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POR QUE ELISEU NÃO REPREENDEU NAAMÃ?

INTRODUÇÃO

Muitos, ao concluírem a leitura da narrativa sobre a cura de Naamã (2 Rs 5.1-19), deparam-se com a mesma indagação: por que Eliseu, embora tenha se mostrado tão firme diante da incredulidade do general sírio, não o repreendeu quando este revelou, no último instante, que continuaria curvando-se no templo de Rimom ao lado do rei? Por que a resposta do profeta se resume a apenas três palavras (duas, no texto hebraico), “vai em paz” (v. 19), sem qualquer advertência, condição ou chamado ao rompimento imediato com a idolatria da corte síria?

Essa ausência de uma instrução explícita — nem aprovação, nem condenação — tornou o texto um dos casos mais discutidos de casuística moral em toda a história da interpretação bíblica, a ponto de, no século XVI, ter sido transformado em argumento central de uma controvérsia que dividiu a própria Reforma: o debate sobre o chamado “nicodemismo”.[1]

O silêncio do profeta parece sugerir que é lícito ao crente participar de cerimônias idólatras, desde que, em seu íntimo, reconheça o Deus Todo-Poderoso como único Senhor. Mas, se assim for, por que tantos cristãos se recusaram a fazer o mesmo? Seria dispensável o martírio daqueles que, a exemplo de seu Mestre, trilharam o caminho da cruz? É possível conciliar a atitude de Eliseu com a postura desses servos de Deus?

Reconheço que essas perguntas não podem ser facilmente respondidas. Afinal, Eliseu foi um agente de Deus num tempo em que a idolatria precisava ser confrontada. De fato, apesar de o rei Jorão ter removido a coluna de Baal erguida por seu pai (cf. 2 Rs 3.1-2), manteve os bezerros de ouro introduzidos por Jeroboão (cf. 2 Rs 3.3). Por isso, quando ele se uniu a Josafá (rei de Judá) e ao rei de Edom para guerrear contra Moabe, e os três procuraram Eliseu para consultar a Deus, o profeta o repreendeu severamente: “Que tenho eu contigo? Vai aos profetas de teu pai e aos profetas de tua mãe” (2 Rs 3.13).

Como esse homem de Deus que sucedeu a Elias, um profeta famoso por confrontar a idolatria, poderia concordar com a adoração a qualquer outra divindade? Seria, no mínimo, estranho. Por isso, o episódio registrado em 2 Reis 5.15-19 requer uma explicação plausível. Para tanto, será necessário analisar a Bíblia e a história. 

1. APARENTE CONTRADIÇÃO 

Em primeiro lugar, precisamos lidar com a impressão natural de que a resposta de Eliseu contradiz outros relatos bíblicos. Quando pensamos em Daniel, Hananias, Misael e Azarias, os quais preferiram enfrentar a morte a transigir em sua fidelidade a Deus (cf. Dn 3 e 6), essa contradição parece mais evidente. Outrossim, se considerarmos que Mardoqueu se recusou a prostrar-se perante Hamã, mesmo correndo risco de morte (cf. Et 3), a postura do profeta se torna mais estranha ainda.

Levando em conta que esses personagens viveram numa época posterior ao episódio de Naamã, é possível concluir que o exemplo do general sírio não foi tomado como um padrão a ser seguido. Por outro lado, a resistência de Daniel e seus amigos, bem como a firmeza de Mardoqueu foram reproduzidas por muitos, inclusive no período em que Israel já não contava mais com profetas. É o que se observa em 2 Macabeus 6-7,[2] quando um homem chamado Eleazar e sete irmãos preferiram a morte a comer carne sacrificada a ídolos.

Ademais, cumpre observar que o Novo Testamento não referenda a prática de Naamã. Pelo contrário, há orientações apostólicas que parecem vedar por completo a participação de cristãos em cultos pagãos. Senão vejamos: Paulo orienta os coríntios a fugir da idolatria (1 Co 10.14). O termo que nessa passagem é traduzido como “fugi”, o grego pheugō, transmite a ideia de “buscar segurança pela fuga”. Ou seja, o cristão permanece protegido justamente por manter-se afastado da idolatria, sem tomar parte em cerimônias pagãs.

Esse princípio é reforçado em 2 Coríntios 6.14-17 por meio de uma série de perguntas retóricas, cujo propósito é evidenciar a incompatibilidade entre a fé cristã e os costumes pagãos. Com esse objetivo, o apóstolo indaga: “que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos?”. Em seguida, conclui: “Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo, e eu vos receberei;” (2 Co 6.16-17; grifos nossos).

