contrariar a doutrina que ele mesmo pregara (1Sm 15.23)? Por que Samuel, conhecendo a lei (Lv 20.6, 27), teria participado desse evento? Além do mais, se Deus tivesse autorizado a manifestação, por que Saul morreria por ter feito algo que Deus aprovara (1Cr 10.13-14)? Alíás se fosse Samuel o veículo transmissor, seria o próprio Deus falando. Deus falaria através de um morto, mesmo proibindo essa prática (Dt 18.9-14)? Seria uma mediação dupla? Deus usa Samuel e Samuel usa a mulher. Que coisa esquisita!
Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KIRST, Nelson, et al. Dicionário hebraico-português e aramaico-português. 18 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004. 305 p.

PHILBECK JR., Ben. F. Comentário Bíblico Broadman: 1Samuel - Neemias. Tradução de Israel Belo de Azevedo. 2 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1986.

SHIMIDT, Alaid Schiavone. Pequena Enciclopédia Bíblica de Temas Femininos. São Paulo: Arte Editorial, 2007.

SILVA, Ruben Marcelino Bento da. ASSOMBRAÇÕES NA BÍBLIA JUDAICA: Estudo classificatório sobre tradições folclóricas de demônios e fantasmas difundidas no Antigo Israel e subjacentes aos textos hebraicos canônicos. 2012. 122 p. Dissertação (Mestrado em Teologia) - Escola Superior de Teologia, São Leopoldo.





[1] Mulher que pressagia através de um obh (um demônio de adivinhação).
[2] Termo que ocorre, na maioria das vezes, em paralelo com obh, sempre em contextos que tratam do culto a outros deuses e a ídolos (Lv 19.31; 20.6, 27; Dt 18.11; 2Rs 21.6; 23.24; Is 8.19; 19.3).

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O QUE SE ESPERA DA IGREJA DE CRISTO? - Uma análise de Atos 3.1-10

