sábado, 28 de janeiro de 2017

TODOS OS CRISTÃOS SÃO PENTECOSTAIS?

            Com frequência ouço cristãos afirmando com veemência que todos os servos de Jesus são pentecostais, porque a igreja d’Ele surgiu no dia de Pentecostes. Além disso, os que costumam fazer esse tipo de declaração, também têm por prática utilizar a palavra Pentecostes como sinônimo da efusão do Espírito Santo. Contudo, diante dessas assertivas, sempre tive a impressão de que algo não estava certo. Por conta disso, decidi verificar, à luz das Escrituras, a veracidade de tais afirmações, bem como a viabilidade de seu uso. Todavia, quero, desde já, deixar claro que este texto não tem a intenção de diminuir nossos irmãos pentecostais, considerando-os menos salvos ou menos santos que os cristãos tradicionais. O propósito é exclusivamente analítico.
            Primeiramente, é importante observar que o termo Pentecostes diz respeito a uma festa judaica, celebrada no quinquagésimo dia após a Páscoa como expressão de gratidão a Deus pelas colheitas. “O período era particularmente sagrado em Israel, quando eles reconheciam o Senhor como a fonte da chuva e da fertilidade” (TENNEY, 2008, p. 915). Entre os judeus helenistas, a festa era conhecida como Pentecostes (do grego pentecosté, que significa “quinquagésimo”), uma referência ao período de sete semanas de colheita. Todavia, em relação à Pascoa e à festa do Tabernáculos, o Pentecostes não se revestia de tanta importância, mesmo entre os judeus da palestina. Tanto, que, de acordo com Tenney (2008), na literatura rabínica essa festa, praticamente, não é mencionada. Além disso, só aparece uma vez no Antigo Testamento fora do Pentateuco (2Cr 8.13). Destarte, cabe-nos indagar: se a festa não gozava de tanta popularidade (como a Páscoa e os Tabernáculos), por que alguns cristãos atribuem a ela tanta importância, chegando ao ponto de considerá-la como sinônimo da descida do Espírito? Isso é, no mínimo, estranho. Afinal, a igreja cristã já rompeu com o judaísmo há muito tempo, não há necessidade de nos referirmos à descida do Espírito Santo como Pentecostes.
            Às vezes, fico pensando: será que se a descida do Espírito Santo ocorresse na festa dos Tabernáculos, haveria pessoas se autodenominando tabernaculais? E se acontecesse no dia da expiação, seriam expiacionais? Na verdade, penso que, por sermos brasileiros, o nome usado por quem supervaloriza o Pentecostes, deveria ser quinquagesimais, visto que este é o significado da palavra. A partir dessa reflexão (um pouco irônica), é possível perceber o absurdo da supervalorização do secundário (a festa) em detrimento do primário (a descida do Espírito Santo) e principal.
            Outro ponto importante a ser destacado, é que, embora para alguns o dia de Pentecostes seja tão importante, e, praticamente, sinônimo da descida do Espírito Santo, para os apóstolos aquele dia não era tão especial. Tanto, que nenhum deles, ao se referir ao derramamento do Espírito Santo, usa o termo “Pentecostes” ou “dia de Pentecostes”. Eles simplesmente falam do que aconteceu, sem nem mencionar a festa. Senão vejamos: Pedro, ao constatar que o Espírito Santo fora dado aos gentios na casa de Cornélio, lembra-se que o mesmo acontecera com ele, mas não emprega o termo Pentecostes para referir-se à sua experiência (Atos 10.44-47). De igual modo, ao relatar o fato aos demais apóstolos, ele não menciona a festa (Atos 11.15-17), apenas declara: “caiu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós ao princípio” (Atos 11.15). Veja: ele diz “ao princípio”, e não “no Pentecostes”. Se o uso do termo fosse tão importante como alguns pensam, a Bíblia diria isso.
            É interessante observar também que a palavra Pentecostes só aparece três vezes no Novo Testamento, duas no livro de Atos (2.1; 20.16) e uma na primeira carta de Paulo dirigida aos Coríntios (16.8). Entretanto, em nenhuma dessas ocasiões o termo é empregado como sinônimo da descida do Espírito Santo ou da origem da Igreja. Na verdade, em duas delas (At 2.1; 20.16), o Pentecostes é utilizado pelo escritor somente para indicar o período em que os eventos se deram, e não para “endeusar” a festa. Por outro lado, em 1Co 16.8, Paulo usa o termo para informar quanto tempo duraria sua estadia em Éfeso. Veja: em todas as ocasiões, o Pentecostes é usado simplesmente para indicação de tempo.
            Por conseguinte, fica evidente que o evento marcante em Atos 2 não é, nem nunca foi, a festa ou o dia de Pentecostes, mas sim a descida do Espírito Santo. Porquanto, conforme foi dito acima, a menção do “dia de Pentecostes” em Atos 2.1 é apenas uma maneira do escritor informar quando o episódio aconteceu, assim como ocorre em João 7.2, onde o evangelista utiliza a Festa dos Tabernáculos como marca linguística para localização temporal. Da mesma forma, a ideia de Lucas, com certeza, não era supervalorizar, e nem mesmo destacar, o dia de Pentecostes, mas apenas mostrar que a descida do Espírito Santo aconteceu naquele dia. Só isso. Por isso, o evento mais importante (a descida do Espírito) é destacado mais à frente (Atos 10.44-47; 11.15-17), enquanto o menos importante (Pentecostes) não aparece mais nos lábios dos apóstolos, mostrando que o dia em si não era tão importante, mas sim o que Deus realizou.
            Ademais, é necessário frisar que a igreja já existia antes do dia de Pentecostes. Isso fica evidente no fato de que os convertidos foram agregados (ou acrescentados). “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e, naquele dia, agregaram-se quase três mil almas” (Atos 2.41). Diante disso, surge uma questão: eles foram agregados a quê? A resposta encontra-se no mesmo capítulo de Atos: “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (Atos 2.47). Isto é, eles foram agregados à igreja. Além disso, como ressalta A.H. Strong (2003, p. 655), “é bom lembrar que o próprio Cristo é a união em corpo entre Deus e o homem, o verdadeiro templo da habitação de Deus. Logo que o primeiro crente ligou-se a Cristo, a igreja passou a existir”. Portanto, dizer que a Igreja de Cristo surgiu no dia de Pentecostes é um erro.
            O movimento pentecostal surgiu apenas no início do século XX, a partir de uma experiência extática vivenciada por alguns cristãos nos Estados Unidos. Contudo, a prática do grupo estava mais alinhada com a igreja de Corinto que com a de Atos 2. Sendo assim, afirmar que todas as igrejas cristãs são pentecostais é anacronismo.
            Pr. Cremilson Meirelles

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GINGRICH, F.Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento – Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 1984. 228 p.

STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003. 2 v.

TENNEY, Merrill C. Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008. 4v.