quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O HOMEM E O CELULAR

O homem pós-moderno vem, gradativamente, realizando a transição da condição de homo sapiens para homo roboticus. É cada vez mais patente a dependência humana da tecnologia. A internet, por exemplo, alcança novos adeptos a cada dia. Até mesmo aqueles que eram avessos ao mundo virtual já têm se rendido a essa nova realidade. Isto fica evidente quando observamos o número de linhas de celular possuídas pelos consumidores brasileiros. Porquanto, embora o país tenha uma população de cerca de 200 milhões de pessoas, há no Brasil aproximadamente 270 milhões de linhas de celular.
No passado, comprar uma linha telefônica era privilégio de poucos, pois o custo era altíssimo. Atualmente, ao contrário, é muito fácil. Basta comprar um chip e instalar em um telefone celular. Por conta dessa facilidade, esses aparelhos se tornaram muito mais comuns do que papel e caneta. Afinal de contas, eles fazem de tudo. Além de realizar chamadas, calculam, informam as horas, armazenam dados, fotografam, acessam internet, exibem vídeos, tocam músicas, enviam mensagens de textos, servem como videogame, etc.
Em função dessa versatilidade, a maioria das pessoas acabou se tornando dependente desses aparelhos. Pode-se esquecer de qualquer coisa, menos do celular. Sem ele, alguns ficam completamente perdidos. Há inclusive quem durma com o celular ao lado da cama. Muitos não desgrudam nunca do telefone. Será que isso é saudável? Não estaríamos substituindo as pessoas por aparelhos?
Recentemente, um estudo realizado nos Estados Unidos revelou que 75% das mulheres creem que os smartphones interferem em seus relacionamentos amorosos[1]. Isto porque, seus companheiros estão tão viciados nos aplicativos de bate papo que não tiram os olhos de seus aparelhos, mesmo durante uma conversa presencial. Cenas desse tipo podem ser vistas diariamente, nas ruas, shoppings, praças, lanchonetes, etc.
Até o homo religiosus cedeu ante essa força tecnológica. Nos cultos evangélicos, por exemplo, sempre há pessoas que ignoram os pregadores e acessam seus smartphones ao longo de todo o momento de culto. Algumas não conseguem se controlar e, mesmo exercendo funções na igreja, continuam utilizando seus aparelhos. Parece que nem a ideia de que Deus está presente pode freá-las.
Ruy Castro, colunista do jornal Folha de São Paulo, discorrendo sobre os males decorrentes dessa embriaguez tecnológica, asseverou que, além de prejudicar os relacionamentos, os smartphones podem trazer malefícios ao corpo. Porquanto, conforme adverte, “cidadãos habituados a usar o smartphone enquanto caminham pela rua tendem a torcer o pé em buracos no calçamento, ser tragados por bueiros, tropeçar no meio-fio, abalroar-se uns aos outros”, podendo ainda ser atropelados por um pipoqueiro ou terem seu aparelho afanado por um pivete.
Não obstante, mesmo diante dessas dificuldades, sabemos que os smartphones têm sua utilidade. Só o fato de podermos nos comunicar imediatamente com quer que seja, onde quer que estejamos, já faz desse aparelho uma ferramenta valiosa para o ser humano. Entretanto, é necessário ter prudência ao usá-lo. A Bíblia diz em 1Coríntios 6.12, que embora todas as coisas nos sejam lícitas, não podemos nos deixar dominar por nenhuma delas. Isto é, ainda que seja lícito utilizar smartphones, não podemos deixar que eles nos dominem. Somos nós que devemos exercer controle sobre ele, e não o contrário.
Criticamos os tabagistas e os alcoólicos, mas em outras áreas da vida agimos exatamente como eles, deixando que um objeto inanimado nos domine. Deus não nos criou para isso. Na verdade, ao criar o homem, o Senhor lhe ordenou que exercesse domínio sobre a criação (Gn 1.28), não que fosse dominado por ela. Contudo, como resultado do pecado, vemos hoje um quadro totalmente diferente: homem dominando homem e aparelhos exercendo o mesmo domínio sobre a humanidade.
É impressionante, mas ainda que o ser humano aspire à divindade, tentando exercer controle sobre tudo, acaba fazendo algo que Deus jamais faria: inventa coisas que o dominam e se prostra diante delas. É assim desde o princípio. Antes, os objetos que exerciam esse papel eram as imagens que representavam deuses, hoje são os aparelhos eletrônicos. Tal como o carpinteiro, mencionado em Isaías 44.13-17, que, contraditoriamente, da mesma madeira usada para a fogueira esculpe um ídolo, o homem pós-moderno com o mesmo elemento químico, o lítio, tanto produz analgésicos como também baterias para smartphones, diante dos quais, diariamente se prostra, a fim de comunicar-se com o “transcendente” mundo virtual.
No entanto, apesar de todos os “poréns” destacados até aqui, conforme foi dito acima, não tenho a intenção de descartar a utilidade dos smartphones. Até porque, isso é inegável. Esses aparelhos facilitaram muito a comunicação. Minha crítica, na verdade, é ao vício de seus usuários, os quais deixam de se relacionar presencialmente com familiares e amigos para fazê-lo por meio de um computador de mão. Porquanto, infelizmente, o órgão destinado à comunicação deixou de ser a boca e passou a ser os dedos. 
Ao fazer uma leitura dos relacionamentos pós-modernos, Zygmunt Bauman sublinha que as relações do mundo virtual têm estabelecido o padrão que orienta todo tipo de relação. Isto é, por causa da sensação de controle e segurança que a internet dá ao indivíduo, uma vez que este pode abandonar os relacionamentos sem os prejuízos da vida real. “A união só se mantém na medida em que sintonizamos, conversamos, enviamos mensagens. Se você interromper a conversa, está fora. O silêncio equivale à exclusão” (BAUMAN, 2004, p. 52). Por isso, eles preferem o digital ao físico. Pensando assim, Bauman defende que, na atualidade, o virtual se tornou a realidade enquanto o físico ficou relegado a um segundo plano, de modo que este tem que se adequar àquele.
Tudo isso concorre para a liquefação dos laços entre as pessoas. O smartphone substitui o melhor amigo, os pais e até o cachorro. Os mais jovens leem diversos textos carregados de bobagens, alimentando a cultura da cabeça vazia. É... a situação é crítica! Precisamos rever isso, do contrário nos tornaremos cada vez mais dependentes da tecnologia, abandonando o outro e, quiçá, o próprio Deus.
Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

