sexta-feira, 24 de abril de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE IX

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Enfim, chegamos ao capítulo 14 de 1Coríntios, trecho que tem sido usado, com frequência, para justificar a prática das “línguas estranhas”. Assim, a fim de esclarecer todas as questões referentes a essa passagem, a partir desta pastoral, analisaremos versículo por versículo desse capítulo.
Em 1Coríntios 14.1, o apóstolo Paulo deixa bem claro que amar e profetizar são virtudes muito mais importantes do que o fenômeno que ocorria em Corinto. Contudo, para entender o que ele quis dizer com isso, é necessário saber o significado do termo profetizar, que, definitivamente, não é uma referência à predição do futuro. Até porque, ao longo do texto, Paulo reforça a ideia de que este é o dom mais importante. Tanto, que ele diz que devemos procurar “principalmente” o dom de profetizar. Ora, pregar o Evangelho a todas as nações é a missão da igreja, não predizer o futuro. Jesus, após ter ressuscitado, deixou uma ordem bem específica a esse respeito: “ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15).
Assim, é óbvio que o profetizar mencionado pelo apóstolo jamais seria a mera predição do futuro. Não dá nem para comparar a proclamação das boas novas com um “dom de predizer acontecimentos nas vidas dos outros”. É evidente que a pregação do Evangelho tem muito mais valor que isso! Nem no Antigo Testamento o papel do profeta era prever o futuro. Sua tarefa principal era chamar o povo ao arrependimento e à obediência da Lei. Isso sim é profetizar: proclamar Cristo e chamar os ouvintes ao arrependimento. Já temos a mensagem, não precisamos de “novas revelações”; o homem precisa do Evangelho de Jesus Cristo. Por isso, Paulo defende que o dom de “profetizar”, ou seja, de anunciar as boas novas é o mais importante de todos.
Ainda acerca da profecia, deve-se levar em conta que o ofício profético, tal como apresentado no Antigo Testamento, já se encerrou. Hebreus 1.1 ressalta que “antigamente” Deus falou por meio dos profetas, mas hoje fala através do Filho. Isto porque, em Cristo temos a revelação máxima de Deus. O mistério que esteve oculto desde todos os séculos, e em todas as gerações, [...] agora foi manifesto [...]” (Colossenses 1.26). Logo, profetizar não é fazer previsões ou trazer novas revelações, mas proclamar a Palavra de Deus, sob a orientação do Espírito Santo, com o fim de edificar, exortar, consolar (1Coríntios 14.3), ensinar (1Coríntios 14.31) e convencer (1Coríntios 14.24,25).
Além disso, no Novo Testamento a profecia é claramente diferente do Antigo Testamento. Em 1Coríntios 14.29 vemos um exemplo dessa distinção, pois, de acordo com o texto, a profecia poderia ser julgada. Isto porque, não se tratava de uma nova revelação como a mensagem dos profetas do Antigo Testamento. Até o termo “profeta” é usado de maneira distinta. Em Tito 1.12, um poeta da ilha de Creta é chamado de “profeta”, pelo mesmo apóstolo que escreveu 1Coríntios 14. Porquanto, se ser profeta é falar por Deus ou em nome de Deus, e Jesus, conforme diz a Bíblia, é o próprio Deus, porque seus discípulos são chamados apóstolos e não profetas? Simples: o termo profeta, no Novo Testamento, tem um uso diferente do Antigo Testamento. A profecia não é mais uma “nova revelação”, mas a proclamação das boas novas.                                                                                                                        
Pr. Cremilson Meirelles





sexta-feira, 17 de abril de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE VIII

