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O LUGAR DOS ANIMAIS NA FAMÍLIA: UMA ANÁLISE TEOLÓGICA À LUZ DAS ESCRITURAS

Introdução

Nas últimas décadas, tem-se observado um processo crescente de humanização dos animais domésticos nas sociedades ocidentais. Expressões como “filho de quatro patas” e a celebração de festas de aniversário para cães e gatos deixaram de ser exceção para se tornarem prática socialmente aceita; um fenômeno que já alcança também comunidades cristãs.

Desde 1985, o rito de bênção de animais figura no Livro de Oração Comum da Comunhão Anglicana no Brasil,[1] e, em 2021, uma comunidade neopentecostal de Goiânia anunciou publicamente um culto voltado a animais de estimação,[2] episódio que obteve ampla repercussão midiática.

Diante desse quadro, impõem-se questionamentos de ordem teológica: esse comportamento encontra fundamento nas Escrituras? Trata-se de uma questão adiafórica,[3] que pode ser relativizada, ou há implicações doutrinárias relevantes em jogo? Qual é, afinal, o lugar dos animais na ordem da criação e qual é o significado bíblico de família? Embora à primeira vista pareçam triviais, tais perguntas exigem resposta cuidadosa, pois podem revelar as motivações, teológicas ou culturais, que sustentam a crescente antropomorfização dos animais na atualidade.

O presente artigo propõe-se a examinar essa questão à luz das Escrituras, com especial atenção ao relato da criação em Gênesis 1 e 2, buscando oferecer aos leitores fundamento para uma reflexão bíblica mais profunda sobre o tema. A exposição está organizada em quatro partes: primeiramente, discute-se a distinção ontológica entre seres humanos e animais, estabelecida na ordem da criação; em seguida, examina-se a família bíblica como comunidade de iguais que reflete a comunhão trinitária; na sequência, aborda-se a natureza do domínio humano sobre os animais; por fim, discutem-se as consequências espirituais decorrentes da inversão dessa ordem.

1 - A distinção ontológica entre o ser humano e os animais na ordem da criação

Um exame adequado do ensino bíblico sobre a relação entre seres humanos e animais deve necessariamente partir do livro de Gênesis, por ser este o texto que narra a origem de todas as coisas e revela a vontade de Deus para a criação. Em Gênesis 1.24-27, o texto bíblico estabelece uma distinção fundamental entre os seres humanos e as demais criaturas: os animais são criados “conforme a sua espécie” (v. 24), ao passo que o ser humano é criado “à imagem e semelhança de Deus” (v. 26-27).

Essa diferença não é meramente biológica, mas ontológica. Ao homem e à mulher foram conferidos atributos ligados à imago Dei[4] — racionalidade, consciência moral, capacidade espiritual e relacional —, os quais não são compartilhados pelos animais, ainda que estes sejam reconhecidos como criaturas boas de Deus. Essa distinção é o único fundamento que permite ao ser humano relacionar-se com o Criador de modo consciente e responsivo, mediante fé, oração e obediência — possibilidades categoricamente vedadas aos animais.

É importante observar que a continuidade dessa condição após a queda é atestada pelo próprio texto bíblico: em Gênesis 5.3, afirma-se que Adão gerou um filho “à sua semelhança, conforme a sua imagem”, e em Gênesis 9.6 a proibição do homicídio é fundamentada no fato de que o ser humano “conforme a sua imagem” foi feito por Deus. Tais textos indicam que a imago Dei, embora afetada pela queda, não foi extinta, permanecendo como fundamento da dignidade humana ao longo de toda a narrativa bíblica.

Merece atenção, ainda, a expressão “animais domésticos”, presente em algumas traduções do texto de Gênesis 1.26 (a exemplo da Almeida Revista e Atualizada). Tal expressão não se refere a animais de estimação no sentido moderno do termo, mas a animais domesticados para serviço e subsistência, como bois e ovelhas. Esse sentido é corroborado pelo vocábulo hebraico subjacente. A categoria de “animal de estimação”, compreendida como criatura destinada primordialmente à companhia afetiva e tratada como membro da família, é estranha ao horizonte conceitual do texto bíblico e constitui um desenvolvimento cultural recente. Aplicá-la às Escrituras seria, na verdade, um anacronismo.