CASTRO, Ruy. Queixo duplo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2014/05/1452884-queixo-duplo.shtml. Acesso em: 12 mai. 2014.





[1] http://ela.oglobo.globo.com/vida/estudo-75-das-mulheres-creem-que-smartphones-interferem-nos-seus-relacionamentos-14771622

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O QUE NÃO É EVANGELIZAR

            Desde o início da caminhada cristã aprendemos que temos uma missão: evangelizar. Embora nem todos a cumpram, sempre há crentes preocupados em realizá-la. Estes buscam diversas maneiras de por em prática o “ide”. Contudo, ainda que o façam com o desejo sincero de levar pessoas a Cristo, muitos acabam, na verdade, não evangelizando. Isto porque, partindo de um entendimento equivocado acerca da Grande Comissão (Mateus 28.19), dedicam seu esforço a algo que, em essência, não é evangelização.
            Acredito que esses erros se devem, em parte, à forma como se entende a ação da igreja atualmente, ou seja, a ideia de que tudo se resume àquilo que se faz no templo. Pensando assim, a grande maioria dos evangélicos conclui que, convidando alguém para participar de uma programação no templo de sua igreja, está evangelizando; o que não é verdade. Porquanto, ao fazer o convite, o indivíduo está apenas divulgando um evento; e pior ainda, está transferindo a responsabilidade da pregação do evangelho para o Pastor, se eximindo de uma tarefa que lhe cabe. Por causa dessa visão, muitos passam a crer que se não há conversões a “culpa” é da programação que foi apresentada. Ou foi a pregação que não estava boa, ou o louvor que desafinou, ou o pastor que estava “na carne”.
            Essas ideias, conquanto sejam bastante comuns, são completamente erradas. A missão de evangelizar é responsabilidade de cada crente. Mas o que é evangelizar? É apresentar o Evangelho, não convidar alguém para um evento chamado culto. Significa divulgar o plano divino de salvação. Isto cada discípulo de Cristo deve fazer. Não basta contribuir financeiramente para um trabalho missionário. É você quem deve anunciar! Até porque, contribuir com missões não é apresentar o Evangelho. É ajudar aqueles que proclamam a Palavra. Isto é, dar dinheiro para missões não cumpre o “ide”. Pois, “ide” é uma ordem particular dada a cada um de nós. Portanto, devemos contribuir e também ir.
            Outra prática que confundimos com evangelização é a distribuição de folhetos, uma das mais tradicionais estratégias de divulgação das boas novas. Normalmente, saímos às ruas com folhetos nas mãos e, muitas vezes, os distribuímos sem dizer uma palavra a quem recebe. Mesmo assim, voltamos satisfeitos entendendo que evangelizamos. No entanto, quem evangelizou de fato foi o escritor do folheto. Ele sim tomou a iniciativa de apresentar o evangelho. Nós, ao contrário, acabamos transferindo a responsabilidade para um pedaço de papel.
            O folheto, na verdade, é apenas um recurso, mas ele não é o evangelista. O evangelista é você, sou eu, somos nós. O Evangelho é uma mensagem. Logo, precisa ser comunicada, seja de forma escrita ou falada. Entretanto, não podemos esquecer que se trata de uma missão individual e intransferível. Por isso, ao invés de somente convidarmos as pessoas para o culto, devemos iniciar relacionamentos intencionais com elas a fim de apresentar-lhes o plano de salvação, assim como Jesus fez com a mulher samaritana (João 4.5-42).
            Todavia, é necessário estarmos bem atentos, visto que, mesmo quando deixamos de lado os convites vazios e as silenciosas distribuições de folhetos e decidimos falar acerca de Jesus, corremos o risco de não apresentar o Evangelho. Isto ocorre porque nos ensinaram que compartilhar o testemunho pessoal de conversão é evangelizar. Seguindo esse raciocínio, nos limitamos ao relato de experiências particulares, julgando que, assim, estamos apresentando o Evangelho. Ledo engano.
            Nada pode substituir o Evangelho! Até porque, como falamos, ele é uma mensagem, não um testemunho pessoal. A experiência, sem dúvida, pode servir como evidência do poder transformador de Cristo, mas não é o Evangelho. Afinal de contas, o Evangelho é a boa notícia de que, embora o homem seja um pecador miserável e depravado que não merece mais nada a não ser a morte, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Apregoemos pois, esta mensagem de amor a toda criatura. Deus o abençoe!
Pr. Cremilson Meirelles