Na atualidade, o grupo ao qual chamamos de igreja, tem sido duramente criticado. Até aí não encontramos novidade, pois a comunidade cristã sempre foi alvo de críticas. O que precisamos refletir, entretanto, é se somos ou não culpados daquilo que nos acusam. Essa autoanálise, inclusive, deveria ocorrer com frequência, pois, como afirma o apóstolo Paulo [...] “se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados” (1Co 11.31). Contudo, essa é uma tarefa que não gostamos de realizar, preferimos apontar os erros dos outros a reconhecer os nossos. Por isso, a fim de corrigir essa visão e refletir sobre aspectos que precisam ser revistos, destacaremos, com base no texto de Atos 3.1-10, alguns pontos que nós, como igreja do Senhor, precisamos, com urgência, por em prática.
Pois bem. Conquanto inúmeras mensagens sobre o texto em pauta salientem as características de Pedro, João, do coxo, e, alguns, preguem até acerca da porta Formosa, quero, primeiramente, sublinhar a relevância da atitude daqueles que transportavam o coxo. Segundo o texto, havia mais de uma pessoa que ajudava aquele homem: “e era trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam” (At 3.2). Sem dúvida, o escritor não teria utilizado um termo plural se estivesse se referindo a um indivíduo. Ainda que, a princípio, pareça um detalhe sem importância, o caráter coletivo da ajuda prestada se reveste de singularidade quando observamos o contexto. Uma vez que, naquela época, os enfermos eram considerados impuros, tocá-los significava contaminar-se com sua impureza. Ao se tornar impuro, o indivíduo não poderia adentrar o templo sem antes cumprir o tempo e observar os ritos necessários à purificação. Assim, tal como o coxo, seus benfeitores ficavam privados de adentrar o santuário. Isto é, aqueles homens abriram mão do exercício diário de sua fé simplesmente para ajudar um necessitado. Mesmo sem serem cristãos, nos dão um tremendo exemplo do que é, de fato, amar o próximo.
O judeu da época costumava ir ao templo para oração três vezes ao dia, nas horas terceira (09:00h), sexta (12:00h) e nona (15:00h). Muitos passavam por aquele homem, sobretudo os fariseus, e davam-lhe esmolas. No entanto, ninguém ousava tocá-lo, nem ao menos olhavam para ele. O homem já fazia parte da paisagem. Ele era necessário para que a justiça farisaica fosse evidenciada. Por conta disso, a maioria preferia fazer a manutenção de sua condição de pedinte. Ninguém lhe dava ou fazia o suficiente para tirar-lhe daquela situação. Não era interessante. Ele era apenas um instrumento para reafirmação da santidade farisaica. Uma multidão ia e voltava das reuniões de oração no templo, um lugar onde era pregado o amor, mas, infelizmente, não vivia esse amor. Somente um grupo de anônimos foi capaz de desistir dessa santidade aparente e abraçar a causa de Deus. Para eles, o coxo não era apenas “o outro”, ele era “o próximo”. Alguém tão carente da Graça de Deus quanto eles. Ainda que não fossem cultuar, faziam exatamente o que Jesus mandava.
Não há como não refletir diante dessa cena. Não há como não nos questionarmos: a que grupo pertencemos? Àquele que sustenta uma religiosidade egoísta e ritualista, ou ao grupo que é capaz de negar a si mesmo para ajudar o próximo? Será que estamos dispostos a gastarmos tempo com as pessoas? A tratá-las com amor? Será que participar de um culto se tornou um fim em si mesmo? Será que, por se multiplicar a iniquidade, nosso amor se esfriou (Mt 24.12)? Gostamos de usar esse prognóstico de Jesus para falarmos dos outros, mas penso que muitos de nós estamos enquadrados nele.
É triste, mas, muitas vezes, nos reunimos no templo, mas não agimos como templo do Espírito Santo, não acolhemos os cansados e sobrecarregados, excluímos as pessoas com nossas panelinhas, nossos grupinhos fechados, quando, na verdade, deveríamos incluí-las. Às vezes, parecemos mais com os fariseus do que com os carregadores do coxo. Prendemo-nos a um ritualismo exacerbado, confundindo a igreja com o templo, esquecendo-nos que a igreja é constituída de pessoas, não de tijolos e cimento. Se o templo desabar, a igreja continua. O templo é o lugar onde a igreja se reúne, mas esta não se limita às paredes daquele. Ir ao templo é uma pequena parte da nossa vida cristã, cerca de 4% de nosso tempo. O exercício da fé em Cristo, por outro lado, deve ser diário e constante. Não podemos encenar um papel diante do público, precisamos viver aquilo que professamos. Devemos fazer do lado de fora aquilo que nos propusemos a fazer do lado de dentro. Temos de tratar as pessoas com igualdade, ultrapassando os limites da ritualidade.
Foi exatamente isso que fizeram os amigos do coxo e a dupla de apóstolos, Pedro e João. Estes últimos romperam as barreiras sociais, considerando-o como igual. Isto fica patente quando observamos o contexto cultural em que se desenrola a cena narrada por Lucas. Porquanto, desde o cativeiro babilônico os escravos não olhavam nos olhos de seus senhores (Sl 123.2), fitavam apenas as mãos. O mesmo ocorria com os desprezados socialmente. Tanto que, como mostra a narrativa, Pedro teve de dizer ao homem que olhasse para eles. Acredito, inclusive, que as pessoas nem olhavam para esses párias. Eles eram invisíveis. Não muito diferente de hoje. Contudo, contrariando essa cultura discriminatória, Pedro e João não só olharam para o coxo, como também pediram que ele olhasse para eles (At 3.4). Com essa atitude, mostraram ao homem que o viam como igual, como um ser humano carente da Graça de Deus.
Não obstante, embora o texto ressalte a cura divina, o que aquele homem realmente precisava era do resultado da cura, a saber, dignidade. Ele queria fazer parte do grupo, desejava ser aceito, precisava de amor. Por anos a fio ansiou pelo dia em que adentraria o templo. Assim, uma vez curado, a primeira coisa que fez foi dirigir-se ao santuário (At 3.8), saltando e louvando a Deus. Por mais que fosse um lugar de rejeição, de hipocrisia, era lá que ele queria estar. Assim somos nós, ainda que nossas mágoas e decepções venham das relações humanas, não queremos deixá-las, porque precisamos uns dos outros. Alguém já afirmou que o ser humano é outro-dependente (quem depende do outro). Se não podemos negar a coletividade por sermos humanos, como cristãos temos de valorizá-la ainda mais. Até porque, não existe Cristianismo sem o próximo. A própria palavra empregada por Jesus para nomear o ajuntamento cristão (igreja), é, na sua origem, um termo plural (҆eklesia), que todos nós sabemos o significado (chamados para fora). Isto é, não existe igreja de um. Até porque, esta é um ambiente comunitário, tal como relatado em Atos 2. Não podemos, com base nos defeitos da igreja, nos afastar dela. Temos de reconhecer que, tal como o coxo, estávamos enfermos espiritualmente, caminhávamos para o inferno. Porém, em dado momento, alguém, que decidira ser igreja, nos mostrou o amor de Jesus Cristo. O mais interessante disso tudo, é que Pedro e João, antes de se depararem com o homem, se dirigiam ao templo para orar (At 3.1). Isto leva-nos a uma conclusão óbvia: ainda que dentro do templo haja hipócritas, discriminadores, legalistas, há também homens e mulheres de Deus que procuram viver o Evangelho. Devíamos olhar mais para essas pessoas, como fez o coxo. O problema é que focamos mais os “fariseus” do que os servos.
É claro, no entanto, que isso não nos exime de nos empenharmos para fazer da igreja um lugar melhor, onde a inclusão e o amor predominem. Pois, só assim atenderemos a maior necessidade do indivíduo, a saber, de unir-se ao outro. Este, na verdade, sempre foi o propósito divino. Desde o princípio Ele deixou claro que sua meta era tornar “um” aquilo que fora dividido. Esse retorno à unidade é incentivado ao longo de toda a Escritura, seja no ingresso na vida conjugal, ou na inserção no corpo de Cristo, o alvo é sempre a unidade. Porque, é exatamente disso que precisamos. A tão almejada autossuficiência é utópica. O Ser humano sempre busca associações. Até mesmo aqueles que abandonam a congregação (Hb 10.25) acabam se associando a outros que defendem as mesmas teses. Enfim, enxergar os problemas da igreja não deve nos levar a nos voltarmos contra ela. Ao contrário, essa constatação deve nos impulsionar a trabalharmos para fazermos uma igreja diferente, mais próxima do ideal promulgado por Jesus. O que se espera da igreja de Cristo? Que assuma o papel que Jesus lhe confiou, agregando em vez de segregar, amando ao invés de odiar, compreendendo em vez de discriminar, ajudando ao invés de apenas contemplar.


