sexta-feira, 29 de maio de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE XIII

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa

Dando sequência à análise de 1Coríntios 14, nos deparamos com um aparente apoio às línguas estranhas. Afinal, no versículo 5, o apóstolo Paulo declara: “e eu quero que todos vós faleis línguas estranhas [...]”. Acerca disso, vale ressaltar que o termo “estranhas” não aparece no texto grego, ou seja, trata-se de um acréscimo feito pelos tradutores, os quais entenderam que a fala dos coríntios era diferente da de Atos 2; era algo esquisito, estranho. Com isso, percebemos que grande parte do discurso sobre as línguas pentecostais não é resultado de um estudo aprofundado das Escrituras, mas baseia-se em experiências particulares.
Avançando um pouco mais no versículo mencionado, vemos que o apóstolo usa as palavras “mas” e “muito mais”, mostrando que o que ele fala a seguir tem maior importância do que sua frase anterior. Obviamente, porque reconhece que o dom de pregar o evangelho diante dos ímpios é o maior de todos os dons. É exatamente isso que ele afirma: “e eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação” (1Coríntios 14.5).
A partir daí fica bem clara a intenção do apóstolo: que todos profetizassem, isto é, pregassem o evangelho. Veja bem, se alguém lhe dissesse que você pode escolher entre algo de grande valor e uma coisa de pouquíssimo valor, o que você escolheria? Sem dúvida alguma, o que tem mais valor. Pois bem, era essa atitude que Paulo esperava dos coríntios. Ele, inclusive, diz que “o que profetiza é maior do que o que fala línguas”. Ora, se você fosse um coríntio, cheio de si, achando-se muita coisa, o que desejaria ser? Maior ou menor? Qualquer um gostaria de ser maior, ou seja, abandonar as línguas e “buscar” a profecia. Era isso que Paulo queria!
Mesmo diante dessa afirmação, há quem argumente que, como o apóstolo disse, se houver intérprete, o problema está resolvido. Porém, veja que Paulo, ao falar a respeito da interpretação, refere-se ao próprio indivíduo que fala: “[...] a não ser que também interprete [...]”. Isto é confirmado em 1Coríntios 14.13: “pelo que, o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar”. Daí surge uma questão fundamental: se a mesma pessoa que fala deve interpretar, qual a razão para continuar falando algo que os demais não compreendem? Seria loucura! Pensando assim, Paulo, em 1Coríntios 14.6, continua, dizendo que não haveria proveito algum se fosse à igreja coríntia falando línguas estranhas, mostrando que isso não acontecia e nem aconteceria, ou seja, em hipótese alguma o apóstolo se dirigiria a quem quer que fosse falando línguas estranhas. PAULO NÃO FALAVA AS “LINGUAS ESTRANHAS’. Não foi à toa que ele disse que preferia falar cinco palavras em um idioma conhecido que pronunciar sons esquisitos que ninguém entende (1Coríntios 14.19).
Por outro lado, a advertência de Paulo em relação à interpretação das línguas revela que, até então, não havia quem interpretasse as línguas coríntias. Contudo, os coríntios não se preocupavam com isso, o importante era a sensação proporcionada pelo fenômeno. Assim, a fim de eliminar aquela discrepância, o apóstolo coloca uma condição que uma vez cumprida poria fim às maluquices dos coríntios. Todavia, mesmo diante disso, há quem considere que Paulo apoiava a bagunça coríntia, posto que em 1Coríntios 14.39 declara: “[...] não proibais falar línguas”. Entretanto, o fato do apóstolo não proibir não significa que ele concordasse. Na verdade, ao invés de proibir, ele optou por orientar. Porquanto, uma proibição não resolveria o problema gerado pelo entendimento equivocado das Escrituras. A solução era ensinar a sã doutrina. 
Pr. Cremilson Meirelles

segunda-feira, 18 de maio de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE XII