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Ainda que o “dom de línguas” manifestado pelos coríntios fosse uma deturpação do dom original, Paulo não trata do assunto com aspereza, mas com amor. Ele não os condena de imediato, mas os conduz a um raciocínio que, inevitavelmente, os levaria a abandonar aquela prática. Se não fosse assim, acredito que eles nem o ouviriam.
Por isso, o dom de interpretação de línguas só aparece em 1Coríntios. Em nenhuma outra lista do Novo Testamento vemos esse dom. Isto porque, como Paulo não queria ofender seus ouvintes, ele lançou mão de um mecanismo de contenção, ou seja, se quem falava a “língua estranha” pudesse interpretar (1Coríntios 14.13), jamais haveria a necessidade de falar em uma linguagem incompreensível. Fazê-lo seria o mesmo que alguém, diante de um auditório de fala portuguesa, começar um discurso dizendo: “Jesus Christ loves you”; e, em seguida, traduzir, dizendo: Jesus Cristo ama você! Por que não falar direto em português? Ora, se a pessoa sabe falar em português, para quê usar outro idioma? Para se exibir? O mesmo se aplica às “línguas estranhas”. Qual a lógica de falar algo em um idioma desconhecido para que alguém traduza para uma língua conhecida? Fazemos isso com estrangeiros, mas com pessoas da mesma nacionalidade é desnecessário.
Então, me responda com sinceridade: por que Deus faria um negócio desses só na igreja de Corinto? Em todo o Antigo Testamento vemos Deus falando ao seu povo, milagres acontecendo, mas não vemos línguas estranhas. Inclusive, o escritor da epístola aos hebreus afirma em Hebreus 1.1 que Deus falou “muitas vezes e de muitas maneiras”, porém em nenhuma dessas vezes vemos o fenômeno das línguas. Na verdade, o escritor prossegue ressaltando que o Pai nos fala neste tempo através do Filho. Isto é, para ouvir a voz de Deus só precisamos de Cristo, nada mais.
As línguas em 1Coríntios são tratadas como um problema, não como uma bênção a ser perseguida. Tanto que elas só aparecem na epístola endereçada à igreja de Corinto. Se as línguas incompreensíveis dos coríntios fossem comuns nas outras igrejas, certamente Paulo teria mencionado nas outras cartas, pois esse tipo de língua, que só edifica o indivíduo, que ninguém entende (1Coríntios 14.2), naturalmente, levaria aos mesmos problemas. Exatamente, como acontece hoje em dia: quem fala as famosas “línguas estranhas” é visto como mais espiritual, mais santo, etc.  
  O interessante é que Paulo deixa bem claro que o recebimento dos dons não é resultado do mérito humano, haja vista que, conforme salienta o apóstolo, o Espírito Santo distribui os dons “particularmente a cada um como quer” (1Coríntios 12.11). Portanto, ninguém tem um dom porque é mais santo do que o outro, ou porque buscou mais a Deus. A concessão dos dons depende da vontade soberana do Senhor, não do esforço humano. Até mesmo quando Paulo concita os coríntios a procurarem os melhores dons, sua intenção é mostrar que “os melhores” não são os que concedem destaque ou edificação própria, mas aqueles que promovem a edificação do Corpo, ou seja, que beneficiam os outros. Até porque, essa é a finalidade dos dons (1Coríntios 14.12): a edificação da igreja, não do indivíduo apenas.
Seguindo esse raciocínio, o apóstolo, ao listar os dons, coloca as línguas e a interpretação delas sempre em último lugar (1Coríntios 12.10,28,30), mostrando que, por não beneficiarem os outros, por não edificar o corpo, não eram os melhores, mas sim os piores, não devendo, por conta disso, serem buscados. Isto é reafirmado em 1Coríntios 14, quando Paulo, depois de dizer que o “dom de línguas” praticado pelos coríntios só edificava a quem falava, declara que eles deviam abundar nos dons espirituais “para edificação da igreja”, e não para edificação própria (1Coríntios 14.12). Diante disso, fica difícil continuar com as “línguas estranhas”.
Pr. Cremilson Meirelles 


quinta-feira, 9 de abril de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE VII

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
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Como vimos anteriormente, a igreja de Corinto era extremamente problemática. O que lhe sobrava nos dons (1Co 1.7) faltava em maturidade, sabedoria e espiritualidade. Um dos maiores problemas dos cristãos coríntios era o entendimento equivocado dos dons espirituais e da concessão do Espírito Santo. Sem dúvida, isso era resultado da origem religiosa de grande parte da membresia da igreja. Pois, como Paulo destaca nos primeiros versículos do capítulo 12, a maioria era oriunda do paganismo (1Coríntios 12.1,2). Isto é, diferente dos judeus, os coríntios não conheciam o Antigo Testamento, o que dificultava sua compreensão. Além disso, ao longo de toda sua vida eles vivenciaram a espiritualidade a partir do ensino das religiões pagãs. Por isso, o apóstolo diz que eles precisavam de leite e não de alimento sólido (1Coríntios 3.1-3).
Nos diversos tipos de paganismo, as línguas desconhecidas, proferidas por ocasião do êxtase emocional, eram vistas como consequência da ação de uma divindade. Por conta disso, os coríntios pensavam que só tinha o Espírito Santo quem falava línguas que ninguém entendia. A fim de combater essa ideia Paulo sublinha “que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema! E ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (1Coríntios 12.3); ou seja, todos os salvos são habitação do Espírito Santo (1Coríntios 3.16), não só quem fala alguma espécie de língua pagã desconhecida. Afinal, é pela atuação do Espírito que o homem é convencido do pecado, da justiça e do juízo (João 16.8).
Seguindo essa linha, Paulo ressalta que “há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Coríntios 12.4). Isto para enfraquecer os argumentos dos faladores de línguas desconhecidas, porque, ao contrário do que pensavam os coríntios, o Espírito Santo distribui vários dons, e não apenas um. Além do mais, o apóstolo destaca que “a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (1Coríntios 12.7). O foco da distribuição é a utilidade. Qual seria, então, a utilidade dos dons senão a edificação da igreja? É isso que Paulo declara em 1Coríntios 14.12,26 e Efésios 4.12. Logo, um dom que edifica apenas o indivíduo (1Coríntios 14.4), na verdade não é dom, visto que não cumpre o propósito dos dons, a saber, a edificação do Corpo de Cristo.
Assim, fica claro que o fenômeno manifestado na igreja de Corinto tratava-se de uma deturpação do dom de línguas original relatado em Atos 2. Até porque, não há nenhuma indicação na Bíblia de que o dom teria mudado. Em momento algum do livro de Atos é dito que houve uma alteração nas línguas, de modo que passaram a ser incompreensíveis. O texto não fala nada sobre isso. Em vista disso, a conclusão inevitável é que, embora o dom de línguas dissesse respeito a idiomas conhecidos pelos homens, os coríntios, por causa de sua origem religiosa, começaram a falar línguas incompreensíveis, à semelhança do que acontecia nos cultos pagãos. 
Pr. Cremilson Meirelles

