sexta-feira, 21 de novembro de 2014

“O SOBRENATURAL DE DEUS”

Será que essa frase faz sentido? Bem, a maioria acha que sim. A prova disso é o uso frequente dessa expressão entre os evangélicos. Contudo, será que a aceitação dos crentes pode canonizar palavras, frases ou práticas? Creio que não. Até porque, a referência para os cristãos oriundos da reforma protestante sempre foi a Bíblia, e não “o que todo mundo faz ou crê”. Este, infelizmente, é o critério utilizado pelo evangelicalismo moderno. A moda gospel prevalece em detrimento das Escrituras.
Entretanto, quando a Palavra de Deus é levada em conta, é possível concluir facilmente que a frase em tela é incoerente. Porquanto, Deus é um ser sobrenatural. A Bíblia está repleta de textos que mostram isso. Em João 4.24, por exemplo, o próprio Jesus afirma que “Deus é Espírito”. Ora, conforme assevera o apóstolo Paulo, em 1Coríntios 2.9-16, o natural se contrapõe ao espiritual. Logo, se Deus é Espírito e o que é espiritual difere do que é natural, toda ação de Deus pode ser considerada sobrenatural.
Seguindo esse raciocínio, dizer que alguém verá “o sobrenatural de Deus” em sua vida não faz sentido algum. Até porque, já que o Espírito Santo habita em nós, podemos afirmar que Deus atua sobrenaturalmente em nós o tempo todo. Além disso, segundo a doutrina bíblica da preservação, Deus atua continuamente conservando “existentes as coisas que Ele criou, bem como as propriedades e forças de que as dotou” (STRONG, 2003, p. 602). Sendo assim, mesmo quem não crê nEle é alvo de sua ação e dependente do seu poder sobrenatural. “Os incrédulos continuam a viver neste mundo unicamente por causa da graça comum de Deus – toda vez que alguém respira, isso se dá pela graça, porque o salário do pecado é morte, não vida” (GRUDEM, 1999, p. 550). Isso sim é sobrenatural, pois o homem jamais poderia por seu próprio esforço adiar o juízo divino.
É claro que alguém pode argumentar, ressaltando que tal expressão é útil para fazer distinção entre aquilo que Satanás, um demônio ou um anjo realizam e aquilo que Deus faz. Isto porque, a ação do Diabo também é sobrenatural, assim como a dos anjos e dos demônios. Pensando assim, haveria o sobrenatural do Diabo, dos demônios, dos anjos e de Deus, uma vez que todos são seres espirituais. No entanto, esse raciocínio cai no mesmo erro, pois já que todos são espirituais a ação de todos é sempre sobrenatural. Eles estão acima do natural, do comum. Em Mateus 28.2, por exemplo, é dito que um anjo do Senhor, além de remover uma pedra de umas duas toneladas, provocou um terremoto com sua descida. Outrossim, em 2Pedro afirma-se que os anjos são “maiores em força e poder”, ou seja, eles são sobrenaturais. Mesmo assim, a Sagrada Escritura não se preocupa em fazer essa diferença entre um “sobrenatural” e outro. Até porque, conquanto os seres angelicais e os demônios sejam sobrenaturais, Deus é o todo-poderoso. Não há ninguém acima dEle.
Ademais, a maneira como se emprega a referida expressão dá a entender que se trata de algo diferente, que normalmente Deus não faz: “o sobrenatural de Deus”. O que aconteceu com o termo bíblico “milagre”? Não serve mais? Parece que não. A impressão que tenho é que o mundo gospel não sobrevive sem um novo jargão, sem frases de efeito, sem novas performances. Por isso, vemos expressões novas surgindo a cada dia: “os sonhos de Deus”, “o novo de Deus”, etc. O pior de tudo, porém, é que muitos líderes nem se preocupam com isso. Todas as novidades são encaixadas à medida que surgem sem nenhum questionamento, sem qualquer verificação bíblica. Aliás, quem questiona, automaticamente, é tachado de herege, legalista, chato, etc.
Para completar, a frase em questão, além de não estar registrada na Bíblia, é usada, geralmente, em discursos triunfalistas e mágico-religiosos, onde o líder determina o tempo e o lugar da manifestação do “sobrenatural de Deus”, fazendo com que todos entendam que esse “sobrenatural” diz respeito às bênçãos materiais e individuais. Definitivamente, não dá para concordar com isso. Porquanto, o simples fato de Deus falar conosco já é algo sobrenatural. Destarte, a única conclusão lógica é que esse negócio de “sobrenatural de Deus”, não só é esquisito e antibíblico como também representa crenças contrárias aos princípios do protestantismo histórico. Portanto, cabe a nós rechaçarmos não só o uso dessa expressão, mas toda espécie de jargões e frases de efeito produzidas pela subcultura neopentecostal, e vivermos um relacionamento íntimo com o Deus sobrenatural que muitos abandonaram há tempos.
Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GRUDEN, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova 1999.


STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. Trad. Augusto Victorino. São Paulo: Editora Hagnos, 2003.