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa

Após refletirmos bastante sobre 1Coríntios 14.2, ainda resta uma questão: o que o apóstolo quis dizer com a palavra “mistério”? Muita gente pensa que isso tem a ver com respiração forte, arrepios e pulos. O curioso é que não encontramos nada disso nas Escrituras. Aliás, se observarmos atentamente o texto em questão, veremos que, em momento algum, aparece a expressão “em mistério”. Ele diz que quem fala “língua estranha” fala “de mistérios” ou “fala mistérios”, de acordo com algumas versões.  Portanto, não existe esse negócio de falar “em mistério”.
Além disso, no Cristianismo, o termo “mistério”, ao contrário do que alguns pensam, dá a ideia de segredos desvendados. O Filho de Deus, por exemplo, é “o mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações e que, agora, foi manifesto aos seus santos” (Colossenses 1.26). Isto é, Jesus era o segredo que esteve escondido desde a eternidade, mas que foi revelado. Logo, podemos concluir que, na Bíblia, “mistérios” são segredos temporários, e não manifestações de “línguas estranhas”. Assim, quando Paulo diz que o indivíduo fala de mistérios, refere-se ao fato de que, como ninguém o entende, o que ele profere é um segredo, um mistério. Contudo, trata-se de algo desvendado para Deus, pois só Ele consegue compreender as emoções humanas.  
Seguindo esse pensamento, o apóstolo ressalta algo extremamente óbvio: seres humanos precisam de línguas de seres humanos. Essa ideia fica bem clara em sua declaração: “o que fala língua estranha não fala aos homens [...] mas o que profetiza fala aos homens” (1Coríntios 14.2,3). Por isso, ele afirma que a profecia é superior às “línguas estranhas”. Porque é falada em um idioma que os seres humanos conseguem entender. Já as famosas “línguas estranhas”, definitivamente, são estranhas. Porquanto, embora houvesse membros da igreja coríntia que falavam outros idiomas, ninguém compreendia aquelas línguas. Tratava-se de um “dom” que não cumpria sua função, uma vez que a língua (como idioma) tem a função de, através de códigos linguísticos, expressar aquilo que o indivíduo pensa. Ora, se no uso das “línguas estranhas” nem a própria pessoa sabia o que estava falando, não havia utilidade alguma nisso. O raciocínio era suplantado pelo êxtase emocional, ferindo frontalmente o preceito registrado em 1Coríntios 12.7: “mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil”.
Apesar disso, pode ser que alguém, querendo defender essa prática, tente justificá-la, dizendo: “todas as vezes que vi alguém falando línguas estranhas havia intérprete”. Todavia, sinto informar que a experiência não pode servir de base para criar uma doutrina. Além do mais, com a interpretação, Paulo estava, claramente, tentando inibir os faladores de línguas. Foi com esse intuito que ele disse: “o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar” (1Coríntios 14.13). Porque, se eu consigo interpretar as esquisitices que falo, qual a razão para continuar falando em uma linguagem que ninguém (nem eu) compreende? Seria loucura.
 Outra contradição dos faladores de línguas é o uso da expressão “língua dos anjos”. Porquanto, se quem fala “línguas estranhas” só é compreendido por Deus, e não pelos anjos, por que usar “língua dos anjos” e não “língua de Deus”? A coisa piora ainda mais se alguém disser que Deus compreende a língua dos anjos porque, sendo Deus, é capaz de entender qualquer idioma; visto que, se é assim, por que não podemos falar em nossa própria língua? A resposta é uma só: para massagear o ego humano. Foi isso que Paulo quis dizer com “edifica-se a si mesmo”.
  Pr. Cremilson Meirelles

sexta-feira, 8 de maio de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE XI

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
Ainda analisando 1Coríntios 14.2, é necessário esclarecer alguns termos que aparecem no texto, pois alguns deles, aparentemente, dão margem para os faladores de línguas estranhas. Um desses casos é a expressão “em espírito”. Será que Paulo estaria se referindo ao êxtase caracterizado por manifestações que se assemelham às práticas das religiões de origem africana? Acredito que não. Porquanto, quando observamos o uso da palavra “espirito” no Novo Testamento, verificamos que em diversos trechos ela é empregada com referência às emoções humanas. Em 2Coríntios 2.13, por exemplo, o apóstolo afirma que seu “espírito” estava intranquilo. Em Atos 17.16, é dito que o espírito de Paulo se revoltou (ou se “comoveu”, conforme algumas versões). De igual modo, em Lucas 1.47, Maria declara que seu “espírito” se alegra.
Levando em conta essas passagens, creio que é dessa maneira que Paulo utiliza a expressão, ou seja, como referência ao estado emocional do indivíduo. Isto é, Paulo diz que quem fala línguas estranhas é movido pelas emoções. Isto fica bem claro quando ele contrapõe “espírito” e “entendimento”, em 1Coríntios 14.14,15, argumentando que se alguém ora em línguas estranhas o espírito ora bem, o entendimento, porém, fica sem fruto. Por causa disso, o correto seria orar com o espírito e com o entendimento. Assim, ele deixa bem claro que o falar línguas estranhas não é um ato da razão, mas da emoção. O indivíduo, movido pelo êxtase, fala coisas que ninguém entende.
Além disso, não há nenhum indício de que a expressão “em espírito” seja uma referência ao Espírito Santo, conforme defendem alguns. Seria até incoerente crer dessa forma, visto que mais adiante Paulo deixa bem claro que o “espírito” do qual fala é o espírito humano, uma vez que, no versículo 14, o apóstolo declara: “[...] Porque, se eu orar em língua estranha, o meu espírito ora bem [...]”. Note que ele diz “o meu espírito”, e não o Espírito Santo.
É importante salientar também que se o “falar línguas estranhas” fosse um dom espiritual que permitisse que o indivíduo falasse em código com Deus e isso fosse benéfico, não haveria necessidade alguma de interpretação. Afinal, se a pessoa está falando com Deus, por que deveria interpretar sua “conversa”? Qual a razão para tornar pública uma oração particular? Lembre-se: o apóstolo está falando sobre “orar em línguas estranhas”. Pra que interpretar uma oração? Se ela é pública e, por conseguinte, diz respeito a todos os presentes, seria mais fácil orar numa linguagem que todos entendessem! Era isso que Paulo estava questionando.
Com suas indagações, o apóstolo tentava mostrar aos cristãos coríntios que aquilo que eles consideravam divino e imprescindível era, na verdade, pagão e desnecessário. Continuar com aquela prática seria uma tremenda contradição. Era um falso dom, algo que não servia para nada. Por isso, ele diz que o “falar línguas estranhas” não se aproveita para nada. Ora, ele não havia dito que quem profere “línguas estranhas” fala a Deus? Como agora ele afirma que o dom, sem a interpretação, não serve para nada? Simples: porque o “dom” dos coríntios não era dom de verdade, Deus compreendia suas emoções quando falavam aquelas línguas, mas o “dom” não servia para nada. Até porque, ninguém poderia interpretar aquela língua. A possibilidade de interpretação é ventilada apenas para impedi-los de falar as “línguas estranhas”.  