quarta-feira, 1 de abril de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE VI

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
línguas estranhas
Havendo tratado das diversas ocorrências do dom de línguas no livro de Atos, resta-nos agora analisarmos o que o apóstolo Paulo fala sobre o assunto em sua primeira carta dirigida aos coríntios. Aliás, grande parte da prática e do pensamento a respeito das famosas “línguas estranhas” se baseia nessa epístola, mais especificamente no capítulo 14. Entretanto, antes de verificarmos o que o apóstolo disse no referido capítulo, é necessário elencar alguns aspectos peculiares da igreja de Corinto e do “falar em línguas”.
Em primeiro lugar, cabe salientar que, quando Paulo escreveu àquela igreja, o cenário era de desordem geral. Havia divisões na igreja (1Coríntios 1.10-13), o conhecimento era superestimado enquanto a experiência pessoal com Cristo era desprezada (1Coríntios 2.1-8), os cristãos coríntios não disciplinavam os pecados escandalosos praticados por seus membros (1Coríntios 5.1-5), moviam ações judiciais contra seus irmãos (1Coríntios 6.1-9), comiam alimentos sacrificados aos ídolos (1Coríntios 8.1-13), ofereciam sacrifícios aos deuses pagãos (1Coríntios 10.1-33), promoviam desordem na celebração da Ceia do Senhor (1Coríntios 11.17-22), além de descrerem em uma das doutrinas fundamentais do Cristianismo: a ressurreição. Por isso, Paulo escreveu 1Coríntios 15.  
Todas essas coisas refletem a falta de espiritualidade da igreja. Como, pois, poderíamos tomá-la como referência para nossa vida, uma vez que nem o apóstolo Paulo a tomou? Na verdade, a igreja de Corinto é um exemplo daquilo que não devemos fazer. Assim, ao tomar ciência de todos os seus problemas, Paulo os qualifica como carnais e meninos em Cristo (1Coríntios 3.1).
Os capítulos 12, 13 e 14 de 1Coríntios não fogem a essa realidade. Neles, o apóstolo busca corrigir os erros decorrentes da imaturidade e do entendimento equivocado a respeito dos dons espirituais. Porque, motivados por sua origem pagã (1Coríntios 12.1,2), os coríntios haviam deturpado o dom original manifestado em Atos 2, cujo propósito era viabilizar a comunicação do evangelho, vencendo as barreiras idiomáticas. As línguas dos coríntios, ao contrário, criavam ainda mais barreiras, visto que ninguém entendia o que era dito (1Co 14.2), uns eram considerados mais espirituais porque falavam as “línguas estranhas” e a edificação do Corpo (1Coríntios 14.12) não era alcançada (1Coríntios 14.4).
Além disso, é importante ressaltar que quase toda forma de paganismo, desde a Antiguidade, foi caracterizada por alguma forma de fala incompreensível produzida nos momentos de êxtase. Em Isaías 8.19, por exemplo, ao mencionar as práticas pagãs relacionadas à comunicação com os mortos e à adivinhação, o profeta destaca como característica desses grupos o chilrear, que no hebraico dá a ideia da emissão de ruídos incompreensíveis, possivelmente proferidos pelos feiticeiros. Outro exemplo histórico é encontrado no Egito antigo, em cerca de 1.100 a.C., quando um adorador do deus Amom ficou possesso e começou a proferir palavras incompreensíveis. De igual modo, a sacerdotisa do deus Apolo falava com sons estranhos durante os rituais. O filósofo Platão também descreve as “línguas incompreensíveis” em vários de seus diálogos. Portanto, definitivamente, essa não é uma prática cristã.
Pr. Cremilson Meirelles