segunda-feira, 31 de outubro de 2016

AMÓS: NOSSO CONTEMPORÂNEO



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A realidade da igreja evangélica contemporânea, conquanto alegre muitos por causa das multidões que dominicalmente lotam os templos, dá sinais explícitos de sua enfermidade. Isto porque, as Escrituras foram gradativamente sendo deixadas de lado. De modo que as pregações são norteadas pelo desejo do público, e não pela verdade bíblica. O que o povo precisa ouvir, dificilmente, é falado.

Quem se dispõe a confrontar o sistema e lutar contra o engano tem que estar pronto também para contemplar o esvaziamento do templo, pois é isso que realmente acontece. As multidões só se ajuntam ao redor daqueles que fazem promessas antibíblicas e pregam mensagens antropocêntricas. Em meio a esse pandemônio, a mídia gospel aproveita e lucra com os shows e o misticismo que caracteriza os cultos pós-modernos, sobretudo os neopentecostais. Por conta disso, até mesmo igrejas históricas, que outrora eram fiéis proclamadoras da mensagem do Evangelho, têm cedido ante a tentação do crescimento fácil, alavancado pelo falso ensino. Por conseguinte, flexibilizam a doutrina, aceitando conceitos e práticas que noutro tempo eram vistos como heresia.

Nesse ínterim, uns poucos corajosos ainda insistem em contrariar tudo isso, tecendo críticas em suas comunidades de fé, blogs e redes sociais, agindo como os profetas do passado, batendo de frente com as heresias deste tempo, e se tornando, em virtude disso, os mais impopulares dos homens, sendo alvo do apedrejamento da massa, que perece desprovida de opiniões próprias, manipulada pelos falsos mestres.

Contudo, isso não é novidade. O próprio Cristo padeceu por causa da mensagem que anunciava. Diversos homens de Deus, desde o Antigo Testamento, tiveram suas vidas ceifadas por apregoarem a verdade. As adversidades não foram capazes de dissuadi-los. Porquanto, entendiam que o mais importante não era suas próprias vidas, mas a salvação daqueles que, sem Deus, faziam a vontade do mundo, da carne e do diabo.

O profeta Amós foi um desses sofredores. Encarregado de transmitir uma dura sentença deparou-se com um auditório assaz resistente. Isto porque, sua incumbência era anunciar o juízo divino sobre uma nação que acreditava estar sendo alvo do favor de Deus. Ou seja, o que o profeta falava era totalmente diferente do que a maioria pensava. Praticamente, ele estava sozinho. Algo bem semelhante ao que ocorre neste tempo, onde charlatões induzem o povo a crer que estão no centro da vontade do Senhor, ainda que tenham abandonado as Escrituras. Em oposição aos desvios propagados por esses movimentos Deus tem levantado homens que, tal como Amós, proferem discursos duros, mas bíblicos, apesar da reprovação dos ouvintes. Assim, em virtude das similaridades entre as desventuras do profeta e as dificuldades enfrentadas pelos atalaias contemporâneos, usarei seu exemplo, a fim de elencar questões de grande importância para a reflexão dos cristãos da atualidade.

Inicialmente, para compreendermos a natureza dos embaraços enfrentados por Amós, é necessário conhecer o ambiente histórico que os provocou. O primeiro aspecto a ser destacado, por conseguinte, é a data. Acerca desta, salientamos que o profeta em questão exerceu seu ministério em Israel no século VIII a.C., e foi contemporâneo de Jonas e Oséias. Naquele tempo, o Reino do Norte achava-se em seu apogeu no que tange à expansão territorial, à paz política e à prosperidade nacional, pois o rei Assírio Adad Nirari III (811-784), em uma série de campanhas contra as cidades-estados arameias (805-802), destruíra o poder de Damasco e removera por um tempo a ameaça Síria sobre Israel. Em razão disso, Uzias de Judá e Jeroboão II de Israel puderam estender seus limites quase chegando aos da época de Davi e Salomão. Tais sucessos inspiraram o orgulho nacional e a crença no favor incondicional de Yahweh para com Israel.