2 - A família bíblica como comunidade de iguais que reflete a Trindade

A família, segundo a Escritura, constitui-se como comunidade de iguais em natureza, ainda que distintos em função. Gênesis 1.27 afirma que homem e mulher foram igualmente criados à imagem de Deus: “criou Deus o homem à sua imagem [...] homem e mulher os criou”. Essa igualdade essencial, não obstante a distinção de papéis entre os cônjuges, é o que possibilita a formação da família como instituição que reflete, ainda que de modo limitado e análogo, a comunhão eterna entre as pessoas da Trindade, nenhuma das quais é ontologicamente superior às demais.

Essa analogia trinitária pode ser observada em ao menos três aspectos da relação conjugal descrita em Gênesis 2.24. Primeiro, a exclusividade: assim como nenhum outro relacionamento pode equiparar-se ou sobrepor-se à comunhão entre Pai, Filho e Espírito Santo, o texto declara que o homem “deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher”, de modo que o vínculo conjugal assume precedência sobre os demais vínculos familiares. Segundo, a fidelidade e a indissolubilidade: em Mateus 19.6 (“o que Deus ajuntou não o separe o homem”), Jesus deixa claro que esses elementos são essenciais ao casamento. Terceiro, a intimidade profunda expressa na fórmula “serão os dois uma só carne”.

É nesse contexto que se deve compreender Gênesis 2.20, visto que, apesar de o homem ter nomeado todos os animais, para ele “não se achou ajudadora idônea”. A busca frustrada de uma companheira entre os animais demonstra, de modo inequívoco, que estes não podem constituir família com o ser humano, por não compartilharem da mesma natureza nem da mesma vocação espiritual e relacional. A solução narrativa — a formação da mulher a partir da costela do homem (Gn 2.21-23) — confirma que apenas um ser da mesma natureza pode integrar o núcleo familiar.

Segue-se daí que a família bíblica, entendida como comunidade de iguais que espelha a comunhão trinitária, não comporta a inclusão de animais, os quais, por não serem feitos à imagem de Deus, não podem ocupar o lugar de cônjuge, filho, irmão ou qualquer outro papel familiar.

3- Domínio responsável, não filiação

A Escritura ensina que o ser humano recebeu o encargo de dominar a criação: “e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.” (Gn 1.28). Esse mandato de domínio, entretanto, não autoriza crueldade; antes estabelece responsabilidade e hierarquia. Provérbios 12.10 afirma que “o justo tem consideração pela vida dos seus animais, mas as afeições dos ímpios são cruéis”. Isso evidencia que o cuidado com os animais é uma exigência bíblica legítima. No entanto, essa verdade não indica que eles devem ser equiparados a filhos.

A distinção entre essas duas categorias, filhos e animais, é reforçada pelo vocabulário bíblico específico. Os filhos são chamados de “herança do Senhor”, “fruto do ventre” e galardão” (Sl 127.3). Com base nisso, podemos afirmar que eles são dádivas a serem recebidas, cuidadas e criadas para a glória de Deus. Os animais, por sua vez, foram dados ao ser humano para serviço, auxílio e alimento: “tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento; tudo vos tenho dado como a erva verde.” (Gn 9.3). Confundir essas duas categorias, tratando animais como equivalentes aos filhos, constitui uma inversão da ordem estabelecida por Deus na criação.

Nesse sentido, o vocabulário contemporâneo que descreve a aquisição de um animal de estimação como “adoção”, tomando de empréstimo a terminologia própria da filiação humana e, no Novo Testamento, da relação entre o crente e Deus (cf. Ef 5.1), é imprecisa e afrontosa. Afinal, a adoção bíblica pressupõe uma relação de filiação plena, incompatível com a natureza do vínculo entre o ser humano e os animais, que a Escritura descreve em termos de senhorio e cuidado, não de parentesco.

4 - Consequências espirituais da humanização dos animais

Quando animais são elevados ao status de filhos ou de membros da família, ocorre, como contrapartida inevitável, um rebaixamento da dignidade do ser humano, que é imagem de Deus. Romanos 1.18-23 esclarece que uma das manifestações da idolatria humana consiste precisamente em “mudar a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis”. Ou seja, a substituição do culto devido ao Criador pela veneração da criatura, incluindo os animais. A tendência histórica de diversas culturas de atribuir caráter quase divino a determinados animais é apresentada pelo texto paulino como objeto da ira divina, por constituir inversão radical da ordem criacional.

