sexta-feira, 21 de abril de 2017

HÁ RELAÇÃO ENTRE TIRADENTES E JESUS?

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
Resultado de imagem para pedro américo tiradentes

            Quem nunca percebeu a grande semelhança entre as representações do ícone da inconfidência mineira e a imagem popular de Jesus Cristo? Quantas vezes, por conta disso, as crianças confundem os personagens? Há alguns anos atrás, inclusive, fizeram uma pesquisa entre estudantes do ensino médio e fundamental, a fim de verificar se reconheceriam o personagem do quadro “Tiradentes Esquartejado”, do pintor e escritor paraibano, Pedro Américo (1843-1905). Apenas três alunos, dentre as diversas escolas públicas abordadas, reconheceu-o corretamente; os demais, o identificaram como Jesus. O mais impressionante, entretanto, é que o “Tiradentes” histórico nada tinha a ver com o que atualmente figura nos livros escolares. Afinal, ele era um “alferes”, uma patente de oficial abaixo de tenente na hierarquia militar; e, como militar, naturalmente, não usaria barba e cabelos compridos. Além disso, os presos da época tinham seus pelos e cabelos cortados, a fim de evitar piolhos, e, no momento da execução, os condenados à forca deveriam ter os cabelos e a barba raspados. Então, como explicar a semelhança pictórica entre ele e o Cristo? Eis a questão.

            De acordo com alguns historiadores, a paridade entre o herói da inconfidência mineira e o Filho de Deus não é uma coincidência. Na verdade, o “Cristo brasileiro” foi fabricado, no final do século 19, a fim de legitimar o governo republicano, recém-implantado no Brasil. Isto é, a intenção era, através de hinos, mitos, bandeiras e heróis implantar no imaginário popular a ideia da superioridade da república sobre a monarquia. Sem dúvida alguma, num país cristão, o melhor meio para alcançar esse objetivo seria encontrar semelhanças entre um herói da pátria e o herói do mundo: Jesus Cristo. Joaquim José da Silva Xavier se encaixou perfeitamente no papel. Até porque, tanto ele quanto Cristo foram martirizados, ambos morreram sem pegar em armas e foram traídos por um amigo. Só faltava acrescentar os cabelos longos e a barba! E foi exatamente o que os responsáveis pela propaganda pró-república fizeram. Assim, nasceu o primeiro ícone do pensamento republicano no Brasil, bem como a conhecida imagem do famoso “Tiradentes”, a qual foi divulgada por meio da pintura de Pedro Américo.

            Não obstante, comparar Cristo a um revolucionário que lutava por questões políticas locais é um grande absurdo. Porquanto, a obra redentora do Filho de Deus é infinitamente superior ao movimento mineiro do qual Tiradentes fazia parte. Enquanto o alferes morreu por um ideal político, Jesus morreu pelos seres humanos; enquanto Tiradentes foi surpreendido e enforcado, Cristo entregou-se para o martírio; enquanto o mineiro era apenas um homem, o nazareno era o próprio Deus encarnado; embora Joaquim José da Silva Xavier tenha permanecido morto, Jesus ressuscitou e ascendeu aos céus!

            Sendo assim, ainda que os livros vinculem, pictoriamente, Tiradentes a Jesus, saiba que tal associação é espúria, e não passa de invenção humana. Seu propósito já prescreveu. A república já “emplacou”, o território já está demarcado, não há mais a necessidade de propaganda. O sacrifício de Jesus, entretanto, deve continuar sendo divulgado até que Ele venha (1Coríntios 11.26).

Deus o abençoe!

        

Pr. Cremilson Meirelles

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
 

2 comentários:

  1. Texto excelente e nos serve de forma didática para desmistificar muitos "paradigmas" entre ambos os personagens citados.

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  2. Ótimo texto. Jesus é incomparável e sua obra é singular.

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