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NOVO NORMAL COISA NENHUMA!

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Recentemente, em razão do isolamento social decorrente da pandemia, a expressão “novo normal” se popularizou nos círculos políticos, acadêmicos, midiáticos e eclesiásticos. Isso porque, de acordo com alguns, a proliferação do corona vírus trouxe mudanças definitivas para a sociedade. De sorte que, nem mesmo a descoberta da cura poderá resgatar o estilo de vida anterior. Pois, segundo os proponentes dessa tese, doravante as pessoas ficarão tão amedrontadas e habituadas às facilidades da internet que os cuidados sanitários e as atividades à distância serão permanentemente incorporados ao cotidiano.
Conforme esse prognóstico, as igrejas jamais serão as mesmas depois desse longo período de enfrentamento do vírus. Os encontros presenciais serão totalmente substituídos por “lives” e transmissões online. Afinal de contas, a quarentena provou que tudo o que a igreja outrora fazia presencialmente pode ser realizado, de forma mais confortável, via internet.
Todavia, essa teoria esbarra em algumas dificuldades. A primeira delas é etimológica. Porquanto, o vocábulo “normal” vem do latim norma, que significa esquadro, regra, norma, modelo[1]. Daí veio o sentido de estar “de acordo com as medidas”, “de acordo com as regras”[2]; o que, segundo Lalande[3] indica “aquilo que não se inclina nem para a esquerda nem para a direita”. Ou seja, normal é aquilo que é modelo, padrão de como as coisas devem ser ou acontecer. Na medicina isso fica bem claro. Haja vista que, geralmente, um paciente procura um médico com o intuito de restabelecer o estado de harmonia biológica abalado por uma enfermidade ou acidente. Isto é, seu desejo é voltar ao normal.
Sob esse prisma, o normal não é variável. O que é normal hoje também o será amanhã. Pois, há uma norma evidenciada pela harmonia do corpo. É claro, entretanto, que quando se trata de usos e costumes, o normal varia de acordo com a cultura. Há lugares, por exemplo, em que comer insetos e cachorros é considerado normal. Isto é, dependendo do contexto, o normal pode ser subjetivo. Contudo, na vida cristã existe uma regra de conduta que transcende a cultura, a saber, a Bíblia Sagrada. É ela quem define o normal cristão, e não os fatores conjunturais. Logo, não importa o que aconteça, o padrão de conduta para a igreja continuará sendo o mesmo. Não haverá um “novo normal”. A não ser que haja uma nova Bíblia. Mas, se houver, segundo Gálatas 1.8, terá de ser considerada anátema.
Outro problema com a ideia do “novo normal” é que ela está na contramão do desejo popular. As pessoas não querem ser obrigadas a um novo padrão de comportamento. Elas querem apertar as mãos, se abraçar, se beijar, se reunir para confraternizações, celebrações etc. Ou seja, elas querem o “velho normal”, o normal de sempre, o normal normal. A maioria dos que professam a fé em Cristo, por exemplo, anseiam pela normalidade anterior, e não por uma nova normalidade. Os crentes querem retornar aos templos e cultuar a Deus coletivamente. Basta fazer uma enquete entre os evangélicos do país para constatar isso.
Mesmo assim, há quem defenda que, após a pandemia os cristãos não vão querer mais congregar fisicamente, mas virtualmente. Como se isso fosse possível! Ora, não existe vida comunitária no ambiente virtual. A utilização das mídias para estudo da Palavra e transmissão de cultos é um paliativo. Não podemos nem ao menos cogitar a possibilidade de restringir a “comunhão” da igreja a esse ambiente. O livro de Atos mostra claramente que os discípulos, além de observar a doutrina dos apóstolos, compartilhavam uma vida juntos (At 2.46), e cada indivíduo convertido era acrescentado ao grupo para ser discipulado e desfrutar daquela comunhão (At 2.47). Mesmo em meio as perseguições, os cristãos primitivos se reuniam para cultuar! No entanto, lamentavelmente, hoje em dia, aos olhos de alguns, eles seriam considerados imprudentes. Isso porque, seu procedimento punha em risco suas vidas. Mas, o culto coletivo era considerado tão importante que não podia ser abandonado. Ainda que isso pudesse levá-los à morte.
No entanto, a despeito da disposição cúltica dos primeiros cristãos, os defensores do “novo normal” se valem da atmosfera de insegurança para sustentar seu ponto de vista. O argumento é basicamente o seguinte: se um estilo de vida põe em risco a sobrevivência humana, tem de ser mudado. Seguindo esse raciocínio, sugerem que a proliferação do corona vírus constitui um alerta. Afinal, novos vírus podem surgir. Diante disso, é preciso remodelar as relações sociais, a fim de gerar um padrão que garanta a perpetuação da humanidade[4].
Em resumo, o mesmo ser humano que não conseguiu evitar a pandemia, e nem erradicá-la, pretende, mais uma vez, confiar em si mesmo para prover segurança; e, para alcançar esse fim, está disposto a sacrificar aspectos preciosos da vida em sociedade, substituindo-os pela vivência virtual, acreditando que são experiências equivalentes.
Não obstante, desconfio que há um propósito subjacente à propagação desse novo clichê. A base para essa desconfiança é o pensamento da filósofa Hannah Arendt acerca dos clichês. Porquanto, “o clichê para a pensadora alemã é mais do que conforto preguiçoso ou convencionalismo de estilo. É uma ferramenta linguística que ideologias usam para induzir letargia crítica, indiferença, distância entre pensamento e realidade”[5]. Isto é, trata-se de uma ferramenta de doutrinação, cujo escopo é a implantação de um modus vivendi que viabilize a exclusão da religião do espaço público, relegando-a a manifestações restritas a quem possui um link. Uma aplicação prática da privatização da religião proposta por Richard Rorty, em seu artigo “Anticlericalismo e ateísmo”[6].
Entretanto, embora isso seja preocupante, acredito que, para os cristãos genuínos, a adoração coletiva e presencial jamais será obsoleta. Haverá sempre um remanescente que não se dobrará ante a ditadura do secularismo. Para esses, o anormal nunca alcançará o status de normal e o estado de exceção jamais será tornado regra. Porque, sua única regra de fé e prática é e continuará sendo a Palavra de Deus. Infelizmente, por outro lado, sempre haverá quem ceda aos cuidados do mundo e ao zeitgeist [7], variando o normal de acordo os ditames midiáticos. Em relação a esses, só nos resta alertar e interceder.
Pr. Cremilson Meirelles
 




