segunda-feira, 16 de setembro de 2013

PODERIA CAIM TER SIDO PERDOADO?

           Decerto, uma das convicções mais fortes da maior parte dos crentes, algo que a maioria concorda, é que Caim, o primeiro filho de Adão e Eva, foi condenado pelo fratricídio que cometera e, por isso, está ardendo no fogo do inferno. Muitos, inclusive, seguindo esse raciocínio, esposam a ideia de que a descendência do primeiro homicida foi tão maligna quanto seu patriarca. A família de Sete, outro filho do primeiro casal, por outro lado, teria sido composta de santos homens e mulheres que buscavam a Deus incessantemente.
            Essa argumentação é usada para apontar a identidade dos filhos de Deus e das filhas dos homens, mencionadas em Gênesis 6.2. Os primeiros seriam os filhos de Sete, enquanto as mulheres seriam as filhas de Caim. Conquanto essa teoria seja bastante aceita, penso que as bases que a sustentam não são nem um pouco sólidas. Na verdade, ela parece basear-se numa espécie de “maldição hereditária” que acometeu a prole de Caim e uma “bênção hereditária” derramada sobre a descendência de Sete. Ora, não precisa nem buscar referências bíblicas para concluirmos que isso é balela. Quantas vezes já vimos ovelhas negras virem de famílias de homens de Deus ou pessoas de bem oriundas de famílias terríveis? Isso acontece o tempo todo! Davi, por exemplo, era homem de Deus, mas um de seus filhos estuprou a irmã (2Sm 13.1-14), o outro matou o irmão (2Sm 13.23-29) e tentou tomar o trono do pai (2Sm 15). De igual modo, os filhos do profeta Samuel, embora o pai tenha sido um excelente exemplo, foram corruptos (1Sm 8.1-3). Houve também pais de má índole que geraram bons filhos. Um exemplo disso é o rei Ezequias, filho de Acaz. Ainda que seu pai tivesse sido um dos piores reis de Israel (2Rs 16.1-4), ele, porém, foi um dos melhores (2Rs 18.1-6). Não existe esse negócio de “maldição hereditária”, nem “bênção hereditária”! Basta ler o capítulo 18 do livro de Ezequiel. “[...] a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4).
Voltemos então ao ponto de partida de nossa argumentação: o primeiro homicídio. O episódio narrado em Gn 4 não tem como propósito crucificar Caim e sua descendência, mas sublinhar o crescimento do pecado, retratado agora por meio da animosidade entre seres humanos. No texto, ambos, Caim e Abel, entregam oferendas ao Senhor. Caim, tal como seu pai, tornou-se agricultor (lavrador da terra – Gn 4.2). Por conta disso, naturalmente, sua oferta seria o produto do seu trabalho, ou seja, o fruto da terra. Abel, por outro lado, por ser pastor de ovelhas, ofereceu ao Senhor um de seus animais. No entanto, sem explicação alguma, Deus rejeita a oferta de Caim e aceita o sacrifício de Abel. É claro que Deus, contemplando o interior de ambos (1Sm 16.7), agradou-se do coração de Abel. A reação de Caim comprova isso (Gn 4.5). Assim, movido pela ira, Caim, que fora advertido por Deus (Gn 4.6,7), golpeia seu irmão e tira sua vida. Antes de prosseguirmos, cabe-nos indagar: será que Caim tinha ideia de que o golpe desferido contra o irmão resultaria em sua morte? Até porque, seguindo a lógica da narrativa, ninguém havia morrido ainda. Como ele poderia saber que Abel morreria? É claro que isso de maneira alguma pode absolvê-lo, mas certamente leva-nos à reflexão.