Essa declaração torna insustentável o comportamento de Naamã, sobretudo porque, como o mesmo apóstolo explica, os sacrifícios oferecidos aos ídolos são, na realidade, sacrifícios a demônios (1 Co 10.20). Diante disso, como poderia um crente em Jesus Cristo tomar parte nesses ritos? Não nos é permitido “beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios” (1 Co 10.21). Tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus (1 Co 10.31). Isso inclui o culto do qual participamos.

Tudo indica que esses foram os pressupostos que nortearam a decisão da igreja no Concílio de Jerusalém, quando foi ordenado aos cristãos que se abstivessem de práticas pagãs, como o consumo de alimentos sacrificados a ídolos e ritos imorais (At 15.28-29). Isto é, os primeiros cristãos rejeitaram abertamente qualquer mistura com o culto pagão, fixando um padrão válido para todas as gerações.

Isso não foi uma invenção apostólica. No Apocalipse, o próprio Jesus se pronuncia sobre essa questão, repreendendo as igrejas de Pérgamo e de Tiatira por tolerarem, em seu meio, pessoas que incentivavam práticas idólatras (Ap 2.14-16, 20-22). Além disso, em Mateus 4.10, ao evocar Deuteronômio 6.13, o Filho de Deus deixa claro que rejeita qualquer forma de adoração que não seja dirigida exclusivamente a Deus: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás”.

O serviço cúltico, portanto, não pode ser prestado a outras divindades: a fé cristã pressupõe ruptura com as práticas religiosas do passado. Com isso em mente, Paulo destaca que os tessalonicenses eram “exemplo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia” (1 Ts 1.7), elogiados em toda parte por terem se convertido dos ídolos a Deus “para servir o Deus vivo e verdadeiro” (1 Ts 1.9).

Creio que esses textos bastam para demonstrar que o Novo Testamento não subscreve a atitude de Naamã. No entanto, o contraste entre o ensino neotestamentário e a postura de Eliseu parece deixar ao intérprete apenas duas opções: o profeta falhou ou, pior, trata-se de uma contradição bíblica.

                Para resolver esse dilema, precisaremos analisar mais atentamente a conversa entre Eliseu e Naamã, levando em conta o contexto em que está inserida. 

 2. A ATITUDE DE NAAMÃ

             Para esclarecer a questão, é fundamental verificarmos a resposta de fé do general sírio, até porque, ele era oriundo de um ambiente pagão. Suas convicções foram confrontadas diretamente pela operação miraculosa do Deus de Israel, o qual requeria adoração exclusiva. Isso trazia uma série de implicações práticas.

            Após mergulhar sete vezes no rio Jordão, Naamã foi curado da lepra e “a sua carne tornou-se como a carne de um menino” (2 Rs 5.14). Como resultado, ele voltou à casa de Eliseu e, diante de sua comitiva, declarou: “Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel” (2 Rs 5.15). Ou seja, ele confessou publicamente a fé monoteísta.

            Entretanto, a atitude seguinte revela um traço da sua cultura que ainda o influenciava. Ele pede a Eliseu que o deixe levar um pouco da terra de Israel (2 Rs 5.17). A razão para isso era a crença de que os deuses de uma nação habitavam a terra ocupada por seus adoradores. Por conseguinte, quando o adorador deixava a terra, a divindade ficava para trás.[3] 

O pedido de Naamã, por outro lado, evidencia sua intenção de manter a adoração ao Deus de Israel mesmo fora da Terra Prometida. Com efeito, como explica Wiseman, a carga de terra serviria para estabelecer um fundamento sobre o qual seria erigido um altar ao Senhor.[4] Isso pode ser inferido da afirmação de que só ofereceria holocausto e sacrifício a Yahweh (cf. 2 Rs 5.17).[5]

            Ademais, em 2 Reis 5.18, o narrador parece querer enfatizar a convicção do general sírio, uma vez que construiu o texto numa estrutura de moldura;[6] de modo que a súplica inicial é retomada ao final:

 

Nisto perdoe o SENHOR a teu servo; quando meu senhor entrar na casa de Rimom para ali adorar, e ele se encostar na minha mão, e eu também tenha de me encurvar na casa de Rimom, quando assim me encurvar na casa de Rimom, nisto perdoe o SENHOR a teu servo. (grifos nossos).