Do ponto de vista teológico, os animais são constitutivamente incapazes de participar das dimensões que caracterizam a vida familiar e espiritual humana: não podem orar, não podem depositar fé em Jesus Cristo, não podem obedecer aos mandamentos, não podem crescer moral e espiritualmente, nem participar da comunhão espiritual que caracteriza a igreja e a família cristã. Tampouco correspondem, em sua natureza, à complexidade do amor sacrificial que a Escritura preconiza como fundamento das relações humanas; amor que, segundo o testemunho bíblico, implica o desejo do aperfeiçoamento do outro e a disposição ao sacrifício, conforme se manifesta paradigmaticamente na criação e educação dos filhos (cf. Dt 6.6-7).

Também no que se refere à amizade, a Escritura reserva esse conceito exclusivamente às relações humanas e ao relacionamento entre o crente e Cristo. Em João 15.13, Jesus afirma que “ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”, e o evangelho de Mateus registra que o próprio Jesus se dirigiu a Judas, no momento de sua traição, como “amigo” (Mt 26.50). Nenhum animal, todavia, recebe tal designação nas páginas do Novo Testamento. Provérbios 18.24 acrescenta que, embora o ser humano deva cultivar múltiplas amizades, “há amigo mais chegado do que um irmão”, apontando para a profundidade e a exigência moral que caracterizam o relacionamento humano; exigência da qual o vínculo com um animal está estruturalmente dispensado, por não envolver reciprocidade moral, consciência de certo e errado, nem capacidade de arrependimento.

Diante disso, conclui-se que a valorização contemporânea dos animais como substitutos relacionais de cônjuges, filhos ou amigos humanos não constitui apenas desvio cultural, mas configura, à luz do testemunho bíblico, inversão teológica que compromete tanto a compreensão da família quanto a centralidade de Cristo como fonte última de comunhão e contentamento para o ser humano.

Considerações finais

A análise dos textos bíblicos considerados permite concluir que os animais, embora criaturas boas de Deus e dignas de cuidado responsável, não podem ser tratados como membros da família, visto que não foram criados para ocupar tal posição. A família bíblica é composta por seres humanos criados à imagem de Deus, chamados à comunhão, ao crescimento moral e à glorificação do Criador; vocação da qual os animais estão, por natureza, excluídos.

Tratar animais como filhos, portanto, não representa apenas uma inadequação de linguagem ou um traço cultural contemporâneo, mas um equívoco de ordem teológica, que distorce categorias bíblicas fundamentais relativas à criação, à família e à própria antropologia cristã. A distinção estabelecida em Gênesis entre o que é feito “conforme a sua espécie” e o que é feito “à imagem de Deus” permanece, por conseguinte, como critério normativo para a reflexão cristã sobre o lugar apropriado dos animais na vida humana.

Visto isso, concluímos que eles são objeto de domínio responsável e de cuidado, mas incapazes de manter uma relação filial e de exercer comunhão espiritual ou amizade no sentido bíblico pleno do termo. Em suma, eles devem ser tratados como são: animais.

Pr. Cremilson Meirelles



[1]O livro de oração das igrejas brasileiras da Comunhão Anglicana prevê, dentre outros ritos, a bênção de animais. Cf. Livro de Oração Comum Brasileiro: administração dos sacramentos e outros ritos e cerimônias da igreja. Diocese de Recife – Comunhão Anglicana. Brasil, 2008, p. 595.

[2]RODRIGUES, Guilherme. Igreja goiana viraliza na web ao anunciar culto para pets. Disponível em: <https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2021/10/27/igreja-goiana-viraliza-na-web-ao-anunciar-culto-para-pets-musica-vai-ser-late-coracao.ghtml>. Acesso em: 22 jul. 2026.

[3] "Adiáfora" (do grego adiaphora, "coisas indiferentes") é um termo teológico que designa questões ou práticas que a fé cristã considera nem obrigatórias nem proibidas; ou seja, assuntos sobre os quais as Escrituras não se pronunciam de forma clara e decisiva, deixando-os à liberdade de consciência de cada crente ou comunidade.

[4] A expressão imago Dei é latina e significa "imagem de Deus". No campo teológico, ela se refere à doutrina de que o ser humano foi criado à semelhança de Deus.

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