Mais à frente, após o homicídio, Deus interpela Caim sobre o paradeiro de seu irmão. Sua resposta é, no mínimo, irreverente, pois assevera que não é “o guardador de seu irmão” (Gn 4.9). Mesmo assim, Deus, o perdoador por excelência, o mesmo que havia manifestado misericórdia para com Adão e Eva quando estes lhe desobedeceram, procura conscientizá-lo da gravidade de seu ato: “Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” (Gn 4.10). O Senhor lhe mostra que seu erro teria consequências danosas: “E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão. Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na terra” (Gn 4.11,12). A declaração divina faz com que o assassino reflita sobre seu crime. Ele diz: “É maior a minha maldade que a que possa ser perdoada” (Gn 4.13). Ele reconhece sua atitude como errada (maldade) e que, por isso, não merece perdão. É como se ele, concordando com o dito do Senhor, dissesse: É... realmente eu errei! Não mereço ser perdoado! Sem dúvida, isso evidencia algo que nós conhecemos como arrependimento.
Infelizmente, por causa de algumas traduções tendenciosas, essa conclusão nem sempre é tão fácil. Há versões que dão a entender que Caim estava com medo do castigo que viria sobre ele. “Caim disse a Deus, o Senhor: -Eu não posso aguentar esse castigo tão pesado” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje). Todavia, isso pode ser facilmente solucionado quando analisamos o texto em seu idioma original. Porquanto, no hebraico, a palavra traduzida como “maldade” é ‘awôni, cuja raiz é ‘awôn, que, conforme Gerhard Von Rad (2006, p. 257), significa “delito, pecado, incluindo sempre uma consciência da culpabilidade”. O autor em questão ainda ressalta que “‘awôn tem a sua raiz na mentalidade malvada” (loc. cit). Isto é, Caim reconhece sua culpa, entende que o que fez foi algo muito ruim. Isto é confirmado pela Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento, a qual traduz ‘awôni utilizando o grego ̛aitia. Acerca desse termo, COENEN e BROWN (2000, p.489), afirmam: “usualmente, a palavra carrega o sentido de ‘acusação formal’, ‘culpa’, indicando a responsabilidade e a culpa que acompanham um ato”. Em outro texto (Lv 26.39), entretanto, a Septuaginta traduz ‘awôni como hamartía, palavra grega que significa pecado. Decerto, Caim assumiu a culpa e a responsabilidade pelo ocorrido, reconhecendo que sua atitude constituía um pecado diante de Deus. Isso fica evidente no versículo 14, no qual Caim assume as consequências de seu ato: “Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua face me esconderei; e serei fugitivo e vagabundo na terra, e será que todo aquele que me achar, me matará”.
Ademais, a palavra hebraica traduzida, na versão revista e corrigida, como “perdoada” (Gn 4.13), é o termo hebraico minᵉśô’, cuja raiz é o verbo nāśā’, o qual aponta para as seguintes possibilidades: “Levantar, erguer, carregar, suportar; levar, levar embora, tomar; conter” (KIRST et al., p. 161). Em diversos textos (Êx 34.7; Nm 14.18; Mq 7.18), nāśā’ significa “o levar embora, o perdoar o pecado, a iniquidade e transgressão” (HARRIS, ARCHER e WALTKE, 1998, p. 1004). Em Gn 4.13, o verbo é usado no modo Nifal, grau simples da voz passiva, com referência ao substantivo ‘awôni. Isto é, a ideia é de que a iniquidade de Caim era tão grande que não poderia ser levada embora. Diante disso, pode-se depreender que Caim está dizendo que, dada a dimensão do seu pecado, Deus não poderia levá-lo embora, ou melhor, removê-lo. Tal declaração, na verdade, constitui uma impossibilidade teológica. Até porque, não existe pecado que Deus não possa perdoar.
É exatamente nesse momento de reconhecimento do erro, de contrição, que a misericórdia divina é manifestada. Pois, depois que o assassino reconhece o seu pecado, a Bíblia deixa transparecer o perdão de Deus, O qual, sem nenhuma explicação (tal como fizera aceitando o sacrifício de um e rejeitando o do outro), dá a Caim um sinal de graça, protegendo-o de todo o mal (Gn 4.15). Por mais que nós não consigamos perdoar Caim, Deus era plenamente capaz de perdoar um criminoso arrependido. Ele o fez com Moisés, que também cometeu homicídio (Êx 2.11,12) e com Davi (2Sm 11).