 

           A ênfase na necessidade do perdão divino demonstra a consciência de que a prática era errada. Essa conclusão está alinhada com a declaração monoteísta que Naamã fizera em 2 Reis 5.15. Afinal, se não há outro Deus, qualquer participação em um culto dirigido a outra divindade, ainda que o participante não adore de fato, é, no mínimo, inadequada.

            Além disso, conforme demonstra Robert Alter no livro A arte da narrativa bíblica, o mecanismo literário da repetição é usado nas páginas do Antigo Testamento para expor o estado mental dos personagens.[7] No caso de Naamã a repetição do pedido de perdão dirigido a Yahweh e do nome de Rimom no contexto de adoração provavelmente indica sua hesitação e a preocupação diante daquilo que teria de fazer caso quisesse permanecer no cargo. É possível também que haja um aspecto positivo associado à repetição, visto que, ao pedir perdão antecipado, Naamã deixa claro seu desejo de manter o relacionamento com o Deus de Israel. 

Cabe salientar, porém, que o verbo empregado duas vezes para se referir ao perdão, solicitado, o hebraico yislaḥ, está no imperfeito, um aspecto verbal que indica uma ação incompleta, a qual pode referir-se ao passado, presente ou futuro.[8] O contexto da frase é que define o tempo. No texto em questão, o futuro é o que parece se alinhar mais com o restante da narrativa.

No entanto, as formas verbais que descrevem a cena no templo de Rimom são três infinitivos construtos (bô' e duas ocorrências de šāḥâ), um particípio (nišʿān) e um perfeito (šāḥâ). Assim, considerando que o infinitivo é marcado por indefinição temporal e o perfeito pode indicar uma ação completada, no passado ou no futuro,[9] alguns teólogos concluíram que em vez de referir-se a uma ação futura habitual (“sempre que eu tiver de me curvar”), Naamã estaria fazendo referência aos atos de idolatria anteriores à sua conversão. Sob essa perspectiva, ele estaria declarando que já havia se curvado na casa de Rimom, e não que iria se curvar. Isso mudaria substancialmente os termos do debate ético tradicionalmente associado ao texto, uma vez que o pedido de Naamã deixaria de ser uma antecipação de compromisso futuro para se tornar uma confissão penitencial de sua vida passada de idolatria.[10]

Apesar de ser atrativa e ter coerência argumentativa, essa tese parece destoar do entendimento majoritário dos tradutores, pois a ampla maioria das traduções opta pela leitura prospectiva, a qual parece mais natural gramaticalmente e mais coerente com o contexto. O versículo 17 esclarece isso, visto que registra a declaração de Naamã de que nunca mais ofereceria sacrifícios a outras divindades. Essa promessa de exclusividade associada ao “nisto” do versículo 18, indica que o que vem a seguir é uma exceção. Essa construção só faz sentido se o ato mencionado for futuro.  

Destarte, levando em conta que Naamã prometera adorar exclusivamente o Deus de Israel, é evidente que ele não planejava adorar Rimom como seu deus. O gesto físico de curvar-se seria mera cortesia protocolar ao rei que nele se apoiava, e não uma participação intencional na idolatria. Além disso, ao oferecer holocaustos e sacrifícios somente ao Deus de Israel, sua devoção seria pública; haja vista que o termo traduzido como holocausto, o hebraico ōlâ, dá a ideia de uma oferta totalmente queimada.[11] Ora, uma vez que ele queimaria ofertas ao Deus de Israel, a fumaça seria vista por outros; e considerando que essas ofertas eram animais sacrificados (cf. Lv 1.9,13), com certeza o cheiro alcançaria as narinas dos sírios.

Olhando por esse prisma, fica claro que Naamã não pretendia ser um seguidor secreto de Yahweh, nem queria se manter leal a Rimom. Na verdade, ele estava preocupado com uma situação concreta de coerção ritual ligada ao seu cargo; de sorte que o seu pedido revela consciência, não idolatria. Por isso, pede que o Senhor o perdoe.

Sua atitude está muito mais ligada à imaturidade que à rebelião. No entanto, sua fé é genuína, tanto que Jesus o mencionou como exemplo de um estrangeiro alcançado pela graça de Deus em contraste com a incredulidade dos habitantes de Nazaré (cf. Lc 4.24-27). Ou seja, a fé de Naamã, conquanto precisasse de ajustes, era verdadeira. 