Não obstante, a riqueza de Israel deu ocasião à injustiça social e a avareza. Os pobres passaram a ser negligenciados e depois ativamente perseguidos. A religião tornou-se uma rotina, quase mecânica, alienada da real presença de Deus. Por isso, com uma intrepidez alavancada pelo próprio Senhor, Amós proclamou corajosamente uma mensagem centrada na justiça, retidão e retribuição divina, salientando que a prosperidade da nação servia apenas para aprofundar sua corrupção. Isto fica evidente no versículo 14 do capítulo 5, onde o profeta concita o povo a abandonar suas más obras: “buscai o bem e não o mal, para que vivais; e assim o SENHOR, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeis”. Ao fazer esta asserção, o profeta estava se referindo ao comportamento impiedoso do povo, concitando-os a buscar aquilo que é agradável a Deus e não o que O desagrada (as más obras). Esta verdade torna-se patente ao analisarmos o texto hebraico, pois a palavra traduzida como “bem” é tôḇ, a qual, literalmente, significa ser bom, alegre, agradável. Isto é, não se trata de um substantivo, mas sim um adjetivo. Da mesma forma, a palavra traduzida como “mal’ é rā’, que também é um adjetivo e significa ruim, de má qualidade, mau, malvado, etc. Na verdade, Amós estava se referindo às práticas dos israelitas, as quais desagradavam o Senhor. Os versículos anteriores corroboram essa assertiva, visto que, nestes, ele menciona o comportamento impiedoso do povo, condenando-o.

No v.15, Amós reforça seu apelo, utilizando o hebraico sane’, que traz em si a ideia de odiar o que é mau. Ele ordena ao povo (pois utiliza o imperativo) um posicionamento radical: desprezar totalmente o pecado e amar a Deus. Isto é, uma reforma de todo o sistema legal e social. De igual modo, os apologistas contemporâneos orientam os servos de Jesus Cristo a assumirem uma postura igualmente radical, rejeitando tudo o que contraria o ideal divino expresso através das Escrituras. Porque, tal como ocorria no tempo do profeta em questão, hoje em dia, a vida cristã se tornou muito mais ritualística que prática. As pessoas vão aos cultos no domingo, mas passam a semana toda praticando tudo aquilo que a Bíblia diz para não fazer. Isto é, cumprem os rituais, mas não vivem a fé que professam. Mesmo assim, creem firmemente que Deus está com eles, guardando-os, suprindo suas necessidades, sustentando-os.

Todavia, assim como ocorre atualmente, Amós era discriminado e desprezado por muitos. Isto porque, como vemos nas primeiras palavras do livro que leva o nome do profeta, ele era pastor de ovelhas. Porquanto, conforme explica Bailey (1995), o pastor de ovelhas, apesar de ser usado simbolicamente para representar reis, era desprezado socialmente. Ademais, para piorar a situação, embora fosse natural de Judá, fora comissionado por Deus para promulgar o juízo sobre as tribos do norte. Ora, desde a época de Jeroboão I, havia rivalidade entre o reino do sul e do norte. Acrescenta-se ainda o fato de que Amós era leigo, isto é, não era um profeta oficial. Pelo menos é isso que se depreende de sua assertiva em Amós 7.14: “Eu não era profeta, nem filho de profeta, mas boieiro e cultivador de sicômoros.” Ou seja, ao invés de chamar um profeta oficial, Deus chama um pastor de ovelhas para exercer o ministério profético, proclamando o juízo sobre Israel. Em suma, Amós era um “zé ninguém”, membro de uma classe discriminada, se dirigindo a um público que certamente o rejeitaria, por conta de sua naturalidade, e trazia uma mensagem profética sem ser profeta oficial. Realmente seria uma tarefa difícil (Talvez seja essa a razão de seu nome, o qual significa “carregado” ou “carregador de fardos”).

À semelhança de Amós, as vozes que clamam neste tempo, vêm de indivíduos rejeitados por não ostentarem títulos de destaque na cultura gospel, não possuírem livros escritos, programas de TV, e por causa de seu posicionamento diante da secularização e da relativização de tudo. Esses homens, ainda que num contexto desfavorável, onde o que predomina é o ensino dos reis desta geração, autodenominados “ungidos do Senhor”, lutam diariamente para que seus rebanhos não sejam levados pelos ventos de doutrina que sopram neste tempo. Por conta disso, sem medo, denunciam o pecado e desmascaram os falsos mestres, ainda que isso culmine na diminuição de seu rebanho e na discriminação dos outros.