Pr. Cremilson Meirelles

sexta-feira, 1 de maio de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE X

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Conforme vimos na última pastoral, profetizar nada mais é que proclamar as boas novas. Pensando assim, o apóstolo Paulo, em 1Coríntios 14.1, destaca a superioridade da profecia em relação aos outros dons. Até porque, como explicamos, jamais o dom mais importante seria a previsão de acontecimentos futuros na vida das pessoas. Afinal, isso nada contribuiria para edificação ou consolação, só traria angústia e inquietação, como inevitavelmente acontece nos grupos religiosos onde se busca “adivinhar” o futuro alheio.
Após essas considerações, podemos, então adentrar o versículo 2 de 1Coríntios 14. Este, na verdade, é o único texto que, teoricamente, serve de base para a crença nas línguas estranhas. Isto porque, nele Paulo faz uma afirmação que agrada os ouvidos dos faladores de línguas incompreensíveis. Pois diz, que “o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus”.
Entretanto, quando analisamos a frase do apóstolo à luz de todo o contexto bíblico, concluímos que ele jamais estaria dizendo que só pode falar diretamente com Deus quem fala línguas estranhas. Afinal, a Escritura diz claramente que temos acesso direto ao Pai por causa do sacrifício de Cristo, não por causa de línguas que ninguém entende. É pelo sangue de Jesus que, com ousadia, adentramos o Santo dos Santos (Hebreus 10.19). Foi Ele quem abriu o “novo e vivo caminho” (Hebreus 10.20). O próprio Jesus, em Seu ministério terreno, ensinou seus discípulos a orar na língua que eles conheciam (Mateus 6.9-13), e fazendo assim, disse Ele, o Pai, que vê o que está oculto, os recompensaria (Mateus 6.6). Portanto, não precisamos falar uma língua diferente para que Deus nos entenda. Nós nem sabemos orar como convém. Por isso, carecemos da intercessão do Espírito Santo (Romanos 8.26).
Ora, se, como defendem alguns, Paulo entendia que falar em línguas estranhas era o mesmo que falar com Deus, por que ele afirmaria, no versículo em questão, que ninguém entende o indivíduo que fala essas línguas, enquanto, no mesmo capítulo, diz que é melhor que, na oração, haja entendimento (1Coríntios 14.15)? Seria, no mínimo, contraditório.
A posição do apóstolo a esse respeito fica bem clara em Romanos 12.1, onde ele afirma que o culto cristão é racional. Sendo assim, algo que “ninguém entende” não deve fazer parte de nossas celebrações, e nem do dia a dia. Aliás, quando é dito que “ninguém entende”, isso também diz respeito a quem fala. Afinal, ninguém abrange a todos.
Veja bem, nem o próprio indivíduo entende o que fala! É justamente por isso que Paulo declara: “o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar” (1Coríntios 14.13). Na verdade, se observarmos o que diz 1Coríntios 14.2, facilmente concluiremos que nem os anjos conseguem entender. O único capaz de compreender os devaneios dos coríntios é o próprio Deus. Até porque, como diz a Escritura, “o SENHOR não vê como vê o homem. Pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração” (1Samuel 16.7). Assim, embora as palavras sejam ininteligíveis, Deus conhece a disposição do coração de cada um. Mesmo quando não falamos nada, Deus sabe exatamente o que queremos dizer com a expressão facial, com a gesticulação, com assobios e outros sons que emitimos. Por isso, ainda que uma frase dita em línguas estranhas seja um mistério para todos, o Senhor consegue compreender a intenção do coração de quem fala. Isto, entretanto, não significa que Ele aprove. Até porque, Deus também entende os palavrões que falamos, mas não se agrada disso.


Pr. Cremilson Meirelles