3. A RESPOSTA DE ELISEU

             A resposta de Eliseu talvez seja o ponto mais polêmico dessa narrativa. Com base nela, alguns, no século XVI, argumentaram que, visando à preservação da vida e à manutenção da paz, os cristãos perseguidos estariam autorizados a participar de cultos dirigidos a outras divindades.

            Essa tese foi defendida por indivíduos que, embora fossem simpáticos ao protestantismo, viviam em regiões em que a adesão pública às ideias reformadas podia resultar em prisão, exílio, perda de bens, condenação pela Inquisição ou morte. Para eles, bastava conservar a fé verdadeira no coração, enquanto exteriormente continuavam assistindo à missa ou participando de cerimônias católicas.

            Calvino, na carta De fugiendis impiorum illicitis sacris, et puritate Christianae religionis observanda (1537), conhecida em inglês como On Shunning the Unlawful Rites of the Ungodly, comenta que aqueles que procediam dessa forma usavam a história de Naamã para encobrir sua covardia, afirmando que sua conduta estava alinhada com o que fora concedido ao general sírio pelo profeta Eliseu. Com base nisso, diziam: “se não era ilícito adorar no templo de um ídolo, por que não seria lícito adorarmos a Deus naqueles templos que foram dedicados ao Seu nome, ainda que pareçamos fazer outra coisa?”[12].

            Todavia, o problema relativo à prática de ritos de outras religiões existia desde os primeiros séculos da igreja cristã. Cipriano de Cartago, por exemplo, no tratado De lapsis, registra que, a fim de evitar o martírio, alguns cristãos do século III sacrificavam aos ídolos.[13] Aqueles que procediam dessa forma foram chamados lapsi, termo latino derivado de lapsus, que significa queda, deslize, erro. Quando essas pessoas tentavam retornar à igreja, alguns ofereciam resistência. Por essa razão, houve um grande debate teológico em torno desse tema.

            Não obstante, foram os nicodemitas que trouxeram a experiência de Naamã para o centro da controvérsia, pois, invocando o exemplo do general sírio, diziam manter a fé reformada ainda que participassem dos ritos católicos. Assim, por associação desse ocultamento da fé ao comportamento de Nicodemos, que aparentemente decidiu visitar Jesus à noite para não se expor publicamente, esse movimento passou a ser chamado de nicodemismo.

            Em resposta às teses nicodemitas, Calvino explica que, antes de fazer o pedido, Naamã prometera que não celebraria ritos a nenhuma outra divindade, a não ser ao Deus de Israel. Segundo o reformador genebrino, “essa promessa abrangia um testemunho pelo qual ele daria a conhecer a sua religião tanto ao rei quanto a toda a nação síria”.[14] O pedido, por conseguinte, não tinha a ver com a adoração a outros deuses, mas sim com o apoio físico que o general deveria oferecer ao seu rei.

            A interpretação de Calvino faz bastante sentido e parece estar em harmonia com o contexto. Porém, penso que cabem algumas observações relativas ao caráter pastoral da atitude de Eliseu. Uma delas diz respeito ao fato de que Naamã era um novo convertido, alguém que acabara de professar a fé no Deus verdadeiro, mas que estava inserido na corte de um rei pagão, onde acompanhar o governante ao templo de Rimom era parte de suas atribuições. O que ele tinha em vista, portanto, era continuar dando suporte ao rei, não para adorar outros deuses. Mesmo assim, pediu perdão, porque sabia que o ideal era não frequentar cultos de outras religiões. Esse detalhe muda tudo: Naamã não está racionalizando a idolatria, está reconhecendo, de antemão, que sua presença ali é imprópria.

            Naamã não estava desafiando a Deus. Sua declaração, na realidade, mostra que ele temia o Senhor. Entendendo isso e considerando o contexto, Eliseu respondeu: “vai em paz”. Essa frase não era uma sentença ética, mas uma fórmula de despedida, a qual aparece com frequência no Antigo Testamento (Êx 4.18; Jz 18.6; 1 Sm 1.17; 20.42; 2 Sm 15.9). Esse dado mostra que, embora haja intérpretes que leem a resposta do profeta como consentimento tácito, a frase não expressa necessariamente aprovação.

Por certo, depois da fala do general sírio, Eliseu percebera que o coração daquele homem estava travando uma batalha contra a idolatria. Como todo novo convertido, ele precisava ser aperfeiçoado por Deus. Sabendo disso, o profeta o confiou aos cuidados do Senhor, o qual continuaria operando em seu interior.