 O perdão concedido a Caim fica patente quando analisamos o nome que ele dá a seu filho (Gn 4.17). De acordo com LASOR (1999, p. 20), o nome “Enoque está associado à dedicação, consagração”. Ora, normalmente, na Bíblia, os nomes dados às pessoas e aos locais, estão relacionados a algo que aconteceu. Obviamente, Caim havia iniciado[1] uma nova fase em seu relacionamento com Deus. Ele estava dedicando seu filho e sua vida a Deus. Até porque, o mesmo nome dado ao filho é dado à cidade edificada por ele (Gn 4.17). Por sentir-se perdoado, Caim dedica sua vida e família ao Senhor. Além disso, ao contrário do que dizem alguns, a Bíblia mostra a prosperidade da geração de Caim, e não sua decadência. Os primeiros músicos vieram de sua família (Gn 4.21), assim como os primeiros artífices (Gn 4.22), os primeiros fazedores de tendas (Gn 4.20) e, além do mais, Caim foi o primeiro urbanista (Gn 4.17). A genealogia em questão só apresenta um exemplo negativo: Lameque (Gn 4.19,23,24).
Quanto ao fato de Caim ter se retirado da presença do Senhor, vale salientar que, embora tivesse sido perdoado por Deus, Caim teria que arcar com seus erros, assim como Adão e Eva. Por isso, o Senhor o expulsou da terra fértil cultivada. Desse modo, retirou-se da presença de Javé. Isto, não significa, entretanto, que ele não adorou mais a Deus, mas trata-se de um dos muitos antropomorfismos característicos dos primeiros capítulos de Gênesis. O mesmo ocorre em Gn 3.8, quando o texto diz que Deus passeava no jardim, atribuindo forma humana ao Senhor. De igual modo, em Gn 2.7, a Bíblia mostra Deus assoprando nas narinas do homem e moldando-o como um escultor. Isto é, aspectos humanos atribuídos ao criador, que é espírito (Jo 4.24). Destarte, quando o texto diz que Caim saiu de diante da face do Senhor (Gn 4.16), a ideia é que ele deixou aquele lugar e foi peregrinar, porquanto Deus dissera que ele seria nād (peregrino).
No que tange à genealogia de Sete, é necessário frisar que, conquanto Noé e Enoque se destaquem, não há razão para santificar toda a sua descendência, elevando-os ao patamar de “filhos de Deus”. Até porque, a tragédia que se tornou o homem tem mais a ver com a geração de Sete do que com a de Caim, pois Gn 6 dá sequência à genealogia do capítulo 5, que apresenta os filhos de Sete. Ademais, todos morreram no Dilúvio, inclusive os descendentes de Sete.  
Visto isso, acredito que o capítulo 6 de Gênesis trate da corrupção da humanidade, dando continuidade ao crescimento do pecado, desde o Éden. Não podemos apedrejar Caim, pois todos somos pecadores. É claro que, em dado momento de sua vida, tal como ocorreu conosco, Caim foi do maligno (1Jo 3.12). No entanto, Deus foi ao seu encontro, dando-lhe a oportunidade de refletir acerca de seu pecado e arrepender-se, sendo, então, alcançado pela graça divina.
Definitivamente, à luz do que foi apresentado, não há razão para estigmatizar a descendência de Caim, quando, na verdade, toda a humanidade pecou em Adão. O fatricídio de Gênesis 4 é apenas uma evidência da natureza caída que compartilhamos. O próprio Jesus declarou que “do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mt 15.19). O mal está em todos, e não só nos filhos de Caim. Mas, mesmo assim, a graça divina nos alcançou. Por que não poderia alcançar o primogênito de Adão? Reflita nisso. Deus o abençoe!

 Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Trad. Gordon Chown. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. 1 v. 1360 p.

HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998. 1789 p.

KIRST, Nelson, et al. Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português. 18 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004. 305 p.

LASOR, William S; HUBBARD, David A; BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999. 860 p.

RAD, Gerhard Von. Teologia do Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: Aste/Targumim, 2006. 901 p.





[1] Outra tradução possível para o termo ḥănôkh.

sábado, 7 de setembro de 2013

SÍMBOLOS DO ESPÍRITO SANTO


Muitos são, no meio evangélico, os elementos apontados como símbolos do Espírito Santo. Dentre eles, os mais famosos são o fogo, o azeite, o vento, a água e a pomba. Entretanto, tal como acontece com muitas outras doutrinas, nem todos esses “símbolos” podem ser justificados biblicamente. As coisas simplesmente são assim, porque os pregadores dizem que são. Assim, contrariar esse pensamento é, sem dúvida, encarar um grande desafio. É como dizer para um católico que Maria não permaneceu virgem. É um artigo de fé. Mesmo assim, dispus-me a enfrentar a resistência para defender a Escritura. Por isso, neste artigo, pretendo por à prova esses símbolos, a fim de descobrir se fazem jus à fama que desfrutam. 
Pois bem, dentre os “símbolos” relacionados, só dois deles têm relação direta com o texto bíblico. Em Lc 15.22, por exemplo, vemos que o Espírito Santo desceu sobre Jesus como uma pomba; os termos grego e hebraico usados como referência ao Espírito de Deus significam, literalmente, sopro, ar, vento, fôlego; Contudo, isso não significa que em todo texto em que esses elementos aparecerem representarão o Espírito Santo. Até porque, a história da humanidade testifica que todo símbolo é polissêmico, isto é, tem vários sentidos. O fogo é um claro exemplo disso, visto que ele pode simbolizar a destruição (vulcão, incêndio, explosão), a purificação (alusão à purificação dos metais pelo fogo), a transformação (metalurgia), a iluminação, o poder (para destruir – flechas inflamadas) e a segurança (fogueira na floresta).
Essa variedade de significados é bem clara no texto bíblico. O fogo, ao contrário do que defendem alguns pregadores, em muitos textos é símbolo do juízo divino (Dt 32.22; Jr 4.4; 15.14; Ez 22.21; Na 1.6). O próprio Deus, inclusive, é comparado a um fogo devorador (Dt 4.24; Hb 12.29). Da mesma forma, quando Jesus se refere à condenação eterna usa a ideia do fogo (Mt 3.10-12; 7.13; 25.41; Mc 9.43). Por outro lado, houve momentos em que a presença de Deus foi representada pelo fogo (Êx 13.21; 19.18), a fim de enfatizar sua santidade (ninguém poderia se aproximar dele, tal acontecia com o fogo). O fogo foi usado também para simbolizar um amor intenso (Ct 8.6), a língua injuriosa (Pv 16.27; Tg 3.5), a impiedade (Is 9.18), e até a Palavra de Deus (Jr 23.29). Em nenhum lugar, entretanto, encontramos o fogo como símbolo do Espírito Santo. Em At 2.4, por exemplo, há a menção de “línguas como que de fogo”, não “de fogo”. Sem dúvida, trata-se de uma teofania, ou seja, uma manifestação de Deus no plano físico, e não um símbolo exclusivo do Espírito Santo. Outrossim, no texto de Mateus 3.11, o emprego do fogo, claramente, diz respeito ao juízo divino. Logo, O FOGO NÃO É SÍMBOLO DO ESPÍRITO SANTO.