[1] FARIA, Ernesto. Dicionário escolar latino português. Ministério da Educação e Cultura,1962, p. 650.
[2] Disponível em: https://www.dicionarioetimologico.com.br/normal/
[3] Apud CANGUILHEM, George. O normal e o patológico. Tradução de Maria de Thereza Redig de Carvalho Barrocas. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009, p. 48.

[4] SCHIRATO, Maria Aparecida Rhein. Novo normal: entenda melhor esse conceito e seu impacto em nossas vidas. Disponível em: https://www.insper.edu.br/noticias/novo-normal-conceito/ Acesso em 16 de julho de 2020.

[5] RODRIGUES, Sérgio. 'Novo normal' é o novo anormal: por que o clichê mais repetido de 2020 é uma falácia perigosa. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2020/07/novo-normal-e-o-novo-anormal.shtml Acesso em 17 de julho de 2020.

[6] SUGIZAKI, Eduardo; ROSA, Mário F. F.; e SILVEIRA, Ronie. Privatizar a religião? Uma discussão com o pragmatismo americano. Disponível em: https://ciberteologia.com.br/assets/pdf/post/privatizar-a-religiao-uma-discussao-com-o-pragmatismo-americano.pdf Acesso em 17 de julho de 2020.
[7] Termo alemão cuja tradução significa espírito da época ou sinal dos tempos, mas, em uma tradução mais apurada: espírito do tempo.
NOVO NORMAL COISA NENHUMA! NOVO NORMAL COISA NENHUMA! Reviewed by Pr. Cremilson Meirelles on 01:54 Rating: 5

9 comentários:

  1. Meu amado irmão e amigo, pastor Cleonilson! Que prazer para mim verificar que a capacidade que Deus te confiou como despenseiro, ultrapassou os púlpitos chegando de forma profícua as redes sociais, como hoje se vê.
    Quero deixar meu breve comentário. Temos uma mídia corrupta e doutrinada pelo marxismo cultural que impõe àqueles que os assistem o pânico por algumas razões claras:
    1- querem derrubar o melhor presidente da república que o Brasil já teve.
    2- a permanência desse presidente está custando a perda de grandes fortunas para eles, começando pelo fim das publicidades como Petrobras, banco do Brasil, Caixa econômica, governo federal e outros...
    3- o presidente Bolsonaro é um grande empecilho para a principal emissora de TV, rede Globo, de continuar a difundir seus vírus destruidores de famílias e, por conseguinte, da sociedade.
    4- o atual presidente da república tem feito o possível para estancar o avanço do fórum de São Paulo, organização comunista, que tem como objetivo comunizar a América Latina, dentre outros.
    5- por fim, usam o fenômeno chamado coletivo, senso comum para difundir o pânico e, assim, desestabilizar a nação, atingindo em cheio a última trincheira, que é ao mesmo tempo, a principal, a igreja de Jesus Cristo, pois está defende todos os princípios da democracia, como direito a liberdade de expressão, culto, direito a opinião, a propriedade privada, e , principalmente os valores morais, esse último, um ultraje para a imprensa tradicional, em especial a rede Globo.
    Finalmente, é hora do povo de Deus se voltar para as Escrituras Sagradas, pois estamos vivendo as dores se parto, e tem cristão que talvez não vá nem saber a que dores me refiro... Jesus está voltando para buscar a Sua igreja! É urgente a necessidade de nós, povo de Deus, nos conformarmos a semelhança de Jesus Cristo, não nós conformarmos com este mundo "normal!"
    Ótima análise sua. Penso exatamente igual.
    Grande abraço do seu irmão em Cristo,
    Pastor Samuel Coutinho Pinheiro.

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    1. Caro amigo Pr Samuel Coutinho Pinheiro, agradeço o carinho, mas o autor do artigo é meu amigo Cremilson. Verdade que dá pra confundir nossos nomes. Cremilson e Cleonilson. Hehehe. Valeu. Abraço

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  2. A propósito, o Pr Cremilson é um excelente escritor, pregador e palestrante. Um servo de Deus.

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  3. Pr Cremilson. Este artigo precisa ser amplamente divulgado.

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  4. Desculpe-me, pastor Cremilson! Os nomes são de fato semelhantes! Ainda mais que tomei conhecimento do blog através do status do ZAP do pastor Cleonilson...kkkkk
    No final, o que importa é que tú és servo de Deus e que o artigo está ótimo!
    Já estou divulgando!
    Grande abraço!

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  5. Mais um excelente artigo desse meu amigo e irmão, que passou de aluno (em disciplina secular) a professor (disciplina teológica), isto digo com o orgulho de ver um servo de Deus se esmerando por entregar ao mundo o melhor que ele pode fazer em prol do Reino.
    Sua jornada nos inspira e desafia a buscarmos crescimento em direção à semelhança com o Rei que venceu, o mundo o pecado e a morte.
    Concordo irrestritamente com o posicionamento do amado irmão.
    Um forte abraço,
    Seu conservo
    Pr. Roberto Gaviorno.

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