                Essa não é uma leitura isolada ou sentimental do texto. O próprio Jesus, em Lucas 4.25-27, cita a cura de Naamã como exemplo da graça de Deus alcançando os gentios — e o faz sem qualquer ressalva sobre o episódio do templo de Rimom. Se o Novo Testamento trata Naamã como um estrangeiro convertido, não é razoável que o leitor de hoje o trate como um caso de compromisso não genuíno. O silêncio de Eliseu, portanto, está em harmonia com o modo como toda a Escritura acolhe esse general sírio: como um homem cuja fé, ainda pequena, era real.

Convém, entretanto, guardar-se de um erro no sentido oposto. A paciência de Eliseu com Naamã não é uma licença geral para que qualquer crente, hoje, justifique acomodação deliberada diante da idolatria ou do mundanismo. Foi exatamente esse mau uso do texto que serviu de amparo ao nicodemismo. Por conta disso, é importante lembrar que uma das regras fundamentais da hermenêutica é interpretar o texto à luz do seu contexto; porque “a análise contextual é a mais válida forma de diferençar entre passagens descritivas e prescritivas”.[15] No caso em análise, 2 Reis 5 descreve o que Eliseu disse a um homem em circunstâncias específicas; não prescreve uma conduta para todos os crentes. 

4. ENTRE A FRAQUEZA E A REBELIÃO 

Tudo isso permite compreender a atitude do profeta: Eliseu não repreendeu Naamã porque discerniu, com sabedoria dada por Deus, que diante dele não estava um coração rebelde procurando uma desculpa para pecar, mas um coração ainda frágil, sincero e temeroso diante da própria fraqueza. Repreendê-lo seria o mesmo que confundir o começo da santificação com a sua ausência.

O contraste entre Naamã e Geazi, o moço do profeta, é evidente. Enquanto o general sírio se preocupa com uma falha que ainda nem cometeu, Geazi peca deliberadamente, mentindo e pedindo dinheiro em nome de Eliseu (2 Rs 5.20-27). Como paga por sua desobediência, recebe a lepra de Naamã. Essa diferença revela algo sobre os corações dos personagens e ilustra a distinção entre a fraqueza de um novo convertido e a rebelião de Geazi.

Portanto, para quem se reconhece hoje na fragilidade de Naamã, lutando contra um pecado que teme e do qual já se arrepende, o silêncio de Eliseu é, na verdade, uma palavra de graça: Deus não apaga o pavio que fumega (cf. Is 42.3; Mt 12.20). Mas, se o indivíduo já conhece o caminho e apenas busca uma desculpa para não andar nele, esse mesmo texto não oferece abrigo algum.

É preciso que cada cristão se lembre do que Jesus disse acerca dos que o negam: “qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.33). É claro que isso não significa que aqueles que cederem diante de circunstâncias difíceis, mas se arrependerem depois, não serão restaurados por Deus. Basta recordar o episódio em que Pedro negou Jesus três vezes (cf. Mt 26.69-75), no qual o mesmo verbo grego, arneomai (negar), usado na fala de Jesus, foi empregado pelo evangelista. Ainda assim, o discípulo foi restaurado, comissionado de novo pelo Cristo ressurreto (Jo 21.15-17), e tornou-se o pregador do Dia de Pentecostes.

Isso se encaixa exatamente na distinção que vimos na história de Eliseu e Naamã: a Escritura trata de modo diferente a fraqueza de quem se arrepende e a rebelião que persiste sem remorso. A negação de Pedro, como a dos lapsi arrependidos, foi fraqueza diante do medo da morte. Algo grave, mas não definitivo, porque houve arrependimento. A diferença não está na gravidade do ato externo, mas na direção do coração depois dele.

Convém ressaltar, porém, que nada disso torna a negação um pecado pequeno, nem oferece conforto barato a quem pensa em negar Cristo contando de antemão com o arrependimento posterior. Esse, definitivamente não era o caso de Naamã. Ele não pretendia negar Yahweh nem cultuar Rimom. Mas aqueles que decidem negar a fé deliberadamente têm de levar em conta que Mateus 10.33 continua sendo uma advertência séria 

CONCLUSÃO 

Ao longo deste artigo, procuramos entender por que Eliseu, sucessor de um profeta conhecido por confrontar a idolatria, despediu Naamã com um simples “vai em paz”. Vimos que o Novo Testamento não referenda a participação em cultos pagãos; que o general sírio não pretendia adorar Rimom, mas sabia que sua presença naquele templo estava longe do ideal e, por isso, pediu perdão; e que as palavras do profeta não foram uma sentença ética, e sim uma despedida pastoral.