Voltando ao livro de Amós, vemos que, ao anunciar destemidamente o juízo que sobreviria às nações circunvizinhas, o profeta atraiu a atenção dos israelitas, que sem dúvida se regozijaram por saber que o juízo divino fora determinado sobre seus pecaminosos vizinhos (Damasco, Filístia, Fenícia, Edom, Amon e Moabe), pois achavam que mereciam o castigo. O mais interessante, entretanto, é que o sétimo lugar na lista de julgamento é ocupado por Judá. Isto é, Amós prega até mesmo contra seus compatriotas! O motivo? Rejeitaram a Lei e desobedeceram seus estatutos (Am 2.4,5). Com toda a probabilidade isso foi extremamente agradável para os israelitas nacionalistas, que se ressentiam do orgulho religioso de Judá. Tivesse Amós terminado sua mensagem nesse ponto, ele poderia ter gozado de grande popularidade; mas não foi isso o que aconteceu. Em seguida, na lista das sentenças encontravam-se os israelitas, a quem ele dirigia a palavra.

Diante do desagradável discurso de Amós, o sacerdote Amazias voltou-se contra o profeta e o confrontou com um ultimato: “vai-te, ó vidente, foge para a terra de Judá, e ali come o pão, e ali profetiza.” Trocando em miúdos, o sacerdote quis dizer o seguinte: “vai anunciar esse tipo de mensagem lá na tua terra!” Mesmo assim, Amós não desistiu e seguiu, cumprindo a missão que Deus lhe confiara, anunciando corajosamente o triste fim de Amazias e Israel. É interessante como isso é atual! Afinal, os “sacerdotes” deste tempo tentam constantemente calar os indivíduos que, mesmo sem a aprovação da mídia, contrariam o senso comum, apregoando a verdade ainda que ela desagrade os ouvintes.

Outro ponto que chama atenção é a postura do povo. Porque, como mencionamos, o profeta se dirigia a um auditório que se considerava especial por estar vivendo um momento próspero. No entanto, espiritualmente, a nação ia de mal a pior. Por isso, Amós os concita a retroceder de seus maus caminhos. Porquanto, só desse jeito, o  ҆elōhê tsᵉḇāôth (Deus dos exércitos) estaria com eles (Am 5.14). Assaz relevante neste trecho, é o final da frase: “... e assim o Senhor, Deus dos exércitos, estará convosco, como dizeis”. As duas últimas palavras, com certeza, foram confrontadoras. Amós usa ăsher, que é uma partícula de comparação, podendo significar “como, segundo, conforme”; e emprega o hebraico ҆amar na 2ª pessoa do plural masculino, o qual significa “dizer, exprimir através da fala.” Com essa declaração o pastor de ovelhas de Tecoa, praticamente, estava dizendo o seguinte: Vocês vivem de forma irregular e falam constantemente que Deus os defenderá, não permitindo que o inimigo prevaleça sobre Israel, porém isso só acontecerá se houver mudança de conduta.

Sem dúvida, se Israel quisesse eliminar o sistema corrupto de falsas acusações, suborno e corrupção, e insistisse que somente decisões justas seriam tomadas, demonstraria uma mudança de coração. Amós declara que se uma reforma como essa ocorresse, talvez o Senhor pouparia o resto de José (Am 5.15). Quando ele diz “resto”, a palavra empregada é shᵉ ҆ērith, cujo significado é remanescente, sobrevivente. A partir dessa assertiva do profeta, é possível depreender que o juízo de Deus era inevitável, visto que só existia a possibilidade de poupar os sobreviventes. O Senhor já havia deliberado que iria castigar o povo por conta de seus pecados. Tanto, que nos versículos seguintes (Am 5.16-20), Deus promulga o julgamento iminente sobre Israel e mostra sua indignação com o comportamento israelita (Am 5.21-23).

Inobstante, no versículo 24, o Senhor manifesta seu desejo, mostrando o procedimento que espera de Israel: “corra, porém, o juízo como as águas, e a justiça, como ribeiro perene.” Isto é, Deus queria que, assim como fluem as águas, o sistema legal israelita fluísse, sem opressão, sem corrupção, e que, da mesma forma, houvesse justiça, honestidade, inocência, verdade, ou seja, o povo deveria mudar o aspecto moral e social de sua vida. E essa mudança tinha de ser permanente. Porquanto, conforme o texto em tela, a justiça deveria fluir como um ribeiro perene. Ora, a palavra traduzida como “perene” é o hebraico }êthān, que significa firme, constante, permanente, perene.