Assim como ocorre com o fogo, ao azeite é atribuída uma simbologia que não lhe cabe. Porquanto, embora o uso figurado do azeite nas Escrituras seja bastante variado, não há respaldo para afirmar que esse elemento seja “símbolo do Espírito Santo”. Em Pv 21.17, por exemplo, aparece como símbolo da extravagância; em Sl 45.7 é usado para simbolizar a alegria; em  Jl 1.10, a ausência do azeite é símbolo do desprazer divino; por outro lado, em Jl 2.24 sua abundância é vista como símbolo do favor do Senhor; em Lc 7.38, vemos que o óleo é usado em um gesto de boas-vindas; o azeite também era reconhecido como um medicamento entre os judeus (Isaías 1:6; Marcos 6:13; Lucas 10:34 e Tiago 5:14); em Lv 8.10-12, 1Sm 10.1, Is 61.1 o azeite representa a consagração (a dedicação a Deus, separação para o serviço divino ou uso no culto) de pessoas e objetos a Deus, mas, em hipótese alguma, a Escritura dá indícios de que seja um símbolo da presença do Espírito Santo, até porque Este jamais viria sobre objetos. É claro, porém, que aqueles que eram consagrados normalmente tornavam-se alvos da ação do Espírito de Deus, visto que sem a capacitação dada por Ele jamais poderiam exercer a tarefa que lhes fora confiada. Contudo, isso não transforma o azeite em “símbolo do Espírito Santo”.
Outro texto muito usado para defender o azeite como símbolo do Espírito Santo é Mt 25.1-13, a parábola das dez virgens. Todavia, não há nenhuma evidência no texto, nem fora dele, que nos leve a essa conclusão. Ora, Jesus se remete a um público que ainda não havia experimentado a presença contínua do Espírito, até porque Ele só viria em At 2. Logo, como poderia Cristo alertá-los sobre a busca de algo que eles nem haviam experimentado. Além disso, a parábola das dez virgens complementa a parábola dos dois servos (Mt 24.45-51), que a antecede. Nela Jesus descreve mais uma vez a condição em que os discípulos estarão por ocasião de seu retorno, se não estiverem preparados. Por isso, o noivo (Cristo) é a figura central, não o azeite. As virgens representam a igreja, composta de crentes genuínos e falsos. A diferença principal entre as virgens não é a quantidade de azeite, mas o fracasso das néscias no tocante à preparação para a vinda do noivo. Isto é, os verdadeiros cristãos estarão sempre preparados, os falsos confiarão na santidade alheia para serem salvos. Com isso, o texto enfatiza o caráter individual da salvação. Isto fica patente, na resposta de Jesus às virgens loucas: “em verdade vos digo que vos não conheço” (Mt 25.12). O noivo nem as conhecia, ou seja, elas representam as pessoas que embora façam parte do convívio da igreja local, nunca foram igreja no sentido universal do termo, eram o joio no meio do trigo.
De modo algum, o azeite poderia simbolizar o Espírito Santo nesse texto, pois as néscias queriam comprar mais azeite. Ora, o Espírito Santo não pode ser comprado. Simão tentou fazê-lo e foi repreendido por Pedro (At 8.18-20). Ademais, em momento algum, no texto em pauta, Jesus fala do Espírito Santo. Esse não é o propósito da parábola. Contudo, a despeito do silêncio de Jesus em relação a esse simbolismo, muitos pregadores têm visto o Espírito Santo em todo e qualquer lugar da Escritura em que há menção de azeite ou óleo.
Entretanto, há de se observar que, em 1Jo 2.20-27, a Escritura compara o Espírito Santo à unção derramada sobre os reis e sacerdotes. Vale ressaltar, no entanto, que o referido texto não diz que o azeite é o Espírito Santo, mas que a antiga unção do Velho Testamento, que tinha como finalidade consagrar o indivíduo a Deus, foi substituída pela presença permanente do próprio Espírito Santo. Só nessa situação há alguma relação entre o Espírito Santo e o azeite. Logo, O AZEITE NÃO É SÍMBOLO DO ESPÍRITO SANTO.
Mas, e quanto à água? Será que há alguma relação com a 3ª pessoa da Trindade? Conforme explica o historiador romeno Mircea Eliade (2008) a água, como todo símbolo, possui um caráter polissêmico. Assim, em muitas culturas ela é vista como fonte da vida, da imortalidade, da juventude, como princípio da cura, símbolo da purificação e do renascimento. Na água tudo se dissolve. Destarte, a imersão simboliza a dissolução do antigo ser, enquanto a emersão aponta para o seu renascimento. Isto porque, a água é fonte de vida por excelência. Por outro lado, esse elemento, quando em grande volume, possui um aspecto negativo, simbolizando sofrimento, morte, destruição.