Com isso, o dilema apresentado no primeiro tópico se desfaz: nem o profeta falhou, nem a Bíblia se contradiz. Eliseu não aprovou a idolatria. Ele acolheu um novo convertido que acabara de romper com os deuses da Síria, que pedia perdão antes mesmo de ser acusado, e o confiou aos cuidados do Senhor. O padrão continua sendo aquele que Daniel, seus amigos, Mardoqueu e tantos cristãos seguiram ao custo da própria vida. O martírio deles não foi dispensável: foi a expressão madura da mesma fé que, em Naamã, apenas começava.

Portanto, o silêncio de Eliseu não autoriza ninguém a esconder a fé, tampouco fecha a porta a quem ainda dá os primeiros passos. A história de Naamã nos ensina a tratar com paciência os que estão começando e a exigir de nós mesmos a firmeza de quem já conhece o caminho. O general voltou para casa curado, levando terra de Israel para adorar o único Deus no meio de um povo idólatra. O profeta não lhe deu uma permissão nem uma condenação; despediu-o em paz, certo de que o Senhor continuaria a obra iniciada naquele coração.   

Pr. Cremilson Meirelles



[1] Nicodemismo é um termo cunhado no século XVI e popularizado por João Calvino. O nome deriva de Nicodemos, um fariseu, membro do Sinédrio, que, embora admirasse Jesus, o visitou à noite por medo das autoridades judaicas (cf. Jo 3.1-2). Com base nisso, os reformadores passaram a usar a expressão para referir-se aos cristãos que fingiam aderir à religião oficial de sua nação enquanto mantinham suas verdadeiras crenças em segredo. 

[2] Livro da Bíblia Católica que narra uma história ocorrida no período intertestamentário.

[3] Cf. WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. Antigo Testamento: volume II, Histórico. Santo André, SP: Geográfica editora, 2006, p. 511.

[4] WISEMAN, Donald J. 1 e 2 Reis: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 183.

[5] O fato de Naamã empregar o tetragrama mostra que sabia muito bem quem era o Deus ao qual queria servir. Era o Deus dos israelitas, e não apenas de Eliseu. Afinal, o nome divino estava associado ao povo e não somente ao profeta.

[6] Uma estrutura textual de moldura é um recurso literário e retórico em que um autor “emoldura” um trecho central do texto repetindo, no início e no fim desse trecho, um termo, uma ideia, uma expressão ou um tema semelhante — criando o efeito visual e conceitual de uma moldura ao redor do conteúdo interno. Com isso, sinaliza ao leitor onde uma unidade de pensamento começa e termina, e frequentemente destaca o que está no meio como o ponto central ou mais importante da estrutura.

[7] ALTER, Robert. A arte da narrativa bíblica. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[8] Cf. GUSSO, Antônio Renato. Gramática instrumental do hebraico. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 163.

[9] Cf. KERR, Guilherme. Gramática elementar da língua Hebraica. 3. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1980, p. 112.

[10] Essa tese é defendida por John Gill no livro Exposition of the Old and the New Testament.

[11] Cf. MERRILL, Eugene H. ‘lh. In: VANGEMEREN, Willem A. Novo dicionário internacional de teologia e exegese, v. 3. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 403.

[12] CALVIN, John. On Shunning the Unlawful Rites of the Ungodly and preserving the purity of the Christian religion. A letter by John Calvin, to his dear and very excellent friend, N. S. Reformed Presbyterian Church, 2016. Disponível em: <https://www.covenanter.org/reformed/2016/5/10/on-shunning-the-unlawful-rites-of-the-ungodly>. Acesso em: 02 out. 2026.

[13] Isso passou a ocorrer porque o imperador Décio, em 249 d.C., emitiu um decreto que ordenava que todos os habitantes do Império oferecessem sacrifícios aos deuses [cf. SOARES, Carolline da Silva. Decius restitutor sacrorum: o edito de Décio e a ruptura política em relação à perseguição aos cristãos no Império Romano (século III d.C.), Anais da Semana de História UFES 10, 2016, p. 1-8].

[14] CALVIN, 2016.

[15] VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: princípios e processos de interpretação bíblica. São Paulo: Vida, 2001, p. 65-66.

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