Seguindo essa linha, os homens de Deus deste tempo conclamam a igreja visível a uma mudança genuína e permanente. Afinal, o juízo está por vir, e ninguém poderá escapar (Ap 20.11-15). Contudo, assim como os ouvintes do profeta Amós, muitos evangélicos contemporâneos, embora procedam como o mundo do qual dizem não fazer parte, estão convictos de que gozam do favor do Senhor. Por conta disso, contraditoriamente, rogam ao Todo-poderoso “pese a mão” sobre seus opositores, tal como os israelitas, que vibravam com o juízo declarado sobre as nações vizinhas. Ademais, enquanto alguns líderes incentivam a busca pela prosperidade, a responsabilidade social da igreja é negligenciada.

Destarte, em face das semelhanças alistadas acima, é imprescindível que os defensores da sã doutrina sigam em frente, proclamando a verdade, ainda que os ouvintes sejam de semblante duro e obstinados de coração. Afinal, temos vivido no tempo em que muitos não suportam a sã doutrina, e amontam para si doutores conforme as suas próprias concupiscências, se recusando a dar ouvidos à verdade (2Tm 4.3). Visto isso, cabe aos fiéis combater o erro e apregoar o evangelho.



Pr. Cremilson Meirelles







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



BAILEY, Kenneth E. As parábolas de Lucas: a poesia e o camponês: uma análise literário-cultural. Tradução de Adiel Almeida de Oliveira. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.



BÍBLIA. Hebraico. Hebrew Old Testament and Hebrew New Testament. Londres: Trinitarian Bible Society, 1998.



KIRST, Nelson, et al. Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português. 18 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004. 305 p.



SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1995.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O PERIGO NEM SEMPRE “MORA AO LADO”

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
 

 
            A famosa frase “o perigo (ou o pecado) mora ao lado”, oriunda do mundo cinematográfico, normalmente é empregada com referência ao mal que se avizinha. Aparentemente, em algumas circunstâncias, isso faz sentido. Sobretudo, quando se trata de psicopatas (como é o caso do livro “Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado). No entanto, quando voltamos o olhar para as Escrituras Sagradas, percebemos que a frase em questão refere-se aos sintomas de algo muito mais profundo. Isso fica evidente na asserção de Jesus, em Mateus 15.19, quando o mestre assevera que é do coração que “procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.” Assim, fica claro que o perigo não mora ao lado, mas mora em nós, pois “não há homem justo sobre a terra, que faça bem e nunca peque.” (Eclesiastes 7.20)
            Todavia, o ser humano tende a procurar a razão do problema sempre fora de si. O culpado é sempre o outro, e não eu; se eu errei, foi porque ele errou primeiro. Desde criança já manifestamos essa inclinação adâmica. Essas ideias permanecem conosco e se desenvolvem conosco, chegando, até mesmo, a influenciar os sistemas filosóficos. Jean Jacques Rousseau (1712-1778), um filósofo francês, por exemplo, expressou o mesmo conceito adâmico ao defender que o homem nasce bom por natureza, sendo depois corrompido pela sociedade. O mais irônico, entretanto, é que esta afirmação é tão contraditória quanto a primeira; afinal, se a sociedade corrompe o homem, quem, então, corrompe a sociedade? Se a resposta for a própria sociedade, caímos na mesma contradição, uma vez que ela é composta de homens; e se dissermos que o homem se corrompe naturalmente com o tempo, na verdade, estaremos dizendo que é o homem quem corrompe a sociedade, caindo na mesma contradição.
            Esse tipo de raciocínio também é comum no interior das igrejas evangélicas. O perigo, o pecado, o erro, sempre está ao lado, fora de nós; o outro é sempre culpado por nossas insatisfações ou pelos problemas do grupo. Nunca temos culpa! Se não compareço com frequência, a culpa é de quem está à frente; se mais pessoas não são agregadas, a culpa é de alguém na igreja, menos minha; se as coisas não estão andando como eu penso que deveriam andar, a culpa é da liderança, não minha. Todavia, pensar assim só dificulta as coisas. Pois, além de não resolver os problemas, acaba fazendo com que fiquemos uns contra os outros.
            Precisamos compreender que o problema não está fora de nós, mas sim em nós. Sendo assim, para solucioná-lo, é necessário mudar a nós mesmos. Porém, esse tipo de mudança só Deus pode operar. Isto ocorre como um ato único por ocasião do novo nascimento, e como processo ao longo de toda a vida. Portanto, se servimos a Deus, temos de agir como Ele agiria (Efésios 5.1), fazendo bem aos que nos odeiam, orando pelos que nos perseguem, bendizendo os que nos maldizem e amando nossos inimigos (Mateus 5.44). Só pondo em prática os princípios do Reino conseguiremos conviver harmoniosamente como filhos do mesmo Pai.
Pr. Cremilson Meirelles