Tal como ocorreu com o fogo e o azeite, devido à sua grande variedade simbólica, a água facilmente adentrou o cenário religioso. Houve, inclusive, no paganismo, diversas divindades associadas às águas (Poseidon, Coventina, Yam, Enki, etc). De igual modo, na Bíblia, a água é largamente empregada de maneira simbólica. No Antigo Testamento, por exemplo, as bênçãos divinas são descritas como águas abundantes (Sl 1.3; 23.2; Jr 17.7,8). Por isso, o anseio pelas bênçãos de Deus é retratado, em alguns trechos, como sede ou anelo (Sl 63.1; 143.6). O próprio Deus chama a si mesmo de “manancial de águas vivas” (Jr 2.13; 17.13). A água é vista também, no contexto veterotestamentário, como agente de purificação (Nm 19.7-9, 20; 31.23). O efêmero era aludido com base na água corrente (Jó 11.16). Porém, em virtude de seu aspecto destrutivo, às vezes, a água simbolizava a aproximação dos inimigos (Jr 47.2; Is 8.7,8; 17.12) ou perigos iminentes (Sl 88.15-18; Os 5.10).
No Novo Testamento, Jesus também utiliza o simbolismo aquático em suas mensagens, para aludir à salvação e seus benefícios (Jo 4.10-14; 7.37-39), usando a água como símbolo da nova vida que Ele oferecia. Isto é, assim como Deus, no Antigo Testamento, era a fonte das águas, Jesus se apresenta para funcionar do mesmo modo que Deus. Em João 7.37-39, entretanto, a metáfora da água viva indica que o Espírito Santo, tal como ocorre com a água corrente, seria abundantemente derramado sobre aqueles que cressem. Não seria mais como no Antigo Testamento, quando Ele vinha sobre alguém por um período limitado. Isto é, o Espírito seria derramado como água sobre uma terra sedenta (Jl 2.28; Is 44.3). Essa aplicação não significa que Ele seja representado pela água, mas que “como a água” Ele seria derramado. Isto é, Jesus toma emprestada a imagem do fluxo constante da água corrente e a aplica à concessão do Espírito, não ao Espírito em si. Da mesma forma, em Atos 1.5, Jesus usa o batismo físico para aludir ao derramamento do Espírito Santo. Ele faz isso, não porque a água simboliza o Espírito Santo, mas porque ela é vista como fonte da vida física, assim como o Espírito Santo é a fonte da vida espiritual. Daí a ideia de ser mergulhado no Espírito. Porquanto, tal como ocorre com os peixes, que só têm vida física dentro d’água, só há vida espiritual no Espírito Santo. Por isso, como diz Romanos 8.9, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele”.
Por conseguinte, afirmar que a água tem uma relação simbólica com o Espírito Santo não é mentira. Não obstante, afirmar que a água é um símbolo do Espírito Santo é limitar seu simbolismo. Até porque, há diversos outros textos em que a água simboliza outras realidades. Contudo, para defender essa ideia, muitos usam até textos que nada têm a ver, como, por exemplo, Gn 1.2, onde o Espírito de Deus paira sobre a face das águas. A ação do Espírito ali é o foco, não a água. O fato de Ele pairar sobre as águas, representa, na verdade, a geração da vida. Assim, para evitar os equívocos cometidos por muitos pregadores, é melhor verificar o contexto de cada texto individualmente antes de fazer afirmações que dizem respeito a toda a Escritura.

                                                                                      Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 6: dicionário – A – L. 2 ed. São Paulo: Hagnos, 2001.

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. Tradução de Fernando Tomaz e Natália Nunes. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.