Pr. Cremilson Meirelles 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A IGREJA QUE FAZ A DIFERENÇA

Ultimamente, tenho me questionado a respeito da relevância de nossa igreja nessa localidade. Será que, de fato, temos feito a diferença. Mas, peraí, o que significa “fazer a diferença”? Essa expressão tem sido largamente empregada no meio evangélico. No entanto, poucos sabem seu significado. Acredito, que fazer a diferença é, acima de tudo, enxergar a realidade a partir de uma perspectiva que contraria as tendências naturais do ser humano corrompido, a saber, o egocentrismo, a indiferença em relação ao outro e a Deus, a supervalorização do dinheiro, e a divinização da estratificação social (divisão da sociedade em camadas ou castas distintas). A aplicação prática dessa visão é o que nos leva à fazer a diferença.
Essa maneira de ver o mundo assusta o homem caído, pois este adora a forma como as coisas são. Nós, entretanto, como igreja do Senhor, somos convidados a pensar e a agir diferente. Precisamos olhar ao nosso redor e perceber a necessidade, a carência que impera em nossa localidade. Não podemos enxergar apenas nossos umbigos, nem querer ser melhores do que os outros. É imprescindível que olhemos o outro com compaixão, tal como Jesus fazia. Ao invés de somente pregar o Evangelho, precisamos vivê-lo. Nossa ação na sociedade não pode se limitar a distribuição de folhetos ou cultos ao ar livre. Devemos buscar, de alguma maneira, modificar os aspectos negativos de nossa comunidade. Para tanto, é imprescindível que a igreja seja exemplo de relacionamentos saudáveis. Até porque, essa é uma das maiores carências da pós-modernidade. Não há como oferecer mudança de vida aos de fora se nosso comportamento não evidenciar isso. É necessário amar de fato, não somente de palavras. Não podemos vir à igreja e darmos mau testemunho lá fora. De nada adianta contribuir financeiramente com a causa de Jesus se não estivermos engajados nela.
Ser igreja não é viver de momentos, mas de relacionamentos, com Deus e com o próximo. O problema é que, às vezes, aquele a quem chamamos de próximo preferimos manter distante, transformando, na verdade, no “outro”, ou seja, qualquer um. Contudo, essa visão só pode ser modificada se nos empenharmos não só em “fazer”, mas muito mais em “ser” diferentes. Do contrário, corremos o risco de nos perdemos em infinitas atividades desprovidas de amor. Apenas, fazer por fazer. Afinal, “sempre fizemos assim”. Essa é uma afirmação que evidencia o ritualismo que tão de perto nos rodeia. Vamos mudar essa história!

  Pr. Cremilson Meirelles